
Aos 32 anos, a lutadora com dupla nacionalidade, Mackenzie Dern, não apenas conquistou o cinturão peso-palha do UFC, mas também marcou seu nome de forma inédita na história das artes marciais.
Ao vencer a compatriota Virna Jandiroba por decisão unânime no UFC 321 em Abu Dhabi, Dern completou um feito inigualável: tornar-se a primeira mulher a deter o Mundial de Jiu-Jítsu (IBJJF), o ADCC e, agora, um título do UFC.
A conquista é o ápice de uma trajetória marcada pela excelência técnica no solo, pela difícil transição para o MMA e por uma jornada de superação pessoal que a consolidou como um símbolo de resiliência e força da mulher-mãe-atleta.
Quem é Mackenzie Dern?
Mackenzie Dern nasceu em Phoenix, Arizona (EUA), em 24 de março de 1993, mas sua identidade e seu estilo de luta foram forjados pelo Brasil e pelo jiu-jítsu.
Ela é filha de um dos faixas-pretas mais respeitados da história do esporte, o lendário Wellington “Megaton” Dias e praticamente nasceu em um tatame.
Dern começou a treinar jiu-jítsu aos três anos de idade, praticamente crescendo no tatame da academia de seu pai. Essa imersão precoce a transformou em um prodígio da arte suave.
Mackenzie se estabeleceu como a melhor grappler do mundo, colecionando títulos que são o sonho de todo praticante:
- Campeã Mundial de Jiu-Jítsu (IBJJF): Conquistou o título máximo da modalidade com kimono.
- Campeã do ADCC (2015): Venceu o torneio de grappling sem kimono mais prestigiado, confirmando sua supremacia no chão em todas as suas vertentes.
Essa base sólida no jiu-jítsu não apenas a preparou para o MMA, mas a proporcionou um diferencial único no octógono: a capacidade de finalizar suas adversárias de forma implacável.
A Transição para o MMA e a Estreia no UFC
Em 2016, Mackenzie Dern tomou a decisão de migrar para as Artes Marciais Mistas, iniciando sua carreira profissional com o intuito de aplicar sua letalidade no chão em um novo esporte.
Sua trajetória inicial foi marcada por vitórias rápidas e finalizações, acumulando um cartel invicto de 5-0 antes de assinar com o UFC.
A estreia na maior organização de MMA do mundo ocorreu em março de 2018, no UFC 222, com uma vitória por decisão dividida sobre Ashley Yoder.
No entanto, a transição para o MMA trouxe desafios significativos. Mackenzie teve dificuldades recorrentes com o corte de peso, chegando a lutar em peso casado em uma ocasião, o que gerou críticas e a necessidade de aprimoramento profissional em sua rotina.
Mackenzie Dern: Mostrando que é possível ser mãe e atleta campeã
O maior desafio na carreira de Dern veio com a maternidade. Em 2019, ela deu à luz à filha, Moa, e retornou ao octógono apenas quatro meses depois, enfrentando Amanda Ribas.
A derrota por decisão unânime naquele combate representou seu primeiro revés no MMA e o início de um período de intensa pressão e superação.
“Durante minha gravidez, divórcio, muitos problemas acontecendo, teve muita crítica, entendeu? Ainda lutando e tendo uma derrota, com lesão, e daí pessoas falam que nunca vou ser campeã por causa de uma derrota… E você tem que manter sua cabeça focada em você, no que você quer para sua vida. Para estar aqui representando as mulheres, eu espero que elas vejam o quanto, se você coloca o seu foco, você consegue. Seja para ser uma boa mãe, para focar na sua carreira… O que você decidir fazer para sua vida como mulher”, disse Mackenzie à UOL.
Mackenzie se tornou alvo de questionamentos sobre seu foco e sobre a dificuldade de conciliar o alto rendimento com a maternidade. A
lutadora chegou a revelar que pensou em desistir e que o processo de retorno e o peso das críticas foram uma fase de “muita dor, mas também de crescimento”.
“Se eu não tivesse passado por derrotas, nariz quebrado e outras coisas. Muitas vezes você pensa: ‘Talvez eu não deva fazer isso, talvez deva voltar para o jiu-jitsu’. Porque estava ganhando tudo (lá). Mas aí tive que me tornar mais humilde para começar algo novo, me tornar uma faixa-branca em algo diferente (MMA). Especialmente nessa liga, com os fãs do UFC que te amam e odeiam. É uma montanha-russa. Sou orgulhosa da minha jornada, acho que é isso que vai ajudar a me tornar uma grande campeã, essas adversidades que encarei. Me vejo similar ao Charles Do Bronx. Alguém que viam com grande potencial, que teve altos e baixos. Já está por aqui há muito tempo, tem todas essas finalizações. E quando virou campeão, teve muita luz nele”, analisou Dern.
A partir desse momento, ela buscou estabilidade fora do octógono, reorganizando sua vida e sua equipe de treinos sob a orientação de Jason Parillo para focar no aprimoramento de seu striking.
O caminho até o título no UFC 321

Após alternar vitórias e derrotas contra grandes nomes do MMA, Mackenzie Dern conquistou o direito de disputar o cinturão vago da divisão.
No UFC 321, o duelo de cinco rounds contra Virna Jandiroba foi equilibrado e intenso, misturando trocação franca com o grappling de excelência.
Virna Jandiroba conseguiu algumas quedas, mas Mackenzie foi mais efetiva em pé e, principalmente, demonstrou consistência na sua pressão, garantindo a vitória por decisão unânime dos juízes.
O resultado a elevou ao patamar de quarta campeã feminina brasileira no UFC.
Ao celebrar, com o cinturão na mão e a filha por perto, Mackenzie Dern não celebrou apenas um título, mas a conclusão de um arco que a levou do domínio no jiu-jítsu à superação pessoal da maternidade, culminando no topo do MMA.
A nova campeã peso-palha é a prova viva de que a excelência técnica e a força de vontade não têm limites.
Ao vencer Virna Jandiroba por decisão unânime no UFC 321 e faturar o cinturão, Mackenzie Dern alcançou um feito inédito para uma mulher: ela é a primeira mulher na história a ser campeã mundial de jiu-jítsu, do ADCC e do UFC.
Com essa tripla coroa, ela igualou um recorde que pertencia a apenas um homem: o também brasileiro Fabrício Werdum.
Esse feito coloca Mackenzie Dern em uma categoria especial de atletas de combate, que conseguiram dominar as diferentes vertentes da luta em alto nível.



