Mulheres no jiu-jitsu: onde estão as nossas professoras?

Que o público das mulheres no jiu-jitsu tem crescido e se desenvolvido, é um fato.

Hoje, você chega em uma academia e consegue ver mulheres ali. Mas ainda está longe de ser o suficiente, afinal, apesar do número de praticantes seguir crescendo, por que ainda não vemos muitas professoras nos tatames?

Foi pensando nessa questão que eu abri uma discussão no grupo feminino do WhatsApp da academia onde eu treino, e as respostas, apesar de diversas, mostraram um cenário ainda desfavorável ao desenvolvimento feminino na arte suave.

De todas as opiniões que eu pude coletar, existiram dois consensos: seguimos extremamente sobrecarregadas e sentimos muita falta de uma referência feminina no tatame para crescermos como uma equipe 100% feminina.

Apesar de hoje, a maioria de nós estar conseguindo conquistar espaço no mercado de trabalho, ainda acumulamos muitas funções. 

Não basta sair para trabalhar: a máquina de roupa nos aguarda em casa, os filhos precisam tomar banho e fazer o dever, a comida precisa ser feita, ou o trabalho urgente da faculdade tá lá, esperando ansioso pela nossa atenção. Tudo isso precisa ser feito hoje. Como teremos mais mulheres no jiu-jitsu, treinando e se dedicando, quando toda essa outra demanda está a desejar?

E se não nós, quem fará?

Algumas de nós possuem certo suporte nessa questão, em relação aos parceiros, mas isso ainda é tão raro que quando uma mulher possui esse apoio ela é percebida como “alguém de muita sorte”.

Agora pensem comigo, onde vamos encaixar o jiu-jitsu nessa dinâmica?

Por que temos poucas mulheres no jiu-jitsu em posição de liderança?

Eu criei um questionário anônimo, onde as praticantes de jiu-jítsu poderiam externar certas questões referentes à criação/manutenção de uma equipe feminina e o que eu consegui perceber foi o seguinte:

Entre as entrevistadas:

  • 87,5% consideram difícil montar uma equipe feminina;
  • Mais da metade delas considera que a sobrecarga doméstica com o qual elas precisam lidar sozinhas (ou quase), contribuem para a falta de tempo/disposição física para a prática do esporte;

Cerca de ⅓ das entrevistadas consideram que o fato do jiu-jitsu ainda ser um esporte majoritariamente masculino, contribui para a pouca procura ou desistência das mulheres, e isso se deve tanto pela sensação de ameaça que algumas mulheres podem experienciar ao ver uma quantidade grande de homens em um só lugar, quanto pelo desconforto do contato físico com eles.

Entre as maiores dificuldades que foram apontadas em se reunir um grupo de mulheres no tatame, se destacaram:

  • Falta de tempo (oriundos da sobrecarga doméstica), que se torna muitas vezes um impeditivo para que a mulher dedique esse tempo à prática do esporte;
  • E a falta de professoras mulheres como líderes de equipe.

Entre as questões que elas consideram que fazem falta, foi quase unanimidade uma referência feminina no tatame.

A conclusão é, precisamos de professoras mulheres no jiu-jitsu. Agora, vamos aos fatos:

De acordo com uma pesquisa do Ministério da Saúde, realizada em 2019, no Brasil 0,40% das mulheres eram praticantes de jiu-jitsu no país, contra 2,20% de homens.

Só de analisarmos esse fato já é possível concluir que não temos muitas professoras mulheres no jiu-jitsu porque ainda não temos muitas praticantes. Eu explico: apesar do número de mulheres ter crescido de forma consistente nos últimos anos, o número de desistência entre elas é gigantesco.

Então acontece que, desistimos mais porque temos mais tarefas em casa, menos temos disponível, menos estímulo dos nossos parceiros, menos suporte e pouca referência de mulheres que conseguiram driblar as estatísticas.

Quantas mulheres que conseguiram chegar até a faixa-preta cada uma de nós conhece? E entre todas as mulheres faixas-pretas que já ouvimos falar, quantas conseguiram esse feito após o casamento e a maternidade?

Para que existam mais professoras, primeiramente precisamos de mais praticantes que não desistam. 

E como elas podem se manter no esporte? Com uma rede de apoio, e mais que isso, elas precisam que as mulheres que já praticam, tenham a possibilidade de se unir de forma a criar esse espaço seguro que vai, por consequência, atrair outras.

Professoras são formadas a partir de praticantes apaixonadas pelo esporte querendo fazer a diferença, mas não podemos esquecer que paixão não dá suporte. E que se o cenário feminino continuar sendo homens praticantes de jiu-jítsu deixando filhos e tarefas domésticas a semana inteira com suas esposas, também praticantes, em que momento elas vão treinar?

O que eu mais vejo é pai de família lá, no tatame. E isso só é possível porque por trás de todo pai, existe uma mãe exausta cuidando do filho que é dele também. Por isso, a conclusão disso é que, as professoras de jiu-jitsu começarão a aparecer em mais quantidade na medida que as mulheres tiverem a possibilidade de terem uma vida mais equilibrada, e para isso é necessário o suporte de todos que fazem parte da vida dela.

As professoras vão começar a aparecer conforme as mulheres que já praticam forem entendendo como se unir, fazendo com que a presença delas no tatame atraia outras mulheres, e isso se torne um ciclo. Mas só a referência não é suficiente.

Além disso, sabendo que a sobrecarga segue sendo o maior fator de desistência feminina no esporte, é preciso que, além das referências, essa mulher também possua uma rede de apoio.

Sabemos que as mulheres, se quiserem, podem.

Mas e o quanto os homens parceiros dessas mulheres têm contribuído para isso ser possível?

Fica a reflexão.

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