Caso Melqui Galvão: Narcisismo, poder, violência e a dinâmica psíquica por trás do abuso

Sou Débora Dante, psicanalista, filósofa e escritora. Diante dos acontecimentos recentes que atravessam o universo do jiu-jitsu, proponho uma reflexão psicanalítica sobre poder, idealização, violência sexual e os efeitos traumáticos que se estendem para além das vítimas diretas, alcançando também a família e todo o entorno emocional.

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Quando um homem reconhecido como líder, mestre, educador e referência comunitária passa a ser acusado e investigado por violência sexual, abuso de vulneráveis, manipulação e intimidação, instala-se uma ruptura entre a imagem idealizada e a realidade psíquica oculta.

Esse impacto se torna ainda mais complexo quando pensamos na dinâmica familiar construída ao redor desse homem. Em muitos casos, a violência não atinge somente as vítimas diretas, ela alcança também a esposa, os filhos e todo o núcleo afetivo, frequentemente capturado por uma estrutura de poder, medo, silenciamento e dependência emocional.

O sujeito com funcionamento perverso e fortemente narcísico pode sustentar uma imagem social admirável e socialmente idealizada, enquanto mantém, paralelamente, uma dinâmica privada marcada por controle, manipulação, dissociação afetiva e instrumentalização do outro.

A dinâmica do poder e da idealização

Existe um fenômeno psíquico importante quando uma figura masculina ocupa um lugar de grande autoridade social, seja mestre, líder espiritual, treinador, empresário, médico, professor ou mentor. Quanto maior a idealização coletiva, maior tende a ser a dificuldade social de reconhecer a violência que pode existir por trás da imagem pública.

Freud já apontava que os grupos tendem a estabelecer relações de fascínio e submissão com figuras investidas de poder simbólico. O líder passa a ocupar um lugar quase incontestável, funcionando como representante de força, segurança e admiração.

Muitos sujeitos com funcionamento perverso compreendem intuitivamente essa lógica e sabem construir carisma, reconhecimento social e vínculos de dependência emocional. A imagem pública passa a funcionar como uma espécie de escudo psíquico e social.

Nesses casos, a reputação não revela necessariamente a estrutura emocional do sujeito, muitas vezes ela funciona como máscara.

Sobre a perversão e a psicopatia

No conceito psicanalítico, a perversão não se resume a práticas sexuais específicas, trata-se de uma estrutura ou funcionamento psíquico relacionado à forma como o sujeito se posiciona diante do outro, da lei, do limite e do sofrimento humano.

O que vemos acontecer, nesse caso, é o homem perverso que não reconhece o outro como ser humano, e sim como objeto a ser utilizado para satisfação, domínio, validação narcísica e exercício de poder.

Nesse perfil, podemos observar características como ausência ou empobrecimento da culpa, capacidade sofisticada de manipulação, sedução social intensa, racionalização da violência, prazer em controlar emocionalmente, uso instrumental das pessoas e dissociação entre imagem pública e prática privada.

Quando associamos isso a traços psicopáticos, essa dinâmica pode se tornar ainda mais complexa.

A psicopatia, embora não seja um conceito exclusivamente psicanalítico, pode ser compreendida como um funcionamento marcado por extrema frieza afetiva, incapacidade profunda de empatia genuína, superficialidade emocional, ausência de remorso consistente, mentira patológica, necessidade de domínio e capacidade de simular afeto e moralidade.

O aspecto mais perturbador é justamente a habilidade de adaptação social desse sujeito, que não se apresenta como violento de maneira explícita, mas sim como alguém admirado, articulado, disciplinado, carismático e altamente funcional socialmente.

Freud, Winnicott e a sustentação narcísica

Freud já apontava que o ser humano possui intensas forças pulsionais destrutivas, mas em determinados sujeitos há falhas importantes na constituição dos limites internos e da simbolização da lei. O outro deixa de existir como alteridade emocional e passa a existir como objeto.

Winnicott também oferece uma contribuição importante quando fala sobre falhas profundas na constituição do verdadeiro self. Em alguns funcionamentos narcísicos extremos, constrói-se uma organização baseada em falso self grandioso, uma identidade sustentada pela imagem, pela performance, pelo controle e pela necessidade constante de admiração.

Nesses casos, a reputação social funciona quase como uma armadura psíquica.

A imagem do “mestre admirado”, “líder respeitado” ou “homem exemplar” torna-se parte essencial da sustentação narcísica do sujeito, e qualquer ameaça a essa imagem pode despertar reações violentas, persecutórias e destrutivas.

Por isso, não é raro nem surpreendente que o sujeito com esse funcionamento tente intimidar vítimas, controlar testemunhas e sustentar uma narrativa de inocência mesmo diante de evidências contundentes.

Existe uma capacidade impressionante de compartimentalização psíquica nesse perfil, o sujeito consegue ocupar simultaneamente o lugar de pai admirado, líder respeitado e agressor violento. Essa dissociação frequentemente causa confusão extrema nas vítimas e familiares, que convivem com duas realidades contraditórias.

Sofrem as vítimas, sofre a sociedade com o choque de realidade e sofre também a família, como extensão psíquica do agressor.

A família como extensão do agressor

Um dos pontos importantes nesse contexto é compreender que a família dessa figura abusiva frequentemente não vive apenas uma relação afetiva comum, ela vive uma dinâmica de captura psíquica.

O agressor passa a organizar emocionalmente toda a estrutura familiar, controla narrativas, produz medo, estabelece dependência financeira e emocional, manipula culpa, alterna afeto e ameaça, cria pactos de silêncio e transforma lealdade em mecanismo de sobrevivência.

Muitas vezes, esposa e filhos tornam-se vítimas indiretas ou diretas da violência psicológica. Mesmo quando não sofreram o abuso sexual, vivem sob uma atmosfera constante de controle, intimidação, confusão emocional e distorção da realidade.

A família passa a existir em função da manutenção da imagem do agressor.

O filho como extensão narcísica do pai

Quero tratar neste caso, especificamente, da imagem do filho, que foi utilizado e transformado em extensão narcísica do pai.

Quando pensamos no filho extremamente bem-sucedido, admirado e projetado socialmente dentro do universo criado pelo pai, a situação psíquica se torna profundamente delicada.

Na psicanálise, compreendemos que alguns pais narcísicos utilizam os filhos como prolongamentos do próprio ego. O filho deixa de existir como sujeito espontâneo e passa a carregar a função inconsciente de sustentar o ideal paterno.

O amor deixa de ser vivido de forma livre e passa a ser condicionado à performance.

Nesse contexto, a criança aprende muito cedo que precisa corresponder, vencer, performar, honrar o nome da família e sustentar a grandiosidade do pai para continuar pertencendo emocionalmente.

Winnicott descreveu a importância do ambiente suficientemente bom para que a criança desenvolva um verdadeiro self espontâneo, autêntico e emocionalmente integrado. Porém, em estruturas familiares marcadas por narcisismo patológico e controle excessivo, muitas vezes o que se desenvolve é um falso self.

O filho aprende a sobreviver emocionalmente através da adaptação extrema, ele se torna aquilo que esperam dele: o campeão, o perfeito, o forte, o disciplinado, o herdeiro do legado.

Internamente, porém, pode existir uma subjetividade profundamente pressionada, vigiada e emocionalmente capturada.

Quando o pai ocupa o lugar quase absoluto de autoridade e idealização, o filho frequentemente não possui espaço psíquico para construir desejo próprio. Seu valor passa a depender da performance, da aprovação paterna, do reconhecimento público, da manutenção da imagem familiar e da fidelidade inconsciente ao pai.

Nesse caso, o filho vive formas importantes de abuso psicológico e narcísico, ainda que não exista violência física ou sexual direta.

A cobrança excessiva, o controle emocional, a exigência de perfeição, a manipulação afetiva e a instrumentalização do sucesso do filho podem produzir marcas psíquicas profundas.

O filho passa a funcionar como troféu narcísico, e seu desempenho alimenta a grandiosidade paterna. Quanto mais admirado o filho se torna, maior também pode ser a captura emocional dessa relação.

Freud descreveu que a relação entre pais e filhos frequentemente carrega intensos investimentos narcísicos. Muitos pais depositam nos filhos sonhos, frustrações e ideais de imortalidade.

Em estruturas mais adoecidas, como a do pai psicopata, isso ultrapassa o investimento saudável e transforma a criança em objeto de sustentação psíquica do adulto.

O colapso identitário diante da queda do pai

O problema é que, quando a figura paterna cai publicamente, especialmente em casos graves envolvendo violência, abuso e perversão, o filho pode entrar em profundo colapso identitário.

Ele não perde apenas o pai, perde a imagem idealizada, o pertencimento, a segurança emocional, o legado que sustentava sua identidade e muitas vezes a própria noção de quem é fora daquela estrutura.

Surge então uma ambivalência psíquica extremamente dolorosa: como amar alguém que também produziu horror? Como separar o pai do agressor? Como reconhecer a violência sem sentir que destrói a própria história?

Esse filho frequentemente vive culpa intensa, vergonha, confusão emocional, sensação de exposição pública e sofrimento psíquico silencioso.

Além disso, existe outro aspecto importante, esse filho aprende desde cedo a dissociar emoções para sobreviver em um ambiente altamente exigente e emocionalmente controlador.

A performance elevada pode coexistir com sofrimento psíquico profundo.

Por trás do campeão admirado, existe esse ser humano que nunca pôde existir fora da expectativa paterna. Quanto maior a fusão narcísica entre pai e filho, maior tende a ser o impacto traumático diante da queda dessa figura idealizada.

A reação social e o desmentido

Um caso dessa natureza costuma produzir uma reação social previsível, negação, relativização e defesa apaixonada da figura acusada. Isso ocorre porque admitir a violência implica desmontar idealizações profundamente investidas afetivamente, e desmontar uma cadeia de cúmplices.

Muitas vítimas não conseguem falar imediatamente, muitos familiares não conseguem enxergar imediatamente, e muitos grupos preferem atacar quem denuncia a enfrentar a dor de reconhecer a verdade.

A psicanálise nomeia esse fenômeno de desmentido, um mecanismo frequente diante de experiências traumáticas. A realidade se torna tão insuportável para a vítima que parte do psiquismo tenta anulá-la.

Por isso, em contextos de abuso envolvendo figuras admiradas, é comum observar silenciamento, inversão da culpa, proteção ao agressor, hostilidade contra vítimas, confusão coletiva e polarização emocional.

Talvez uma das questões mais difíceis nesse caso seja justamente aceitar que um sujeito tão violento nem sempre se apresenta como um monstro evidente. Ele era admirado, carismático, influente e respeitado, e exatamente por isso conseguia acessar, manipular e capturar pessoas.

Reconstrução e responsabilização

Não busco aqui trazer apenas a compreensão dos atos violentos em si, mas também as estruturas emocionais que permitem sua sustentação, o silêncio, a idealização, o medo, a dependência e os pactos inconscientes construídos ao redor do poder.

Também é fundamental compreender que filhos, esposas e familiares de figuras abusivas frequentemente necessitam de acolhimento clínico e escuta cuidadosa, porque também podem carregar marcas profundas de submissão psíquica, trauma e devastação do próprio Eu.

Por trás da queda pública de um homem admirado, frequentemente existe uma rede inteira de subjetividades feridas tentando reconstruir a própria realidade.

Que as sobreviventes dessa violência possam reconstruir a própria vida para além do trauma. Que o culpado responda pelos seus atos com o peso da devastação que deixou em tantas vidas. E que os cúmplices, ativos ou silenciosos, também sejam atravessados pela queda das estruturas que sustentam a violência.

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Autor: Débora Dante (Psicanalista)

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