O corpo fala… Mas a gente escuta?


Você já treinou jiu-jitsu:

  1. Cansada(o)

  2. Com dor

  3. Lesionada(o)

  4. Todas as alternativas anteriores, juntas e misturadas.

Quem nunca?

Pois é. Ele bem que tentou avisar inúmeras vezes. Veio na maciota, depois começou a insistir e chamar a atenção. Foi solenemente ignorado. Aí descambou de vez: se não é pelo amor, é pela dor, não é mesmo? Resultado: você e ele aqui, doídos (um emocionalmente e o outro fisicamente), parados, de molho dos tatames.

Ele é o nosso corpo. Esse sujeito frequentemente ignorado, que vive reclamando em um monólogo: só ele fala, mas a gente não dá trela. Afinal, jiu-jitsu é um estilo de vida. A gente se apaixona, e o amor é cego: se dedica de corpo e alma – a alma vai bem, já o corpo… não podemos dizer o mesmo.

Se o corpo falasse, provavelmente xingaria você por todos os nomes toda vez que negou descanso a ele, não quis bater em um golpe bem encaixado ou não fez um trabalho de base, fortalecendo a musculatura para sustentar as articulações.

Um estudo realizado com 95 atletas das faixas branca a preta mostrou que 81% já se lesionou, sendo joelho, dedos, ombro, punho, cotovelo e coluna os principais afetados. A maioria das lesões foi grave (39%), envolvendo principalmente os faixas pretas, que acumulam anos de prática e sobrecargas.

Ou seja, não tem jeito: o BJJ está diretamente associado a lesão, pela própria natureza da prática, que visa estrangulamentos e torções nas articulações. Mas, como frequentadora assídua de fisioterapia e ortopedia nestes anos de prática, posso dizer que dá para minimizar esses impactos, se não negligenciarmos algo que chamo de ciclo de ouro para evitar as lesões:

  1. FORTALECER

Jiu-jitsu é uma atividade que trabalha muito melhor em dupla com o fortalecimento, seja musculação, pilates, funcional ou CrossFit. O racional é simples: musculatura forte sustenta ossos e articulações e melhora o metabolismo.

2. ALONGAR

E não é apenas no treino: um trabalho constante de alongamento ajuda a ganharmos flexibilidade progressivamente. As articulações obviamente agradecem. Sem contar que uma guarda elástica, por exemplo, faz miséria em um rola.

3. OUVIR

Saber ouvir de verdade e dar o que o corpo pede – descanso, reforço, cuidados -, de maneira reativa, ou no melhor dos cenários, preventiva. Cada fase evolutiva do jiu-jitsu é diferente, e o corpo vai se adaptando e se moldando a ela, muitas vezes às custas de sobrecarga acumulada, cujos pequenos sinais a gente ignorou solenemente. Mesmo os pequenos sinais podem e devem originar um trabalho de prevenção.

4. CUIDAR

Se você escutou o corpo e identificou o que ele precisa, é hora de cuidar. Dores crônicas pedem atenção: meu joelho, por exemplo, já se esgoelou tanto, que no meu kit tem sempre joelheiras de vôlei por baixo do kimono. E tudo bem. Gelo também é meu melhor amigo.

Será também que vale correr riscos desnecessários? Orelha estourada: quantas vezes você já viu a galera pegar seringa e drenar por conta própria, correndo risco de infecção? Nos casos que presenciei, nenhuma orelha voltou totalmente ao normal. Estourei a minha duas vezes e nem sofri: fui ao otorrino, que fez a assepsia, drenou com bisturi, deu um pontinho para evitar inchar de novo. No mais, antibiótico e treino com capacete. Simples assim. Pra que evitar o consultório, inclusive nas lesões mais simples?

5. AGUARDAR

Treinar quebrada, estando cansada ou mesmo lesionada, é pedir para dar errado, né? E aqui é usar mais o cérebro que o coração e respeitar o tempo de recuperação. Mas aqui tenho que confessar que ainda estou me trabalhando neste quesito. A gente sempre acha que pode mais, passa por cima da dor, abusa, tem a impressão de que está perdendo treino se der a pausa necessária. É quando o risco de lesão aumenta sensivelmente.

Uma coisa que me aliviou foi que mesmo lesionada, eu nunca fiquei 100% parada. Meus médicos sempre me aconselharam a me afastar apenas da atividade que causou a lesão, mas continuar ativa e exercitando outras áreas do corpo.

6. EVITAR / ADAPTAR

Quando tive uma contratura nas costas que demorou a passar, eu me vi obrigada a adaptar meu jogo de guardeira e começar a treinar mais passagem para não ter que ficar com as costas no chão. Também evitei rolar com pessoas bem mais pesadas. O mesmo aconteceu quando rompi o ligamento do joelho: tive que esquecer a De La Riva, um dos meus jogos preferidos, para adaptar outros tipos de guarda. Resultado: é a oportunidade de se reinventar em um contexto desfavorável.

Lesão também é aprendizado, por mais dura que a lição seja. E olha que aqui ficamos mais nas lesões leves, o que se dirá das graves? É na lesão que damos o braço  a torcer e somos obrigadas a finalmente escutar o que nosso corpo tem para dizer. É também um exercício de paciência (ansiosa, você? Imagina!) que nos força a refletir. Seguimos na luta… literalmente.

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