Maria: Uma história sobre vida, tranças incríveis, jiu-jitsu e câncer de mama

Alice Maria, ou Menina Maria, como é carinhosamente conhecida, é uma força na natureza. Eu tive a oportunidade de conversar com essa mulher sobre suas tranças incríveis, jiu-jitsu e câncer de mama. Apesar do momento delicado em que vive – Alice Maria está tratando um câncer de mama -,  têm mostrado um amor pela vida quase sobrenatural. Maria mexeu comigo. E tenho certeza que vai mexer com você também

Alice Maria claramente não é uma pessoa comum. Em meio a um cenário caótico, ela resolveu ser luz. Mas não se engane: essa não é uma história triste sobre câncer não. Alice, ressalta muito bem isso quando afirma sua decisão de não fazer da doença o protagonista de nada. Ela está com câncer, mas essa doença nunca vai tê-la. 

Ela se recusa a dar esse poder todo ao câncer de mama. Alice quer ser cura, para si e para os outros. 

Conheça Menina Maria

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Foto: @patriciaribeiroaudiovisual

Alice Maria tem 32 anos, é divorciada e tem um filho de 8 anos. Graduada em Serviço Social e Pós Graduada em Gestão de Políticas Públicas e Projetos Sociais, há 9 anos é funcionária dos correios, mas é pela sua relação com tranças e jiu-jitsu, que hoje ela é conhecida.

Alice Maria, como todas nós, possui seus traumas e peculiaridades: indo desde uma infância marcada pelo abuso sexual, uma adolescência onde desenvolveu crises de ansiedade, chegando até a um casamento tóxico. 

A vida de Alice não foi fácil. Mas como eu já disse, não estamos aqui para contar histórias tristes.

O fato é que, a despeito de seus traumas passados, quando se divorciou, uma nova Alice nasceu. Pode-se dizer que a maternidade ajudou a trazer força para seguir seus objetivos? Obviamente. Mas mais do que isso, Alice aprendeu que a vida proporciona ferramentas para seguirmos, desde que estejamos dispostos a percebê-las.

E ela estava disposta. 

Foi após seu divórcio que ela se jogou na vida, tirou da gaveta os planos de conquistar sua habilitação, seus diplomas, além de perder peso ao voltar a se exercitar.

Sua atividade como trancista de grandes atletas se mistura com a sua trajetória no jiu-jitsu: Alice já sabia trançar cabelos desde os 15 anos, por influência do ofício da mãe, que é cabeleireira. 

Ela conta que se inscreveu em um projeto social para aprender a trançar e a partir daí começou a trançar colegas de escola. 

Mas durante muito tempo ela não percebeu essa atividade como nada além de um hobby. E quando começou no jiu-jitsu – por sugestão de um primo com o qual ela havia iniciado umas aulas de defesa pessoal -, Alice também não deu muita atenção no início: treinava esporadicamente, sem constância. 

Porém, com o passar do tempo, Alice foi percebendo um interesse maior pela arte suave, o que fez com que então tomasse a decisão de se dedicar com muito mais intensidade, tendo desde então participado de nada menos que 17 campeonatos!

Hoje ela é faixa azul da equipe Dojolb, de São Paulo:  “O jiu-jitsu conseguiu moldar as minhas emoções, as minhas crises de ansiedade”, conta.

Alice, que administrava treinos de jiu-jitsu com crises de depressão, conta que treinar a ajudava a esquecer essa parte da vida dela, e que foi no tatame que ela ganhou autoconfiança, se tornou mais forte, além de finalmente conseguir se perceber como mulher, coisa que devido às questões passadas não era uma tarefa das mais fáceis.

Tranças e Jiu-Jitsu

Nesse processo de competir na modalidade, Alice começou – na arquibancada das competições -, a trançar os cabelos das atletas por um preço irrisório. Então foi aí que ela decidiu se especializar na arte de trançar cabelos, ao buscar formas de criar seu próprio método indolor de trançar.

Para Alice, tranças não poderiam estar associadas à dor. Não fazia sentido para ela.

Mas foi por causa de uma edição do BJJ Stars que a coisa começou a mudar para Alice. 

Na ocasião do evento, iriam lutar a atleta Thamara Ferreira, além de outras atletas. Alice decidiu meter a cara a enviar mensagem para as atletas participantes, porém somente Thamara viu a mensagem na ocasião.

Ela conta que falou “Gostaria muito de mostrar o meu trabalho para você e trançar o seu cabelo pro BJJ Stars”. E isso foi a porta de entrada para que Alice começasse a ser procurada por inúmeros outros atletas de jiu-jitsu.

O interesse de Alice pelas tranças só cresceu e ela então decidiu que queria ir mais a fundo sobre a história da trança: “Por que eu tô trançando?, “Qual o sentido de trançar?”, “O que é a trança?”, foram questões que ela trouxe para embasar sua pesquisa e então descobrir que, como ela mesma diz, a história da trança tem tudo a ver com resiliência, com luta, com sobrevivência, logo, tinha também tudo a ver com jiu-jitsu e câncer de mama, afinal, lutar contra o câncer tem a ver também com resiliência.

Hoje cada atleta que trança o cabelo com ela, recebe uma aula de história sobre a origem das tranças: “Os escravos faziam rotas de fuga através das tranças, e isso salvou muitas vidas. Eles faziam sinalizações de combate em épocas de guerra, escondiam grãos dentro, então era uma identidade, uma identidade de guerra”.

Hoje ela afirma que a partir do momento que a pessoa trança o cabelo e veste o kimono, ela está preparada para a guerra.

Jiu-jitsu e câncer de mama: a descoberta da doença

Alice Maria conta que descobriu o câncer através de um auto exame de rotina em casa. 

E ao contrário do que dizem sobre o que pode ser a causa do câncer, Alice é uma mulher atleta, que se alimenta corretamente, além de não ter histórico da doença na família.

Foi fazendo o autoexame que ela descobriu a presença de uma bolinha no seio, e após a ida ao médico realizou um ultrassom da mama que detectou uma anormalidade que exigia biópsia. O resultado veio e confirmou: câncer de mama.

Alice relata que já tinha a intuição de que o diagnóstico seria esse, então quando a médica contou para ela, ela disse que a reação dela foi fazer apenas uma pergunta: “Posso comer qualquer coisa?”.

Saindo do consultório, ela foi direto para um rodízio japonês, e contou “Não sou obrigada a sofrer com fome”.

Alice conta que sim, ela chorou o luto da doença, como qualquer pessoa faria, porém ela conta que nunca contestou Deus, somente perguntou em oração “O senhor tá comigo nessa? Se o Senhor estiver comigo nessa eu vou levar da melhor maneira possível”

Ela conta que então sentiu o que ela define como “A presença de Deus muito forte naquele momento”.

Ela relatou que sempre disse para as amigas que se um dia ela tivesse um diagnóstico de qualquer coisa que fosse, ela iria fazer de tudo para levar da melhor maneira possível, da forma mais leve possível. 

E se você acompanhar o perfil do Instagram dela, o @menina_maria13, onde ela registra seu processo diariamente, vai perceber que nada lá é sobre a doença. É tudo sobre amor à vida e sobre fé.

Alice me contou que sempre quis fazer a diferença na vida dos outros, e ela acredita que esse câncer nada mais é que uma oportunidade de cura: sobre ela e sobre os outros.

Ela conta que depois de ter feito o documentário raspando a cabeça, muita gente entrou em contato com ela contando sobre seus medos, sobre seus processos e suas histórias. 

E muita gente, quando a conhece, não entende como ela tem câncer e ao mesmo tempo segue sendo tão espirituosa. 

“Não parece que tem câncer”, é o que ela mais ouve hoje em dia. 

E ela não quer parecer mesmo. E ela não vai parecer. Simplesmente porque para Alice, apesar do processo do tratamento ser, de fato, muito pesado, ao mesmo tempo ela se sente feliz: feliz pelo tratamento estar dando resultado, feliz de estar tendo acesso ao tratamento, feliz de estar sendo atendida no melhor hospital.

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Foto: @patriciaribeiroaudiovisual

“Da primeira quimioterapia para cá, já diminuiu muito o tumor, então eu fico feliz com cada vitória”, contou Alice.

Ela afirma que o passar mal faz parte do processo e ressalta: “No dia que tá mal, fica mal. Deita, dorme, toma remédio. O dia que tá bem? academia. O dia que tá bem, bora passear”.

Alice acredita que a forma como levamos as situações é uma decisão e que a cura está 70% na cabeça dela, e bem, ela não se sente doente, pelo contrário, hoje ela se sente grata por cada pequena vitória, por cada dia de vida, por cada momento fazendo o que gosta ou com pessoas que ama.

Alice podia não saber, mas ela sempre teve essa força. Mas ela conta que foi no jiu-jitsu que ela aprendeu a canalizar isso.

Ela conta que um dia, ainda na faixa branca, ela teve uma crise tão forte de depressão que ela decidiu que não valia mais a pena viver. Ela queria acabar com a própria vida.

Ela não via mais sentido em nada do que ela fazia. “Eu só nasci pra sofrer”, ela pensava.

Ela relata que então decidiu naquele dia ir para a academia fazer “seu último treino de jiu-jitsu”. Pegou o kimono e foi. Disposta a se despedir. Chegando lá ela conta: “Sabe aqueles treinos que tem só 5 pessoas, e todo mundo te olha com cara de ódio, cara de ‘vou matar você?’”.

Naquele treino em específico, não teve posição. Porém, ela conta que aquele foi o melhor treino da vida dela, onde ela treinou melhor do que nunca “Acho que eu tava preparada pro Mundial”, ela conta.

Aquele treino foi tão especial para ela que ela foi para casa pensando no próximo treino, pensando no que iria fazer no dia seguinte, esquecendo por completo que havia decidido tirar a própria vida.

Hoje, embora não esteja podendo treinar, ela se mantém presente no esporte passando algumas posições. 

De acordo com Alice Maria, o jiu-jitsu salva. Mas eu quero ressaltar que eu concordo que, de fato, o jiu-jitsu salva, mas que pessoas como Alice Maria salvam muito mais.

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