Há cinco dias o jiu-jitsu americano fala sobre um caso que voltou a colocar o assédio sexual em academias de luta no centro do debate. Luis Eduardo, faixa preta brasileiro que vive em Orlando, Florida, publicou no Instagram que decidiu se desligar da Orlando BJJ (OBJJ), uma filial da GFTeam, depois de levar à administração uma denúncia de assédio sexual contra um dos professores e, segundo ele, ouvir que a culpa do problema escalado era dele mesmo.
O post saiu no dia 22 de abril, em inglês e em português, e até a tarde desta segunda-feira tinha mais de cinco mil curtidas e mais de 400 comentários. A repercussão veio principalmente das respostas, onde várias mulheres confirmaram em público ter passado por situações parecidas dentro da mesma academia.
O que aconteceu, segundo o relato
Luis Eduardo conta que foi procurado por uma aluna descrevendo um caso claro de assédio praticado por um dos professores. Antes de tomar qualquer ação formal, decidiu conversar com outras mulheres do time pra entender se era episódio isolado ou padrão. As respostas o assustaram.
Em conversas e mensagens, várias mulheres relataram experiências semelhantes. Os relatos variavam em gravidade, de convites para aulas particulares na casa dele a toques inadequados durante o treino. Quando aprofundei, descobri que esses problemas vinham acontecendo desde antes da pandemia, e nada havia sido feito até hoje.
Com mais de oito relatos documentados em screenshots, segundo ele, o professor levou o material à direção da academia. A resposta, conforme descreve, não foi a esperada.
Fiquei sem reação ao ouvir o que me disseram. Quando cobrei responsabilização, jogaram a culpa em mim, dizendo que eu estava escalando a situação. Eu acredito firmemente que esse é exatamente o tipo de cenário que pede escalada, e que jamais deveria ser tolerado em qualquer circunstância.
A frase que viralizou
Em um comentário fixado um dia depois do post, Luis trouxe uma fala atribuída à administração que, sozinha, ajuda a explicar a decisão dele. Segundo o professor, alguém da gestão disse a ele:
Eu sei que ele faz isso há muito tempo, é trabalho das mulheres pararem com isso, e se elas não estão fazendo nada é porque gostam.
O comentário rendeu 383 curtidas e mais de uma dezena de respostas indignadas. Pra muita gente, o problema não estava só no professor acusado, estava na cultura institucional que o protegia.
Mulheres confirmam padrão nos comentários
Entre as respostas mais curtidas está a de uma usuária que se identifica como ex-aluna da academia. “Você nem precisava revelar o nome, eu sabia exatamente quem é. Eu mesma já recebi comentários parecidos e convites para aulas particulares. Nunca disse nada nem me defendi e me arrependo, pelo bem das outras mulheres. O comportamento é consistente e contínuo”, escreveu ela.
Outras alunas e professoras de jiu-jitsu agradeceram publicamente o posicionamento de Luis. “É disso que precisa para acabar com o problema, homens como você se levantando e falando contra. Obrigada”, disse uma das comentaristas mais curtidas.
A repercussão também ganhou eco em outras contas. Um reel publicado dias depois com o título “Academias de jiu-jitsu, por favor verifiquem seus professores” amplificou o alcance do caso.
Para onde Luis vai a partir daqui
Em 26 de abril, a Combat Sports Academy (CSA) de Orlando anunciou Luis Eduardo como seu novo instrutor de jiu-jitsu. A primeira aula dele na nova casa foi nesta segunda-feira, 27, recebida com mensagens de apoio de alunos e atletas que o acompanham.
No fim do post de despedida, o professor escreveu: “Como líder e por respeito a essas mulheres, em alinhamento com meus valores, decidi deixar a academia.”
O contexto maior
O caso se soma a uma onda de denúncias que vem sacudindo o jiu-jitsu nos últimos meses. Em fevereiro, atletas de alto nível romperam com a Atos Jiu Jitsu após acusações públicas envolvendo a liderança da equipe. No Brasil, atletas e advogados também vêm puxando a discussão sobre o que caracteriza assédio dentro do tatame, qual a responsabilidade da academia em casos de omissão e como a vítima deve agir para formalizar a denúncia.
A discussão deixou de ser tabu. E quem trabalha em academia hoje, principalmente em times pequenos onde tudo acontece nos bastidores, está sendo cobrado a se posicionar.
O BJJ Girls Mag procurou a Orlando BJJ para se manifestar sobre as alegações. Caso a academia responda, a matéria será atualizada.
Se você ou alguém do seu convívio no jiu-jitsu está passando por situações de abuso de qualquer natureza, denuncie.
O Ligue 180, Central de Atendimento à Mulher, funciona 24 horas por dia, em todo o Brasil, de forma gratuita e com sigilo garantido. O atendimento recebe denúncias, orienta sobre direitos e encaminha para serviços especializados.
As Casas da Mulher Brasileira oferecem atendimento integrado com assistência psicológica, social, orientação jurídica, delegacia e serviços de acolhimento. Estão presentes em capitais e regiões metropolitanas.
As Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM) atuam em grande parte das cidades de médio e grande porte e são o canal indicado para registrar boletins de ocorrência relacionados a violência doméstica.
O aplicativo SOS Mulher está disponível para Android e iOS e conecta a rede de atendimento de forma rápida em situações de risco.
Além disso, existe também a Open Guard Foundation que oferece recursos para quem já sofreu algum tipo de abuso de praticantes de jiu-jitsu. Não substitui uma denúncia formal, mas pode ajudar com outros recursos.


