Mariah Mckennitt Alvares Barbosa treinou por quatro anos na Escola Bruno Formiga de Jiu-Jitsu, na Tijuca, Rio de Janeiro. Nesta quinta-feira, 3 de setembro, ela publicou nas redes sociais um relato em que descreve condutas de natureza sexual atribuídas ao professor Bruno Leonardo Reis de Souza, conhecido no jiu-jitsu como Formiga, durante os treinos. Ela procurou o BJJ Girls Mag pelo Canal de Denúncia no mesmo dia e autorizou a publicação do relato com o nome dela.
O professor é alvo de apuração policial no Rio de Janeiro. Existe também decisão judicial que deferiu em parte medidas protetivas de urgência num caso envolvendo uma adolescente, cuja identidade esta redação não divulga em nenhuma hipótese, nem por elemento indireto. Por meio de seu advogado, o professor nega os fatos, e a manifestação da defesa está publicada na íntegra ao final desta matéria.
O que Mariah descreve
O relato dela trata do que acontecia dentro do treino. Segundo Mariah, o professor chegava a posições de domínio e permanecia nelas sem buscar a finalização, o que abria espaço para o contato que ela considera intencional. Ela conta que ele abria o kimono na montada, tentava beijar e cheirar o pescoço, e repetia o comportamento quando pegava as costas.
Para explicar por que aquilo destoava, ela recorre ao que qualquer praticante reconhece:
Eu treino bastante com homens todos os dias e sei que homens podem e devem treinar normalmente com mulheres. Mas homens normais se comportam de forma diferente. Eles chegam na montada já saindo no braço, ou mal pegam as costas e já saem no arco e flecha ou no mata-leão. Esse é o esperado.
Mariah relata que passou a reagir fisicamente, se debatendo e usando o que estivesse ao alcance para sair da posição, e que os episódios diminuíram depois disso. O que continuou, segundo ela, foram os comentários. Ela cita frases que diz ter ouvido do professor sem qualquer contexto, entre elas “você é a mulher mais linda do mundo, meu sonho é casar com você”, e conta que respondia cortando o assunto, ao que ele emendava que estava “só brincando”.
Ela descreve ainda o ambiente em que isso acontecia, e esse é um ponto central do relato. As situações ocorriam diante de outros integrantes da equipe e eram tratadas como piada, cercadas de risadas, o que segundo ela funcionava como o próprio pretexto para que continuassem.
Um trecho do relato antecipa a versão que circula em sentido contrário. Mariah afirma que, depois que saiu da equipe, passou a ser alvo de uma mobilização para difamá-la, sob a alegação de que estaria movida por vingança por não ter sido hospedada com o time na casa alugada durante o Campeonato Brasileiro de 2025. Ela responde que a casa estava lotada, que se hospedou com uma amiga e que a ideia de inventar uma trama de assédio por causa disso não se sustenta.
Ela também é explícita sobre o próprio limite, e essa honestidade merece registro. Diz não ter sofrido o que outras sofreram, atribui isso ao fato de o professor ter pouco poder sobre ela, já que era aluna do professor dele e não dependia dele para nada, e afirma que decidiu falar para encorajar quem passou pelo mesmo.
A apuração policial e o que já era público
Existe procedimento em curso no Rio de Janeiro que resultou em decisão judicial deferindo em parte medidas protetivas de urgência em favor de uma adolescente, com proibição de aproximação e de contato. A redação não divulga nome, idade, competição, categoria nem qualquer dado que permita identificação, conforme os artigos 17, 18 e 143 do Estatuto da Criança e do Adolescente. O número do procedimento, a vara e o nome do juízo também ficam de fora, porque a combinação desses dados com o nome da academia permitiria chegar até ela.
Vale um esclarecimento sobre o alcance dessa decisão, porque ela tem sido lida de forma imprecisa. As medidas protetivas restringem o contato com aquela vítima específica e não impedem o professor de exercer atividade profissional com outros alunos, ou seja, dizer que a Justiça o afastou das aulas seria falso.
O caso já havia sido noticiado pela BandNews FM Rio em 1º de setembro, quando o nome do professor se tornou público na imprensa.
A equipe afastou o professor, e explicou o limite dessa decisão
Em 27 de agosto, a Equipe Double Five publicou nota oficial no perfil @doublefiveassociation informando que determinou o afastamento cautelar do professor. O texto diz que a medida foi tomada “como medida preventiva e de preservação da integridade de nossos alunos, professores e demais integrantes”, e que vale “até que sejam devidamente esclarecidos os fatos pelas autoridades competentes”.
A própria nota delimita o alcance da decisão, e essa parte importa para não gerar uma leitura equivocada. A Double Five registra que o afastamento se refere exclusivamente à vinculação e às funções dele perante a equipe, e que a medida não impede o funcionamento da academia que ele administra, que segue em atividade de forma independente da organização.
A equipe também afirma que não compactua com qualquer forma de violência ou abuso, e ressalva que o afastamento tem caráter estritamente cautelar, sem antecipar conclusão sobre responsabilidade individual, cuja apuração cabe às autoridades, observados o devido processo legal e a presunção de inocência.
Somando as duas coisas, o quadro fica assim: nem a decisão judicial nem a nota da equipe afastam o professor das aulas na academia dele. A restrição judicial alcança o contato com uma vítima específica, e a decisão da Double Five alcança o vínculo dele com a equipe.
O que diz a defesa
O BJJ Girls Mag procurou os citados em 26 de agosto e ofereceu direito de resposta, nos termos da Lei 13.188/2015, com prazo até 31 de agosto. A manifestação chegou em 28 de agosto, assinada pelo advogado Pedro Santiago, OAB/RJ 227.636, e vai publicada na íntegra, sem cortes:
A defesa do professor Bruno “Formiga” esclarece, inicialmente, que A INVESTIGAÇÃO MENCIONADA TRAMITA SOB SIGILO, CIRCUNSTÂNCIA QUE IMPEDE A DIVULGAÇÃO DE ELEMENTOS DELA ADVINDOS.
Nesse contexto, A DEFESA NÃO AUTORIZA, NÃO CORROBORA E, EXPRESSAMENTE, DESAPROVA A DIVULGAÇÃO DE QUALQUER CONTEÚDO SUBMETIDO A SIGILO.
A partir dos elementos informados à defesa pela reportagem nota-se que AS RESPONSÁVEIS PELO VAZAMENTO das informações sigilosas FORNECERAM APENAS AS SUAS RESPECTIVAS VERSÕES, DEIXANDO DE APRESENTAR DOCUMENTOS E DEPOIMENTOS TESTEMUNHAIS QUE LHES DESMENTEM e CONSTAM NO CADERNO INVESTIGATÓRIO POLICIAL.
A TENTATIVA DE SUBSTITUIR A APURAÇÃO SÉRIA DOS FATOS PELA EXPOSIÇÃO PÚBLICA, pelo constrangimento e PELO JULGAMENTO PROMOVIDO NAS REDES SOCIAIS, NÃO ALTERA A REALIDADE DOS FATOS, TAMPOUCO TRANSFORMA ACUSAÇÕES FALSAS EM VERDADE, especialmente quando essa postura é ACOMPANHADA DA OCULTAÇÃO DE ELEMENTOS CONTRÁRIOS À VERSÃO DAS PSEUDOVÍTIMAS.
Tal lamentável postura CONTRIBUI PARA A FORMAÇÃO, PERANTE A OPINIÃO PÚBLICA, DE UMA PERCEPÇÃO DISTORCIDA E NEBULOSA DOS FATOS, acompanhada da CONDENAÇÃO SOCIAL ANTECIPADA DE UM INDIVÍDUO que, APÓS SEIS MESES DE INVESTIGAÇÃO, NÃO FOI INDICIADO pela Autoridade Policial, NÃO FOI DENUNCIADO pelo Ministério Público, NÃO FOI CONDENADO PELO JUÍZO CRIMINAL, em relação às imputações que vêm sendo divulgadas como se constituíssem verdades já estabelecidas.
No que se refere aos fatos objeto da investigação policial, o professor Bruno Formiga NEGA VEEMENTEMENTE A PRÁTICA DOS DELITOS QUE LHE FORAM FALSAMENTE IMPUTADOS, e ratifica que A PRÓPRIA INVESTIGAÇÃO POLICIAL COLHEU ELEMENTOS E DEPOIMENTOS QUE DESMENTEM A VERSÃO DAS PSEUDOVÍTIMAS.
Seguimos à disposição das autoridades competentes para prestar todos os esclarecimentos necessários, confiando que a apuração técnica e imparcial demonstrará a verdade dos fatos.
PEDRO SANTIAGO, OAB/RJ 227.636
O termo “pseudovítimas” é da defesa, e a redação o reproduz porque manifestação de direito de resposta se publica sem edição.
Nota da redação
Alguns pontos precisam ficar claros para quem lê. Até a data desta publicação, o professor é investigado e nada além disso. A polícia não concluiu o inquérito apontando ele como autor, o Ministério Público não apresentou denúncia contra ele à Justiça, e não existe condenação até o momento presente. A defesa afirma, na nota publicada acima, que a investigação policial teria reunido documentos e depoimentos que desmentem as mulheres. Esta redação não tem como confirmar nem negar essa afirmação, porque o inquérito corre em sigilo e ninguém de fora tem acesso ao conteúdo dele. Fica registrado como afirmação da defesa, e não como fato verificado.
A adolescente do caso judicial não é identificada, e os detalhes do que ela relatou não são publicados. Cada detalhe reduziria o universo de pessoas possíveis até sobrar uma.
Esta matéria se apoia no relato que Mariah Mckennitt publicou por conta própria e autorizou a redação a reproduzir. Outras mulheres procuraram o BJJ Girls Mag no curso desta apuração, e a redação respeita integralmente a decisão de cada uma sobre falar ou não, agora ou depois. A apuração continua aberta.
O BJJ Girls Mag mantém aberto o espaço para manifestação de qualquer pessoa citada, e o texto será atualizado se novas manifestações chegarem, pelo e-mail bjjgirlsmag@gmail.com.
Se você passou por situação parecida no jiu-jitsu, o Canal de Denúncia do BJJ Girls Mag recebe relatos com sigilo de fonte. O Disque 100 funciona todos os dias, das 8h às 22h, é gratuito e não exige identificação.
O relato completo foi publicado por Mariah Mckennitt no perfil dela nas redes sociais, em 3 de setembro.


