Representatividade negra no jiu-jitsu feminino


Representatividade já é um tema bastante abordado aqui no site, mas nunca é demais falar sobre o assunto. É fundamental entendermos a importância da representatividade para o público feminino, dentro e fora do jiu-jitsu. Ela se torna uma ferramenta essencial na nossa luta e é através dela que inspiramos e encorajamos ainda mais mulheres a lutarem e conquistarem espaços antes não usufruídos por mulheres.

Kyra Gracie, Mackenzie Dern, Claudia do Val, Nathiely de Jesus, Bia Mesquita, Bia Basílio, Gabi Garcia… São grandes nomes de destaque do jiu-jitsu feminino, todas atletas de grande peso que carregam a representatividade e a inspiração para muitas mulheres praticantes de jiu-jitsu, incontestavelmente merecedoras do destaque que têm.

A representatividade negra no jiu-jitsu não é um tema muito abordado, mas é muito importante que seja. Dentro do esporte em geral, conhecemos grandes nomes de atletas negras de destaque, como Rafaela Silva, Daiane dos Santos, Simone Biles, Érika Miranda, Fabiana Claudino, dentre outras. Mas hoje eu trouxe outros nomes, de outras atletas negras de muito peso e de grande destaque, mas do nosso jiu-jitsu: as faixas pretas Jessica Santos e Karla Hipólito e a faixa marrom Josiane Pimenta.

Jessica Cristina dos Santos – Preta Jeh

A faixa preta peso pena conheceu o jiu-jitsu em 2005, através de um centro comunitário no Ginásio Mário Covas em Botucatu/SP, onde seu professor Anderson Miquinho dava aulas gratuitas. Atualmente mora em Seattle, nos Estados Unidos e faz parte da equipe T3AM.

Suas principais medalhas e títulos no jiu-jitsu são: Campeã Pan NoGi; Campeã Europeu; 2ª colocada World Pro Abu Dhabi; 3ª Colocada mundial; 3ª colocada Mundial NoGi; 3ª colocada World Pro Abu Dhabi absoluto; Campeã Brasileira.

Karla Hipólito

A faixa preta 4 graus tem 49 anos e começou no jiu-jitsu aos 25. Karlona, como é mais conhecida, foi aluna do mestre Nigue, pela equipe Top Brother do mestre Cezar Guimarães (Casquinha), e recebeu a faixa preta em 2001, cinco anos depois de iniciar no jiu-jitsu, das mãos do mestre Vinícius Amaral. E em 2003 ela já se tornava Campeã Brasileira por equipes.

Karlona é Bacharel em Educação Física e além de professora de luta, atua também como Personal Trainer. A faixa preta traz em seu currículo o peso de: Penta Campeã Internacional de Masters, Bi Campeã Mundial de Masters, Bi Campeã Europeia, Campeã Pan Americana, Hexa Campeã Brasileira, Bi Campeã Brasileira No Gi e Campeã Sul Americana IBJJF e CBJJ.

Josiane Marques Pimenta

Josi Pimenta começou no jiu-jitsu em 2012 através de amigos. A faixa marrom é aluna da equipe Atos jiu-jitsu, em Vila Velha/ES, e atualmente luta na categoria peso pena e considera cada uma das suas medalhas e títulos como conquistas importantes na sua trajetória.

Também as convidei para falar um pouco sobre a importância da representatividade no do jiu jitsu feminino e o que elas pensam sobre o assunto. Acompanhe a entrevista a seguir.

O que é representatividade para você? E por que é importante falar sobre isso?

Jeh: Para mim é você usar a camisa, ou ser fiel, àquilo que você acredita ou àquilo que seja certo. É você olhar para algo, ou alguém, e se sentir inspirado, ou inspirar outras pessoas, profissionalmente ou até mesmo em pequenos detalhes. Por exemplo: como tratar uma pessoa; aos meus olhos isso seria a representatividade de amor ao próximo.

Eu acho que porque os valores estão tão confundidos ou perdidos que tem uma geração crescendo sem saber que a sociedade é o que é, que não tem um padrão, que não tem um tipo certo ou errado, que devemos respeitar as diferenças, ou o nosso próximo, que somos a representação de uma classe que foi maltratada, mas que sobreviveu e que está conquistando seu espaço.

Karla: Enquanto mulher negra, me posicionar sempre com firmeza. Desenvolver o jiu-jitsu cada vez mais. Acho interessante por incentivar outras assim como eu, a conquistar esse espaço tão disputado por todos.

Josi: Representatividade para mim é ser voz e a imagem de mim mesma, representando minha cor. É importante porque às vezes nos deixamos levar pelos padrões e às vezes até tentamos reproduzir esse padrão para termos mais espaço ou sermos vistas.

Quando você iniciou no jiu-jitsu, quem eram as suas grandes inspirações? Havia alguma atleta negra?

Jeh: Quando eu comecei, eu era uma adolescente cheia de sonhos e vontade de ser bem sucedida. Quando participei do meu primeiro campeonato e ganhei, eu tracei um plano, lembro até hoje das palavras que disse. Esse plano aconteceu bem melhor do que eu imaginei, é claro. Eu gosto de trabalhar com objetivos desde nova, eu tracei eles e com o tempo fui atrás. Hoje em dia continuo da mesma forma, traço meus objetivos e trabalho em direção a eles. Naquele tempo não tinham muitas mulheres no esporte, eram pouquíssimas e não era muito falado sobre elas, mas uma que eu me espelhava muito era a Kyra Gracie.

Karla: Não havia mulheres negras no jiu-jitsu, e só quando lutei de faixa preta fui conhecendo, por lutar com ela: Rosângela Conceição, a Zanza, que além de faixa preta de jiu-jitsu, era atleta olímpica de Judô e Wrestling. Hoje já não sei se ela luta mais.

Josi: Iniciei no jiu-jitsu em 2012, e mesmo não tendo tanto tempo não se ouvia falar muito em mulheres no jiu-jitsu, as negras então…

Quem são as mulheres negras, fora do esporte, que te inspiram hoje?

Jeh: Serena Williams, Ciara, Oprah, Viola Davis, Taís Araújo.

Karla: São três que tenho muita admiração: minha mãe, minha tia e minha amiga Ludmila Rodrigues.

Josi: Michelle Obama, Taís Araújo, Juceni Marques (minha mãe).

Você consegue se ver hoje nessa posição em que você se tornou uma inspiração para outras meninas e mulheres negras? De que maneira você tenta inspirar essas mulheres?

Jeh: Eu acho que isso entra até num post que fiz no meu perfil. Eu tento ser o bem, eu tento espalhar o amor. Esse foi o maior ensinamento que Deus nos deixou, então eu tento praticar mesmo quando meu próximo me ataca.

Nesse meu post eu falo um pouco do que está acontecendo, sobre os protestos, e o que eu espero para o futuro. Eu quero ou espero que meus filhos(as) possam andar livres sem se sentirem diferentes de ninguém, ou achar que alguém não quer entrar no mesmo elevador porque está com medo de ser agredido de alguma forma, ou quando nos referirmos sobre mulheres no esporte não tem quer ser branca ou preta, por que não “Quem são os grandes nomes de atletas que te inspiram?”, ou “Que mulher bonita, ou que homem bonito?” ao invés de ouvir “Nossa, que preta ou negra linda!”.

Eu espero criar meus filhos em uma sociedade aonde, quando nos referirmos a uma pessoa, seja sobre sua característica, não sobre a sua cor ou orientação sexual. Eu quero ser tratada como um ser humano assim como outro qualquer. E eu espero que meus filhos possam viver em um lugar assim. Então eu tento ser a mudança que eu quero ver no mundo.

Eu amo ser negra, mas eu odeio quando o fato da minha cor gera guerra (de novo, eu também detesto o fato de me explicar com o medo de que pessoas façam má interpretação do que estou querendo passar). ESSE NÃO É O MUNDO QUE EU QUERO QUE MEUS FILHOS CRESÇAM.

Karla: Sim, me vejo inspiração de todos. Digo homens também, negros ou brancos, independente da cor da pele e sexo. Eles vêm até mim para falar que me admiram e acompanham meu trabalho há anos, isso é muito importante para mim. É sinal de que meu trabalho está sendo bem feito.

Josi: Acho que sim, acredito que temos que ser quem somos, não devemos tentar nos encaixar em padrões impostos por outras pessoas, jamais ter vergonha da nossa cor e sim orgulho.

Além dos títulos e das medalhas, qual foi a maior conquista que o jiu-jitsu te proporcionou e que te faz sentir orgulho de tudo o que você vive e viveu durante sua trajetória no esporte?

Jeh: A pessoa que estou me tornando! O BJJ abriu várias portas para mim, me ensinou e ensina muito. Cada desafio para mim é como se fosse um campeonato onde eu tento dar meu máximo, tento me focar, e tento ganhar. E mesmo se tudo der errado, a gente se vira e vai para o próximo. Essa mentalidade me ajuda muito.

Karla: Minha maior conquista foi conhecer quase todo o Brasil e o mundo. O jiu-jitsu abriu portas que eu nem imaginava abrir.

Josi: Ser reconhecida por quem realmente sou, sem rotulagem, sem seguir algum padrão e de alguma forma ser tratada de forma igualitária.

Você pode deixar um recado de inspiração para as mulheres que hoje tem corrido atrás desse sonho?

Jeh: Seja persistente, trabalhe duro, tenha a mente aberta e não desista! Não são muitos que tem a coragem de buscar seus sonhos, o mais difícil está dentro de você: o desejo e a vontade de ter! O resto vem com trabalho duro.

Karla: Nunca desista dos seus sonhos!

Josi: “Não desistir” é a palavra chave, acreditar que Deus nos criou assim e que Ele sempre irá nos capacitar para as coisas mais incríveis nessa vida. Se orgulhe pelo que se tornou e por tudo que ainda virá.

Para finalizar essa matéria, deixo registrado o desejo de que através da representatividade haja amor, empatia e respeito e que a cor não seja mais um objeto de diferença em qualquer aspecto que seja, pois não é isso que deve medir o reconhecimento de qualquer trabalho.

Que sejamos reconhecidos pelo o que somos, não pelos (des)padrões que seguimos. Que quando mencionarmos o nome de alguém ou nos referirmos a alguém, não seja apenas pela sua cor ou do quanto isso influenciou ou não nas suas conquistas, mas pelo trabalho que faz. Pois somos muito mais do que a cor da nossa pele, somos mulheres, mães, profissionais, atletas, artistas. Somos lindas, competentes, capazes e o que nos diferencia não é a tonalidade da nossa pele ou a textura do nosso cabelo, mas o legado que deixamos para o mundo.

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