Quem tem escoliose pode fazer jiu-jitsu?

O que é escoliose

Escoliose é uma curvatura lateral anormal da coluna vertebral. Em vez da coluna seguir reta, ela forma uma curva em “C” ou “S” quando vista de trás. Pode aparecer na infância, adolescência (escoliose idiopática, a mais comum) ou na vida adulta por degeneração. Segundo a Sociedade Brasileira de Ortopedia, cerca de 2 a 4% da população tem algum grau de escoliose.

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Graus de escoliose e implicações no treino

GrauCurvatura (Ângulo de Cobb)Implicação no jiu-jitsu
Leve10° a 24°Geralmente sem restrições. Treino regular com cuidado em alongamentos assimétricos.
Moderada25° a 39°Requer acompanhamento médico. Evitar cargas pesadas unilaterais e impactos repetidos na coluna.
Severa40° ou maisAvaliação médica obrigatória. Treino personalizado, possivelmente evitando competição.

O ângulo de Cobb é medido por raio-X de coluna em pé e é o padrão internacional pra avaliar a gravidade. Sem esse diagnóstico, qualquer recomendação genérica é especulação.

Ressalva: este é um depoimento pessoal, não implica nenhum tipo de recomendação. Consulte um bom ortopedista especializado em coluna. 

Bom, já recebi algumas vezes esta pergunta. E posso dizer que sou a prova viva de que sim. É possível ter escoliose e praticar jiu-jitsu, inclusive competir. 

Mas calma: ninguém está escrevendo nada na pedra.

Longe de querer generalizar, é sempre bom analisar as ressalvas de cada caso: idade, gravidade, progressão da curva, condições físicas. No meu caso, tenho 38 anos e uma escoliose severa (48,7º), atualmente estacionada, sem progressão considerável há cinco anos. Treino jiu-jitsu 5x por semana há seis anos.

Escoliose

Para quem não sabe o que é escoliose, imagina uma coluna que, em vez de ser reta, resolve entortar. Uma das vértebras “roda”, e o resto da coluna, como um colar de pérola, acompanha. Passa a ser um “S” ou um “C”. Em muitos casos, surge no estirão da adolescência e é mais comum em meninas.

Na maioria das vezes, a causa é desconhecida, possivelmente hereditária. Nos casos mais graves, pode haver comprometimento da função cardíaca e pulmonar, já que a coluna vai empurrando os órgãos. O corpo fica descompensado, até a altura diminui. A autoestima da maioria também.

Com raio-X na mão, o médico mede o grau das curvaturas para determinar sua gravidade. Segundo a curvatura, a idade e as condições do paciente, recomenda-se o tratamento conservador, com colete (para quem ainda está em crescimento) e exercícios. Ou a cirurgia (artrodese) para os casos mais graves, acima de 50º e/ou risco de alta progressão. Uma cirurgia delicada, invasiva, que tira a mobilidade da coluna, ao parafusar as vértebras para elas se fundirem umas às outras permanentemente.

O esporte empodera. E é um santo remédio

Já perdi as contas de quantos médicos quiseram me operar – perderia a mobilidade da coluna e adeus, tatame. E eu iria sem problemas, caso a progressão da curva fosse acelerada. Mas não foi o que, felizmente, aconteceu comigo, e ainda bem que questionei a respeito.

Neste ano, completo seis anos no esporte. Durante todo o período, fiz acompanhamento rotineiro da curvatura, e o raio-X atual deu 48,7º. Um grau a menos que em 2015, ou seja, sem progressão durante todo este período.

Durante esta caminhada, alguns médicos recomendaram RPG, outros disseram que nem todos os esportes eram possíveis. A maioria nem sequer tinha ouvido falar de exercícios voltados exclusivamente para a escoliose, como Schroth e SEAS. As informações são desencontradas, e o paciente fica meio perdido na sua jornada. A desinformação acaba contribuindo para o agravamento de muitos casos.

Eu nunca havia ouvido falar de escoliose quando descobri a minha. Tinha uns 14 anos, era sedentária, nem sequer sonhava em vestir um kimono. O médico me olhou por cima, não mediu nada, disse que não tinha muito jeito e mandou a recomendação clássica: fazer natação. Deixei para lá. Uma pena, pois poderia ter começado a tratar ali.

Nunca me incomodei. Quando tinha 20 e poucos anos, já tinha me encontrado no esporte, com musculação e ensaiando no muay thai. Pensei: “Será que não é melhor tratar esta birosca?”. Fiz um raio-X, medimos a curva. Daquela época em diante, decidi criar consciência corporal para executar exercícios corretamente e não sobrecarregar a coluna. Acrescentei o pilates, aprendi a fortalecer o core, a distribuir o peso do corpo, a buscar alinhamento. Reforcei a musculação.

Quando conheci o jiu-jitsu, já com esta base preparada. Acrescentei Schroth, um método alemão, voltado à correção ativa da rotação por meio da respiração. Até hoje não tenho dores nem limitação, ao contrário de muitos casos que vejo, de curvaturas até menores. Atribuo isso 100% ao esporte.

A arte é suave, mas o sistema…

É claro que jiu-jitsu traz muitos ganhos físicos. Mas não há como negar que as articulações sofrem – a arte suave exige muito. E exige da coluna também. Então, com uma escoliose de brinde, não dá para se arriscar a treinar sem um forte trabalho de fortalecimento no paralelo.

Tinha um temor de piorar a escoliose com anos de tatame, especialmente na guarda, quando ficava embolada em algumas posições. Mas treino normalmente e compito, sem prejuízo algum em relação às adversárias. Só evito absoluto (sou pluma) e algumas situações, como emborcada.

Neste ano, fiz meu acompanhamento com um ortopedista de coluna que, por força do destino, também é faixa preta de jiu-jitsu. Ele foi categórico: exercício é altamente recomendável, e o jiu-jitsu, em si, não oferecia risco de progressão. Poderia, sim, progredir. Mas não causada pelo esporte.

Há algum tempo, conheci no Instagram um caso raro, um tanto doido e arriscado: um australiano com escoliose severa que passou pela cirurgia. E continuou no tatame depois disso. Obviamente, não podia rolar como antigamente. Fiquei curiosa, e ele me explicou como adaptou tudo só pelo prazer de estar ali. É superação que fala, né?

Moral da história: a escoliose é mais uma motivação para darmos o melhor de nós mesmos.

Adaptações no treino pra quem tem escoliose

Com escoliose, o corpo já tem assimetria natural. Treinar sem consciência disso pode acentuar o desequilíbrio muscular. Algumas adaptações que funcionam:

  • Aquecimento específico de coluna: mobilidade torácica e lombar antes do treino, nunca pular.
  • Fortalecimento bilateral consciente: se num lado você é mais fraca, compense com exercícios acessórios fora do tatame.
  • Evitar sparring pesado contra adversários muito maiores: impacto unilateral na coluna pode piorar curvatura leve ao longo do tempo.
  • Atenção a guardas assimétricas: guarda-meia e half-guard podem sobrecarregar um lado. Alterne os dois lados no drill.
  • Core forte é prioridade: core fraco faz a coluna compensar mal em qualquer posição. Invista em fortalecimento específico fora do treino.

Quando consultar um médico antes de treinar

Algumas situações não admitem negociação. Procure avaliação ortopédica antes de começar ou continuar jiu-jitsu se:

  • Você sente dor lombar ou cervical durante ou depois do treino
  • Tem diagnóstico de escoliose moderada ou severa (25° ou mais)
  • Está em tratamento com colete ortopédico
  • Tem formigamento, dormência ou fraqueza em braços/pernas
  • A curvatura aumentou no último ano
  • Está grávida ou no pós-parto (a coluna está mais instável)

Um bom ortopedista especializado em coluna pode fazer a avaliação em uma consulta, pedindo raio-X se ainda não tiver. Com o diagnóstico na mão, fisioterapeuta ou educador físico monta um protocolo específico pra você.

Perguntas Frequentes

Jiu-jitsu piora a escoliose?

Pra curvatura leve, bem treinado e com fortalecimento de core, jiu-jitsu não piora. Pode até melhorar por trabalhar musculatura paravertebral. Pra curvatura moderada ou severa sem acompanhamento, pode piorar por impactos repetidos e posturas assimétricas. Decisão é caso a caso com médico.

Posso competir com escoliose?

Escoliose não é impedimento formal em competições CBJJ ou IBJJF. Muitas atletas de alto nível treinam e competem com escoliose leve a moderada. O que muda é o preparo: além do treino técnico, fisioterapia preventiva, fortalecimento específico e alongamento compõem a rotina.

Quais posições evitar se tenho escoliose?

Nenhuma posição é proibida, mas algumas exigem mais consciência: ponte (hip escape) pode forçar lombar se mal executada, guarda invertida sobrecarrega cervical, bridge explosivo pode ser arriscado com curvatura moderada. Na dúvida, faça devagar e com professor observando.

Preciso parar de treinar se a dor aparecer?

Dor aguda é sinal de alerta: pare o treino e procure médico antes de voltar. Ignorar dor pode transformar problema leve em lesão séria. Dor leve e recorrente também merece investigação, pode ser compensação de postura que vai acumulando dano.

Leia também: Entenda o impacto do jiu-jitsu na saúde feminina, ciclo hormonal, nutrição e prevenção de lesões no nosso guia completo de saúde da mulher no jiu-jitsu.

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