Se fosse fácil…
Imagine uma caixa dentro de uma caixa, dentro de outra caixa e outra e outra, até chegar na última caixa. Dentro dela há uma chave que abre outra caixa e o processo recomeça. Você se direciona para a outra caixa, abre ela com a tal chave e lá dentro tem mais caixas uma dentro da outra. Parece que alguém está brincando com a sua paciência, não é mesmo?
Então você desarma o espírito e percebe que todas essas caixas foram colocadas assim, uma dentro da outra, para que você pudesse chegar até a última e ter a certeza de que essa coisa não tem fim, porque em todas “as últimas caixas” você sempre vai se deparar com uma chave que abre outras diversas caixas.
Esse exercício, que parece ser sem sentido, é análogo ao aprendizado do jiu-jitsu, e as tais chaves das últimas caixas nada mais são do que as faixas que você vai conquistando com treinos, dedicação, resiliência e uma dose cavalar de paciência.
O jiu-jitsu nunca foi uma modalidade simples de se aprender, mesmo para aqueles que demonstram muito talento, pois além da complexidade da prática, há uma série de fatores que podem levar o aluno à evolução ou à frustração, mas nenhuma delas se compara à habilidade de aprender a ser paciente.
Infelizmente, nem todos estão dispostos a “abrir caixas” por muito tempo, sobretudo quando os interesses pessoais falam mais alto do que o respeito pelo jiu-jitsu ou pela fascinante história dos seus criadores.
Observe que sob a ótica das caixas não há possibilidade de “pular etapas”, pois uma caixa dá acesso a outra. Assim deveria ser no jiu-jitsu, em que para dominar um aprendizado com destreza e competência é preciso absorver a lição anterior, aquela da primeira caixa (base) que leva às outras caixas que te direcionam até a chave.
Assim, infere-se que a paciência é a ponte que liga uma técnica à outra, uma posição à outra, uma finalidade à outra, mas é justamente esse fator que vem se diluindo com o passar do tempo.
Ora, sem dúvida vivemos em tempos acelerados e parece que semanas viraram dias, anos passam em semanas e esta sensação também está sendo percebida no jiu-jitsu, sobretudo quando se trata de tempo para graduação.
A verdade é que o jiu-jitsu deveria funcionar como o escape dessa correria, a contramão da falta de tempo, o desacelerador das urgências, mas a pressa tem sido a inimiga da perfeição no sentido mais restrito do termo e por conta disso se criam os monstros capazes de desmontar toda a lógica das regras do jiu-jitsu, do “tudo ao seu tempo” e da meritocracia.
Em muitas academias, a facilidade de se conseguir a graduação tomou o lugar do treino exaustivo. Os interesses pessoais nem sempre nobres agora fazem parte do processo, como se isso fosse muito natural. Parece que não se respeita mais o calendário, nem as regras, tampouco as razões que em tempos remotos eram dignas de honra e glória, com ser graduado por merecimento, de querer ser o melhor da equipe, de “morar” na academia para não perder nenhum treino. Muitos hoje se contentam em apenas serem os mais graduados e ponto.
Assim, podemos concluir que não é à toa que o jiu-jitsu vem sofrendo um processo de banalização, começando com o câmbio ilegal de compra e venda de faixas até chegar nos serviços de instrução à distância (on-line) e com direito a certificado!
Por todas essas colocações é urgente que comecemos um movimento de retorno às origens, de lembrar que a Terra ainda demora 365 dias para dar uma volta em torno do Sol, que os dias ainda possuem 24 horas e que não se aprende o jiu-jitsu da noite para o dia, nem em uma semana, nem em um ano, e talvez nem a vida toda.
É importante ressaltar que a atitude de uns não pode servir de parâmetro para a maioria e a paciência juntada ao comprometimento são a chave para resgatar o jiu-jitsu desta banalização desenfreada.
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