Leandro Lo: quase 3 anos depois, a justiça ainda engatinha diante de uma morte brutal

Era pra ser só mais uma noite de música e diversão entre amigos. Mas no dia 7 de agosto de 2022, a comunidade do jiu-jitsu foi arrancada da normalidade pela notícia da morte de Leandro Lo, um dos maiores atletas de jiu-jitsu que o Brasil já produziu.

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O multicampeão mundial foi baleado em um show no Esporte Clube Sírio, em São Paulo, por Henrique Otávio Oliveira Velozo, então tenente da Polícia Militar de São Paulo. O policial responde criminalmente pelo caso.

Quase 3 anos se passaram. Dois anos de dor, indignação e uma espera sufocante por justiça.

Nesta terça-feira, 5 de agosto de 2025, acontece a audiência de instrução e julgamento do caso. A data reacende a ferida, mas também renova a esperança de que, finalmente, o Judiciário brasileiro comece a responder com seriedade e responsabilidade à morte de um ícone do esporte.

Fátima Lo, mãe de Leandro (Imagem: Reprodução Instagram)

Caso Leandro Lo: O que aconteceu, de fato?

Quem conhecia o Leandro sabia de sua carreira formidável: Oito vezes campeão mundial, ídolo no Brasil e fora dele, ele era o tipo de atleta que enchia as arquibancadas para ver suas lutas… Um verdadeiro embaixador do esporte.

Naquela noite, Leandro e os amigos estavam em uma mesa quando Velozo, visivelmente alterado, se aproximou, pegou uma garrafa e começou a provocar. Leandro então apenas o conteve, com uma imobilização rápida, um gesto clássico de quem pratica jiu-jitsu, e que não configurava agressão.

Pouco depois, o tenente sacou uma arma e disparou um tiro à queima-roupa, atingindo Leandro na cabeça. O lutador caiu no chão sangrando. Velozo desferiu ainda dois chutes em sua cabeça e deixou o local. Segundo relatos e imagens, foi visto horas depois em um motel, em clima de comemoração.

Quem é Henrique Velozo?

Henrique Velozo responde na Justiça pelo homicídio de Leandro Lo. O Ministério Público sustenta que ele agiu sem qualquer justificativa plausível, enquanto a defesa tenta enquadrar o caso como legítima defesa: tese contestada por diversas testemunhas, por vídeos e pela própria sequência dos fatos.

O ex-policial não era um desconhecido em situações de violência. Em 2021, foi acusado de agredir uma mulher no litoral paulista. O processo acabou arquivado, mas o padrão de comportamento já chamava atenção.

Expulso da Polícia Militar

Em junho de 2025, após julgamento no Tribunal de Justiça Militar, Velozo foi oficialmente expulso da corporação, com a perda de posto e patente. Uma decisão unânime, motivada pela conduta dele após o crime.

A mãe de Leandro, dona Fátima Lo, comenta:

“Ele foi expulso, foi demitido da polícia, da PM, pela conduta dele. Ele não prestou socorro, não chamou a polícia. Alegam legítima defesa, mas o autor do disparo foi pra uma casa noturna depois pra um motel com uma acompanhante… É um contexto pavoroso. A polícia, o Tribunal de Justiça Militar, o demitiu por essa conduta pós-crime. Eles ainda podem recorrer, mas como a decisão foi unânime, provavelmente não vai conseguir. Mas sim, ele foi demitido.”

Mesmo fora da corporação, Henrique Velozo segue detido na Penitenciária Militar Romão Gomes — unidade que oferece condições diferenciadas a policiais presos, como cela individual com banheiro, acesso a lazer, estudo e trabalho.

“Esperamos que ele vá pra cadeia comum, pois ele não representa mais a Polícia Militar”, completa dona Fátima.

Um golpe no jiu-jitsu brasileiro

Desde aquele dia, o jiu-jitsu nunca mais foi o mesmo. Perdemos Leandro Lo: um ídolo, um professor, um amigo. Leandro não era só um campeão: era um ser humano que ajudava muitas pessoas, uma pessoa alegre e de bem com a vida.

Sua morte foi um golpe na vida e também nos valores que o jiu-jitsu ensina: autocontrole, respeito, não violência. A resposta da comunidade veio com protestos, homenagens, torneios com seu nome e uma mobilização constante por justiça. Mas infelizmente, nenhuma medalha devolve uma vida, nenhuma hashtag reverte um disparo.

E nenhuma sentença, por mais dura que seja, vai apagar o fato de que Leandro foi morto diante de dezenas de pessoas, em um ato de violência inconcebível.

Um sistema conivente com quem deveria proteger

O caso de Leandro Lo escancarou, mais uma vez, as brechas de um sistema que muitas vezes hesita em responsabilizar quem usa a farda. Quantos mais precisarão morrer pra que o Brasil pare de normalizar a violência praticada por agentes do Estado?

5 de agosto: uma data que não deveria existir

A audiência desta terça-feira será um dos momentos mais decisivos do processo. O desejo de quem ama o jiu-jitsu é por uma condenação justa e firme. Não por vingança, mas por respeito. Pela vida de Leandro Lo, pelo que ele construiu. Pelo que ele ainda representaria. Leandro Lo merecia envelhecer no tatame, sorrindo, ensinando, lutando. Merecia ver o jiu-jitsu crescer. Em vez disso, virou mais um nome na lista de vítimas da violência armada no Brasil. Mas para nós, ele jamais será reduzido a isso.

Justiça por Leandro Lo. Pela memória. Pelo legado. Pelo futuro que ele não pôde viver.

Este texto é uma reflexão sobre um caso de grande repercussão pública. Todas as informações são baseadas em fontes oficiais, públicas e declarações de envolvidos. Henrique Velozo responde criminalmente pelo caso, mas ainda não foi condenado em decisão com trânsito em julgado.

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