Camilla Gomes, atleta faixa azul de jiu-jitsu, veio a público no dia 25 de março relatar um histórico de agressões físicas que diz ter sofrido em um relacionamento com ex-companheiro, também praticante da modalidade. O vídeo, publicado no perfil pessoal dela no Instagram @millagomesv, circulou na comunidade do jiu-jitsu e levou a academia onde o acusado treinava, a Missão Jiu-Jitsu Sertão, em Juazeiro do Norte (CE), a divulgar nota pública no dia 26 de março informando o afastamento temporário do aluno.
O relato público
Em vídeo publicado em seu perfil no Instagram, Camilla Gomes expôs a própria história e afirma ter registrado boletins de ocorrência. O processo corre em segredo de justiça, situação comum em casos enquadrados como violência doméstica, conforme previsto pela Lei Maria da Penha.
A BJJ Girls Mag teve acesso ao vídeo público e reproduz nesta matéria apenas o que a própria atleta declarou abertamente em seu canal. Documentos sigilosos, detalhes do inquérito e trechos privados do caso não são discutidos aqui, em respeito ao sigilo judicial e à integridade da ofendida. Camilla autorizou formalmente a publicação desta matéria e pediu para ser nomeada.
A resposta da academia
No dia seguinte à publicação do vídeo, a Missão Jiu-Jitsu Sertão, projeto social de artes marciais coordenado por Nilson Pegado, divulgou nota pública de esclarecimento em seu perfil no Instagram (@missaojiujitsusertao).
A nota informa que a instituição e seu coordenador não possuem relação com os fatos narrados, e que não houve participação, conhecimento prévio ou envolvimento da academia na situação. No comunicado, a Missão Jiu-Jitsu Sertão afirma que as alegações “dizem respeito exclusivamente à esfera pessoal de um aluno, não havendo qualquer elemento que conecte tais alegações ao ambiente da academia ou às práticas ali desenvolvidas”.
Mesmo diante do que a nota descreve como ausência de comprovação dos fatos, e invocando o princípio constitucional da presunção de inocência, a academia comunicou a adoção de medida de afastamento temporário do aluno até que a situação seja devidamente esclarecida pelas autoridades competentes. A nota justifica a medida como ato de “cautela e zelo pela imagem institucional” e afirma que o afastamento busca “resguardar a integridade do ambiente, a tranquilidade dos demais alunos e a reputação do projeto social”.
Na nota, Nilson Pegado reafirma seu compromisso com “a ética, o respeito, a disciplina e a formação cidadã por meio das artes marciais”, e repudia “qualquer forma de violência ou de conduta ilícita”. A academia também informa que está adotando medidas legais cabíveis em relação às menções que considera indevidas e potencialmente ofensivas à honra e à imagem do coordenador e da instituição.
Por que essa história importa para a comunidade do jiu-jitsu
Casos como o de Camilla não são exceção dentro da comunidade esportiva. Pesquisas sobre violência contra a mulher no Brasil indicam que a maioria das vítimas conhece seus agressores, e que o ambiente esportivo muitas vezes reproduz estruturas de silêncio que acabam protegendo mais o agressor do que quem sofreu a violência.
No jiu-jitsu, em que vínculos de confiança, hierarquia entre mestres, professores e alunos, e proximidade física durante o treino são intensos, denunciar um parceiro ou colega pode significar, para muitas mulheres, o risco de perder uma comunidade inteira de uma vez só. Perder o tatame, os treinos, o lugar onde muitas encontraram propósito, disciplina e, em muitos casos, a primeira sensação concreta de força e autonomia sobre o próprio corpo.
Essa equação pesa sobre cada decisão de falar. E é justamente por isso que cada caso que ganha visibilidade pública abre espaço para que outras mulheres também falem.
A Lei Maria da Penha, Lei nº 11.340/2006, foi reforçada em 2024 pela Lei nº 14.857, que incluiu expressamente a garantia de sigilo da identidade da vítima nos processos judiciais de violência doméstica. Esse sigilo protege a tramitação processual, mas não impede que a vítima se manifeste publicamente se assim desejar. A decisão de falar cabe exclusivamente a ela.
Onde buscar apoio
Se você está passando por situação semelhante ou conhece alguém que esteja, existem canais de atendimento especializados, gratuitos e sigilosos.
O Ligue 180, Central de Atendimento à Mulher, funciona 24 horas por dia, em todo o Brasil, de forma gratuita e com sigilo garantido. O atendimento recebe denúncias, orienta sobre direitos e encaminha para serviços especializados.
As Casas da Mulher Brasileira oferecem atendimento integrado com assistência psicológica, social, orientação jurídica, delegacia e serviços de acolhimento. Estão presentes em capitais e regiões metropolitanas.
As Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM) atuam em grande parte das cidades de médio e grande porte e são o canal indicado para registrar boletins de ocorrência relacionados a violência doméstica.
O aplicativo SOS Mulher está disponível para Android e iOS e conecta a rede de atendimento de forma rápida em situações de risco.
Além disso, existe tmbém a Open Guard Foundation que oferece recursos para quem já sofreu algum tipo de abuso de praticantes de jiu-jitsu. Não substitui uma denúncia formal, mas pode ajudar com outros recursos.
Nota editorial de transparência
Esta matéria foi produzida com base exclusivamente em fontes públicas. Os dois materiais utilizados como referência foram o vídeo publicado por Camilla Gomes em seu perfil pessoal no Instagram e a nota oficial divulgada pela Missão Jiu-Jitsu Sertão, ambos linkados nesta página.
O nome do acusado não é citado nesta matéria. O processo corre em segredo de justiça, conforme previsto em lei, e a posição editorial da BJJ Girls Mag é de não expor identidades antes de decisão judicial definitiva.
Camilla Gomes autorizou formalmente, por escrito, a publicação desta matéria nos termos aqui apresentados, incluindo a menção de seu nome completo, a citação e o link de seu vídeo público.
A BJJ Girls Mag não emite juízo de valor sobre o conteúdo das acusações mencionadas pela atleta em seu relato público nem sobre as alegações que a nota da Missão Jiu-Jitsu Sertão descreve como menções indevidas à instituição e ao seu coordenador. Cabe às autoridades competentes a apuração dos fatos.
A BJJ Girls Mag repudia qualquer forma de violência contra a mulher e se solidariza com atletas que enfrentam situações semelhantes, dentro ou fora do tatame.



