Precisamos de mais professoras no jiu-jitsu


Foto: @teiavideo | Breno Araújo

Que o jiu-jitsu feminino vem crescendo bastante nos últimos anos a gente já sabe. Mas faça a si mesma(o) essas perguntas: com quantas professoras você já teve aula? Quantas faixas pretas dão aula na sua academia? Provavelmente você respondeu nenhuma ou poucas, não é? Pois é… Mas esse cenário vem mudando graças a muitas mulheres que conquistam esse espaço e incentivam outras a fazerem o mesmo.

Conversei com três dessas mulheres. Bruna Ribeiro, que é faixa preta da Atos e fundadora (junto com seu sócio) da academia Strong Inside. Tatiana Peixe, que foi a primeira mulher a abrir um polo da sua equipe. E Julia Boscher, que também é responsável por tocar sua academia sozinha. 

Vemos muitas mulheres dando aula para turmas femininas ou crianças, mas é fundamental que também existam mulheres donas de academias, dando aulas em todas as turmas e sendo líderes de equipes. Além delas, temos outros exemplos como Leticia Ribeiro, Hannette Staack, Angelica Galvão, Nika Schwinden, Ana Carolina Vieira e Luanna Alzuguir (com a primeira equipe gerida apenas por mulheres) e muitas outras.

Sobre representatividade

Tanto a Bruna como a Taty não tiveram a oportunidade de ter aulas com outras mulheres antes de se tornarem professoras. “Quando entrei haviam pouquíssimas meninas e nesses 21 anos de treino, dá pra dizer que o time feminino começou a crescer de uns 10 anos pra cá.”, conta Taty. Com Bruna, foi mais ou menos assim também: “Quando eu me tornei faixa preta foi quando passei a ter companheiras de treino faixas pretas também, mas já em camps de competições.”

Com Julia foi um pouco diferente. Antes de ser professora, ela fez um camp em Abu Dhabi e quem dava os treinos era Luanna Alzuguir. “Eu só treinava com mulheres. O treino era muito duro. Lembro que na primeira semana eu só apanhei e só me deu mais vontade de ser igual aquelas mulheres. Eu via a Luanna ensinando e como ela sabia toda a técnica. Foi um dos meus melhores camps, era um sonho sendo realizado mesmo.”

Para que o jiu-jitsu feminino continue crescendo, a presença dessas professoras nas academias é muito importante. É uma pena que muitas meninas sintam medo de entrar em um ambiente ainda muito masculinizado (graças ao histórico que ainda existe na sociedade de assédio e violência contra as mulheres). Outras se sentem tímidas por não ter outra mulher ali. E muitas vão se graduando sem ter uma mulher como referência.

“Hoje percebo que muitas ao verem uma mulher puxando o treino se sentem mais à vontade, pelos menos para iniciar. Isso se dá também algumas vezes nas aulas kids com os pais quando vão matricular suas filhas. Ouço muito das minhas pequenas que vão ser faixa preta igual a “mestra”. Viramos modelo e isso não tem preço.”, conta Taty.

Bruna conta que admirava e queria ser igual às faixas pretas que ela via nas revistas. “Ter a oportunidade de ter uma mulher, faixa roxa, marrom ou preta dando aula para uma menina iniciante por exemplo, é aproximar o referencial de modelo, apoio, acolhimento e possibilidade de futuro. Almejar uma graduação e ver alguém na sua frente que chegou lá, é sem dúvida um grande incentivo. Aliás, a turma feminina, ao meu ver, é uma ótima porta de entrada para mulheres que não tem ainda uma proximidade com o jiu-jítsu, que tem receio, inseguranças.”

Para Julia, a representatividade também é essencial para “essas meninas e mulheres verem que elas também podem chegar ali ao enxergarem outras mulheres nessa posição. Posição que por muito tempo, e até hoje, ainda é de maioria homens. É muito importante incentivar que essas mulheres procurem academias que tenham mulheres dando aula. Quando eu entrei só via homens no tatame, tinham poucas mulheres. Mas quando eu vi a primeira vez uma mulher faixa preta puxando um treino, achei sensacional.”

Taty Peixe – Reprodução: instagram

Exemplo também para os homens

Assim como é importante para outras mulheres ver professoras no tatame, para os homens também. Porque a sociedade está acostumada a delegar lugares em que as mulheres podem estar. Mas ter mulheres em posições de destaque ou de liderança é um ensinamento e aprendizado para todos, além de contribuir para uma sociedade mais justa, menos desigual e preconceituosa.

Taty comentou sobre isso em relação a homens que, apesar da experiência, se sentem um pouco sem jeito ao dar aulas para mulheres. “Por exemplo se uma menina chega para treinar com um decote, acredito que seja muito mais fácil para uma professora conversar com a aluna de maneira que ela não fique constrangida do que um professor dizer isso a ela. (…) Dentro do tatame não tem sexo e sim lutadores, no decorrer dos anos isso vai ficando cada vez mais claro principalmente nos treinos mistos, então acredito que eles também achem importante uma mulher ministrando aulas.”

Já Bruna ressaltou que o tatame é um recorte da sociedade e que sempre quis viver do jiu-jitsu, mas que a sociedade dizia que não era esporte de mulher. “Como em todas as profissões e lugares onde a predominância é a ocupação masculina (e vice-versa) leva-se um tempo para quebrar paradigmas. Dou aulas mistas, personal de jiu-jitsu para homens, e aula feminina, vejo um respeito dos alunos pelo meu trabalho. Mas sei que nem todo lugar é assim e ainda somos poucas. Por isso, tenho a obrigação de passar adiante que é possível. Quero que a posição de uma mulher dando aula de jiu-jítsu, boxe, muay thai, não seja visto mais como algo impressionante, mas sim com naturalidade.”

Julia também destaca essa importância e contou, inclusive, que em uma academia que dava aulas, quando pessoas de outras lutas entravam no tatame para pegar material, sempre buscavam um homem para pedir licença, nunca ela. “A gente vive numa sociedade completamente machista, patriarcal e ter uma mulher faixa preta no tatame é extremamente necessário. Ele te respeita, entende que é isso ‘ela é preta, eu sou roxa/marrom/azul, estou aprendendo com ela, ela é capaz de me ensinar, ela tá ali porque correu atrás e é onde eu quero chegar também’. Eles te olham de uma forma que te admiram.”

Julia Boscher – reprodução: instagram

Para termos mais professoras no jiu-jitsu

Ainda vemos poucas mulheres nessas posições de destaque e Taty comenta que existem vários fatores, como objetivo (muitas querem se dedicar a competições), ou achar que não são capazes (ela já ouviu isso de algumas mulheres). Na sua equipe (G13), foi a primeira mulher do seu polo a conquistar a faixa preta e a primeira a abrir sua própria academia. “As meninas que chegam já tem exemplo de uma mulher não só que treina, mas que está ali na linha de frente como os homens, que puxa treino, que forma alunos e atletas.”

Bruna acredita que o jiu-jitsu feminino passou por etapas (as primeiras faixas pretas, a inserção de categorias femininas, a separação de faixas em mundiais) e faz parte do crescimento. “Hoje existe um número considerável de meninas faixas-pretas mundo todo, muito maior que há 20 anos atrás. A tendência é que após a fase de atleta de alto nível, muitas queiram ter suas academias, dar aulas, continuar vivendo do jiu-jitsu.” Mas insisto também aos professores, que tenham uma mulher instrutora/professora em suas academias também, faz toda a diferença para o público feminino.”

Julia também ressaltou um ponto importante. Além da falta de incentivo, a falta de capacitação de alguns professores para manter as mulheres em suas academias e fazer com que tenhamos cada vez mais mulheres chegando na faixa preta. “Falta essa capacitação para não incentivarem a rivalidade entre as mulheres, pelo contrário, a união delas para se manterem ali dentro bem, focadas, uma ajudando a outra. Claro que não só dos professores, mas das pessoas que estão nessa academia. Mas assim como eu faço na minha escola, eu não permito qualquer tipo de desrespeito, Incentivo minhas alunas e alunos a falarem quando não gostam de uma situação, mais ainda as minhas alunas, porque eu sei que é muito mais difícil pra uma mulher se colocar do que um homem, ainda mais quando ela é menos graduada ou menor.” 

Muito obrigada a essas três mulheres incríveis por terem topado falar comigo para esse texto. E obrigada também a tantas outras que estão liderando equipes, dando aulas e lutando por esse espaço que é de todas nós. Vamos juntas!

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Aproveito para deixar aqui também um vídeo da Andressa Souza, que também tem sua academia, que saiu no canal do Lael Rodrigues.

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