Mulheres na arbitragem do jiu-jitsu: um espaço que também é nosso


Não é de hoje que as mulheres vêm ocupando cada vez mais espaços no jiu-jitsu. Quem ainda acha que o tatame não é para mulheres, é porque parou no tempo e não abriu a cabeça. Somos muitas: praticantes, atletas, professoras e… árbitras!

Seja qual for o caminho que você queira tomar no jiu-jitsu profissionalmente, é preciso muita dedicação, estudo e prática. Na arbitragem não é diferente. Ainda vemos poucas mulheres atuando como árbitras, por isso é tão importante mostrar que esse lugar também pode ser nosso e que também somos capazes!

Para isso, trouxe duas mulheres para falarem sobre arbitragem: Renata Borges, faixa preta de jiu-jitsu, e Michelle Assis, faixa marrom.

Depois de ter uma mulher arbitrando uma luta sua em 2014, Michelle se sentiu motivada e encorajada a seguir o mesmo caminho. Me senti representada enquanto mulher e vi na arbitragem uma possibilidade de uma carreira profissional, que como atleta eu sabia que não teria, porque comecei a treinar tarde.”

Apesar de trabalhar como STAFF nos campeonatos desde 2016, Renata dizia que nunca iria arbitrar, por achar difícil e por não pensar que seria capaz. “Mas fui mudando de ideia e fiz o curso da SJJSAF. Quando vi a Michele arbitrando, achei o máximo e me senti capaz também.” Ela ainda completa: “Adoro estar ali. Quanto mais eu arbitro, mais eu aprendo. Fora que quase não tem mulheres arbitrando, então estar ali também é uma forma de inspirar outras meninas.”

Renata Borges atuando | Foto: Flashsport

Falando em ser exemplo para outras mulheres, ambas contam que já receberam meninas nos campeonatos falando o quanto era legal ter arbitragem feminina em suas lutas. “Muitas já vieram falar comigo que gostariam que eu arbitrasse luta delas. Algumas já me deram parabéns e disseram que me admiram. Isso é muito bom e me deixa mais motivada a continuar.”, conta Renata. Segundo Michelle, a sensação é gratificante: “Quando me dizem que querem ser árbitras também, que querem ser iguais a mim, chego a me emocionar! Sei que estou causando o mesmo efeito que uma mulher já causou em mim e que o resultado disso serão mais mulheres arbitrando.”

Desafios e dificuldades

Trabalhar com arbitragem também tem seus desafios. Renata ressalta que tem que saber controlar bastante o emocional: “Lidar com a pressão de estar ali dentro, professores gritando, luta muito movimentada. Hoje consigo lidar melhor com isso do que quando iniciei, mas não é fácil.”

Algo que muitos árbitros e árbitras vivenciam e acaba sendo uma dificuldade, segundo eles, é a falta de conhecimento da regra por parte de alguns atletas e professores, como relata Michelle: “As pessoas que estão na grade muitas vezes não conhecem a regra, mas gritam, reclamam e te ofendem como se soubessem mais que você. Eu estudo muito! Tô sempre tentando me aperfeiçoar para errar o mínimo possível! As pessoas esquecem que estamos ali fazendo nosso trabalho. Professores e atletas muitas vezes não se preocupam em conhecer as regras do evento que vão participar, e nos criticam de acordo com a vivência em outras federações. É bem desgastante.”

Renata relata um episódio que aconteceu arbitrando uma luta infantil que demonstra essa situação. “A criança finalizou a outra com um golpe legal, mas o professor não sabia a regra e achava que eu estava errada. Tentei explicar a regra e ele não quis entender, então começou a falar um monte de besteiras, ainda disse que ia me perturbar até o final do evento. Quase atrapalhou minha concentração nas outras lutas infantis, incentivando as crianças a fazerem golpes ilegais para eu errar. Mas eu apenas ignorei.”

Michelle ainda ressalta que sente um peso de ter que provar que é muito boa, por ser mulher. “Se eu erro, ou se quem está assistindo acha que eu errei, o erro (ou suposto erro) é atribuído ao fato de eu ser mulher. Eu tenho que justificar a oportunidade, senão tem gente que encara como uma ‘cota feminina’. Quero equidade sim! Para isso preciso de oportunidade, mas se estou ali tendo oportunidades é porque estudo, porque me dedico, porque mereço.” Mas ela diz que a questão mencionada antes do desrespeito de alguns atletas e professores também acontece com os homens arbitrando.

Michelle Assis atuando | Foto: Flashsport

Incentivo

Para finalizar, as duas deixaram algumas dicas e um incentivo para quem também pensa em seguir por esse caminho. Renata destaca que nunca deixem de acreditar no próprio potencial. “Arbitrar não é fácil, erros acontecem, infelizmente aparecerão pessoas mal educadas que possam te desestabilizar, mas com estudo e dedicação tudo dá certo no final. Meninas que se interessam mas tem medo, estudem e façam o curso. Vale a pena e o aprendizado é constante.”

Michelle também deixa uma dica, para que não deixem de estudar a regra e que participem também de campeonatos como atletas. “Não parem de treinar! O árbitro precisa prever o máximo possível as possibilidades daquela luta, então você tem que treinar! Tem que conhecer o maior número de posições possível e precisa saber a regra nos detalhes. Se atualizar sempre. Algo que me ajudou muito também foi trabalhar como staff, como mesária,  principalmente. E não desistir! Vai ser difícil, tem gente que vai torcer o nariz, mas enfim, nada pode te desviar do foco! Siga em frente!”

É gratificante ver mulheres cada vez mais presentes em todos os espaços do jiu-jitsu. Na arbitragem ainda vemos poucas, mas é graças a mulheres como Renata, Michelle e tantas outras que as jiujiteiras podem se sentir representadas e inspiradas a seguirem por esse caminho. Obrigada às duas pelos relatos e sucesso na jornada!

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