ADCC 2026 corta o absoluto feminino, paga metade às campeãs e não explica seus convites

Faltando duas semanas pro Mundial do ADCC 2026, marcado pra 12 e 13 de setembro na Tauron Arena, em Cracóvia, na Polônia, o campeonato mais prestigiado da luta de submissão sem kimono chega ao evento com um problema que não é técnico. As mulheres que vão competir lá disputam menos divisões, valem menos dinheiro, tiveram menos chances de se classificar, e perderam neste ano uma categoria inteira sem que ninguém da organização tenha anunciado a mudança.

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Somado a isso, a lista de competidores levanta uma pergunta que o ADCC até hoje não respondeu: qual é o critério pra receber um convite direto.

O absoluto feminino sumiu e ninguém avisou

A divisão absoluto feminino, que em 2024 coroou a melhor atleta do mundo independentemente de peso, não existe em 2026. A retirada foi notada pela imprensa especializada em fevereiro, sem comunicado oficial da organização, e o efeito prático é duplo, porque as atletas perderam a categoria que gerava mais visibilidade e perderam também a premiação que vinha junto com ela. Do lado masculino, o absoluto segue de pé.

Os números do restante do campeonato seguem a mesma lógica. Homens competem em cinco divisões de 16 atletas cada, o que dá 80 vagas. Mulheres competem em três divisões de 8 atletas cada, 24 vagas no total. Campeão leva 20 mil dólares, campeã leva 10 mil. E aqui vale parar num detalhe da tabela oficial: o vice-campeão de qualquer divisão masculina também leva 10 mil. O segundo colocado deles ganha exatamente o mesmo que a primeira colocada delas. No terceiro lugar são 3 mil para eles e 2 mil para elas.

A tabela de premiação que o próprio ADCC divulgou em 22 de fevereiro é o documento que mais fala por si. Ela lista as cinco divisões masculinas, as três femininas, e uma única linha chamada Absolute, que paga 50 mil dólares ao vencedor, cinco vezes o que uma campeã de peso recebe. Não existe absoluto feminino nessa tabela. O corte da categoria nunca foi anunciado em nota, ele aparece pela ausência, dentro do documento oficial de premiação do campeonato, que fecha em 362 mil dólares no total.

A diferença aparece antes ainda da chave, na porta de entrada. Nas seletivas, um homem tem duas oportunidades de se classificar por região, distribuídas em cinco divisões. Uma mulher tem uma oportunidade, em três divisões. Um grupo de atletas chegou a lançar uma petição pedindo que o Mundial de 2026 tivesse 16 competidoras por divisão, igualando os homens, e que até 2028 as mulheres tivessem cinco categorias de peso. Nada disso foi atendido.

Adele Fornarino venceu duas divisões no ADCC 2024, a de até 55 quilos e o absoluto. Foi a primeira mulher a conquistar as duas na mesma edição desde 2007, e a primeira atleta da história do evento a levar o absoluto saindo da categoria mais leve. É exatamente o absoluto que ela venceu que deixou de existir em 2026. Fornarino tirou o nome do campeonato deste ano e citou premiação, estrutura das divisões femininas e, principalmente, a forma como a organização lidou com um caso de segurança de atleta.

O caso que a Fornarino citou

Izaak Michell, australiano radicado em Austin, venceu a seletiva da Ásia e Oceania e garantiu vaga no Mundial. Em dezembro, uma mulher procurou a delegacia do condado de Hays, no Texas, e no dia 23 daquele mês um juiz expediu mandado de prisão contra ele. A acusação é de crime sexual com penetração, conduta que a lei texana enquadra como delito grave de segunda categoria. Depois disso saiu um segundo mandado, outras mulheres procuraram as autoridades, e a polícia texana fez apelo público pra que ele se entregasse. Michell entrou na lista dos doze foragidos mais procurados do condado.

Ele seguiu no chaveamento oficial do ADCC 2026 com os mandados ativos. A remoção veio depois, em silêncio, sem nota, sem explicação, com o nome dele simplesmente desaparecendo da lista publicada e a vaga passando pro britânico Taylor Pearman, em julho. Até a publicação desta matéria, as acusações contra Michell não foram julgadas, e ele não foi condenado.

Uma organização que demora a tirar do seu evento um foragido acusado de crime sexual e depois faz isso sem dizer uma palavra manda um recado bem claro sobre a ordem de prioridade dela.

Um convite, uma classificação

E aqui está a parte que interessa diretamente ao jiu-jitsu feminino brasileiro.

Em maio deste ano, o BJJ Girls Mag publicou que a atleta Lívia Barasine acusa Ana Rodrigues, grafada Anna Rodrigues na lista do ADCC, e o atleta Diego Sodré de terem pressionado ela a abandonar a denúncia de abuso contra o treinador Melqui Galvão, preso preventivamente sob suspeita de crimes sexuais contra adolescentes. Segundo o relato de Lívia, os dois teriam sugerido que ela mantivesse vínculo com o treinador investigado e teriam condicionado oportunidade competitiva ao silêncio dela.

Ana Rodrigues negou tudo em vídeo público de dez minutos, afirmando que “em nenhum momento, nem pra mim nem pro Diego, a Lívia relatou que teria sofrido abuso ou violência”, e sustentando que os prints que circularam foram tirados de contexto. Diego Sodré negou por nota de seu advogado, na qual afirma ser “categoricamente falso que tenha tentado dissuadir, influenciar ou impedir qualquer pessoa de denunciar ou investigar supostos crimes sexuais”. As duas manifestações estão preservadas na íntegra na matéria original e o BJJ Girls Mag as reproduz aqui de novo por compromisso com o contraditório.

Três meses depois, as duas atletas aparecem na mesma lista do Mundial, e chegaram lá por caminhos diferentes.

Lívia Barasine se classificou vencendo a seletiva e conquistou a vaga na categoria até 65kg, e Ana Rodrigues recebeu convite direto da organização pra categoria até 55kg.

Vale lembrar que o motivo pelo qual Ana foi convidada muito provavelmente se deu por seus anos de estrada e títulos acumulados, enquanto Lívia chegou à faixa preta há pouco tempo, e também se destacou bastante nas faixas coloridas. Pelo critério puramente esportivo, o convite se explica sem esforço nenhum, mas não é isso que esta matéria questiona.

A pergunta é sobre o ADCC, não sobre as atletas. A acusação de maio é pública, circulou na imprensa especializada e teve manifestação de todos os citados. Os processos que envolvem Roberto Cyborg também são públicos, e um deles, como se vê mais adiante, foi decidido em favor dele. Sabendo de tudo isso, a organização escolheu manter os dois convites. Fica o questionamento.

E aqui vale registrar o que existe e o que não existe. O ADCC publica um Código de Conduta com tolerância zero a assédio, intimidação e bullying, prevendo remoção do evento e possível banimento das edições seguintes. Esse documento vale para os ADCC Opens, os torneios abertos em que qualquer pessoa se inscreve. Para o Mundial, que é o evento de elite, por convite, e que paga 362 mil dólares em prêmios, a redação não localizou nas páginas oficiais da organização nenhum critério público de seleção nem política de conduta equivalente. Na prática, o campeonato onde qualquer um entra tem regra escrita sobre comportamento, e o campeonato onde só se entra convidado não tem.

Cyborg Abreu, terceira edição seguida

A mesma pergunta vale pro lado masculino, e aí ela é ainda mais antiga.

Roberto “Cyborg” Abreu, fundador da Fight Sports e prata no absoluto do ADCC 2024, está confirmado na categoria até 99 quilos em Cracóvia. Faz cinco anos, em agosto de 2021, que a comunidade do jiu-jitsu tomou conhecimento do caso de Marcel Goncalves, faixa preta e instrutor de uma unidade Fight Sports na Flórida, preso em março de 2018 sob acusação de estupro de uma aluna adolescente. Segundo o registro policial noticiado à época, Goncalves teria admitido, na ocasião da prisão, ter tido relação sexual com a menor. Anos depois, ele passou a alegar insanidade decorrente de encefalopatia traumática crônica como linha de defesa no processo criminal.

Em dezembro de 2021, uma ação cível no tribunal do condado de Miami-Dade nomeou Goncalves, Abreu e a Fight Sports. O texto alegava que Abreu tentou silenciar a vítima, abrigou Goncalves depois da prisão e já tinha conhecimento prévio de má conduta sexual sem ter agido. Abreu é padrinho do filho caçula de Goncalves. Diante da repercussão, ele retirou a faixa preta do instrutor e anunciou política de tolerância zero na associação.

Em junho de 2023, o juiz Jose Rodriguez decidiu o mérito de forma antecipada em favor de Abreu e da Fight Sports, sem levar o caso a julgamento, por entender que a conduta de Goncalves não se deu em função dos objetivos do negócio e que o empregador não facilitou o abuso. A decisão não alcançou Goncalves e a autora manteve o direito de recorrer. Vale repetir com todas as letras, porque importa: naquele processo, Roberto Abreu e a Fight Sports não foram responsabilizados.

Em 2023 surgiu uma segunda ação, no Texas, movida por Mandy Schneider contra o treinador Rodrigo da Costa Oliveira, da Rockstar Martial Arts, em Frisco, com Abreu e a Fight Sports novamente entre os citados. A peça sustentava que “as falhas repetidas de Roberto Abreu e da Fight Sports em garantir a segurança de atletas menores criaram um ambiente propício para esse abuso”. Oliveira foi indiciado pela polícia de Frisco por tráfico de criança para fins sexuais.

Cyborg competiu no ADCC 2022, competiu no ADCC 2024 e volta em 2026. Não houve interrupção, nem revisão, nem qualquer sinal de que a organização tenha olhado pro assunto.

O que a redação perguntou ao ADCC

O BJJ Girls Mag procurou o ADCC por email em 25 de agosto de 2026, com prazo de resposta até a manhã de 28 de agosto, e fez três perguntas objetivas: quais critérios definem um convite direto pro Mundial, se conduta fora do tatame pesa nessa decisão, e se a organização pretende restabelecer o absoluto feminino e igualar premiação e número de vagas nas próximas edições. Também perguntamos por que a remoção de Izaak Michell do chaveamento não foi comunicada publicamente.

Até o fechamento desta matéria, não houve resposta. O espaço segue aberto e qualquer manifestação da organização será publicada na íntegra.

Por que isso não é briga de bastidor

Dá pra olhar tudo isso e dizer que são assuntos separados, que o absoluto foi corte de orçamento, que convite é decisão comercial, que processo cível americano não tem nada a ver com chave de campeonato. Cada peça isolada tem alguma explicação possível.

Juntas, elas desenham a mesma coisa. Quando uma organização corta a divisão que mais dava palco pras mulheres sem avisar, paga metade, reserva 50 mil dólares para um absoluto que só os homens disputam, oferece metade das chances de classificação, mantém na chave um atleta procurado por acusação de crime sexual até a pressão apertar e distribui convites sem nunca dizer que critério usa, o que ela está comunicando às atletas é que segurança e paridade entram na conversa depois de todo o resto.

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