W.O.: vilão ou instrumento de aprendizado?

Desde que comecei a competir no jiu-jitsu, o denominado W.O. me acompanha – creio que todos devem ter no mínimo conhecê-lo, ou vivido uma experiência com ele. O W.O. (walkover) é a vitória sem confronto, por falta, desistência ou desclassificação de um adversário. Normalmente, para mim, o que acontece é a falta de adversária.

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Devido à predominância masculina no jiu-jitsu (felizmente, a participação feminina nos campeonatos aumenta a cada dia), a quantidade de mulheres competindo ainda é bem menor. Assim sendo, é mais comum o W.O. ocorrer nas categorias femininas. A minha relação com essas duas letras (W.O.) passou do amor ao ódio. Quando comecei a competir, a insegurança reinava em mim, o nervosismo era gigante, eu sentia fadiga, fraqueza, no geral, um verdadeiro “Deus nos acuda..”. E naquela fase, o W.O. se tornava uma espécie de alívio, afinal, eu não teria de lutar.

Mas depois, refletindo sobre tudo que acontecia comigo, resolvi vencer todos estes sentimentos que arrebatavam meu corpo. Afinal, quem manda aqui sou eu! Não era justo deixar de fazer algo que eu tanto gosto, apenas por causa de fantasmas bobos que me invadiam antes das lutas. A partir daquele momento, lutar passou a ser primordial, e com isso o W.O. se tornou o “vilão da história”, um obstáculo que me impedia de atingir o meu objetivo maior, que me impedia de vencer os meus medos e me tornar um ser humano melhor.

Um campeonato ou luta decidido com W.O. é frustrante, porque treinamos duramente por meses levando a sério o acertado lema “treino difícil, luta fácil”, vencendo cansaço, dor, algumas vezes amargando dietas (uma das partes mais difíceis), nos privando de práticas prazerosas (festas, comidas, sair com os amigos etc..). Então, naquele importante momento esperado, na hora de se colocar em prática o nosso aprendizado, simplesmente, não tem oponente! Devo admitir que isso me deixa muito chateada, acho desestimulante. Cada luta que temos, ainda que não se obtenha medalha, é uma experiência única que guardamos como aprendizado, isso é que faz o campeonato ser legal, é assim que crescemos, amadurecemos, evoluímos, fazemos nossa história e reforçamos a própria graduação, representada pela faixa que carregamos.

Atualmente, acho válido mudar de categoria ou fazer luta de consenso (luta casada) para se evitar o W.O.. Sem dúvida, torna-se uma experiência nova lutar fora da categoria que estamos acostumados, aprende-se com os erros, reiteram-se os acertos, aprimora-se a técnica e a estratégia. Eu já perdi algumas lutas de consenso, mesmo assim, é mais proveitoso que um W.O., porque é na derrota que nos transformamos em vencedores, descobrimos nossos pontos fracos, aprendemos a trabalhar a frustração, lapidamos nossa técnica com oponentes variados. A sensação de dever cumprido supera qualquer sentimento de perda ou de fracasso. Além do mais, segundo o meu professor, um campeão não se faz apenas com vitórias, mas as derrotas também fazem parte do crescimento.

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Ravena Oliveira de Morais, 19 anos, faixa azul da equipe Dojô, de Salvador – W.O. na IV copa Andorinhas

Posso dizer, hoje, que estou aprendendo que o W.O. faz parte da competição. Admito que ainda não consegui assimilar essa ideia plenamente. Mas estou trabalhando nisso, pois devemos vencer o sentimento de frustração, assim como devemos superar a insegurança e o medo da luta. Creio sinceramente que a ausência de um oponente da minha categoria trabalha a paciência e a humildade, porque de certa forma aprendemos a esperar, saber que aquele não era o momento, e devemos nos preparar mais e melhor para o próximo campeonato, assim como fazemos quando sofremos uma derrota.

Meditando bem, acredito que se trabalharmos os sentimentos e vigiarmos nossas condutas, toda situação na competição trará crescimento e evolução. Devemos buscar evitar o W.O., conforme eu disse, mas sendo inevitável, devemos trabalhar nossos sentimentos negativos, a mente e o espírito para que possamos crescer e nos lapidar. Até por que esse é o objetivo do jiu-jitsu: trabalhar corpo, mente e espírito.

Oss

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