Quem tem escoliose pode fazer jiu-jitsu?


Ressalva: este é um depoimento pessoal, não implica nenhum tipo de recomendação. Consulte um bom ortopedista especializado em coluna. 

Bom, já recebi algumas vezes esta pergunta. E posso dizer que sou a prova viva de que sim. É possível ter escoliose e praticar jiu-jitsu, inclusive competir. 

Mas calma: ninguém está escrevendo nada na pedra.

Longe de querer generalizar, é sempre bom analisar as ressalvas de cada caso: idade, gravidade, progressão da curva, condições físicas. No meu caso, tenho 38 anos e uma escoliose severa (48,7º), atualmente estacionada, sem progressão considerável há cinco anos. Treino jiu-jitsu 5x por semana há seis anos.

Escoliose

Para quem não sabe o que é escoliose, imagina uma coluna que, em vez de ser reta, resolve entortar. Uma das vértebras “roda”, e o resto da coluna, como um colar de pérola, acompanha. Passa a ser um “S” ou um “C”. Em muitos casos, surge no estirão da adolescência e é mais comum em meninas.

Na maioria das vezes, a causa é desconhecida, possivelmente hereditária. Nos casos mais graves, pode haver comprometimento da função cardíaca e pulmonar, já que a coluna vai empurrando os órgãos. O corpo fica descompensado, até a altura diminui. A autoestima da maioria também.

Com raio-X na mão, o médico mede o grau das curvaturas para determinar sua gravidade. Segundo a curvatura, a idade e as condições do paciente, recomenda-se o tratamento conservador, com colete (para quem ainda está em crescimento) e exercícios. Ou a cirurgia (artrodese) para os casos mais graves, acima de 50º e/ou risco de alta progressão. Uma cirurgia delicada, invasiva, que tira a mobilidade da coluna, ao parafusar as vértebras para elas se fundirem umas às outras permanentemente.

O esporte empodera. E é um santo remédio

Já perdi as contas de quantos médicos quiseram me operar – perderia a mobilidade da coluna e adeus, tatame. E eu iria sem problemas, caso a progressão da curva fosse acelerada. Mas não foi o que, felizmente, aconteceu comigo, e ainda bem que questionei a respeito.

Neste ano, completo seis anos no esporte. Durante todo o período, fiz acompanhamento rotineiro da curvatura, e o raio-X atual deu 48,7º. Um grau a menos que em 2015, ou seja, sem progressão durante todo este período.

Durante esta caminhada, alguns médicos recomendaram RPG, outros disseram que nem todos os esportes eram possíveis. A maioria nem sequer tinha ouvido falar de exercícios voltados exclusivamente para a escoliose, como Schroth e SEAS. As informações são desencontradas, e o paciente fica meio perdido na sua jornada. A desinformação acaba contribuindo para o agravamento de muitos casos.

Eu nunca havia ouvido falar de escoliose quando descobri a minha. Tinha uns 14 anos, era sedentária, nem sequer sonhava em vestir um kimono. O médico me olhou por cima, não mediu nada, disse que não tinha muito jeito e mandou a recomendação clássica: fazer natação. Deixei para lá. Uma pena, pois poderia ter começado a tratar ali.

Nunca me incomodei. Quando tinha 20 e poucos anos, já tinha me encontrado no esporte, com musculação e ensaiando no muay thai. Pensei: “Será que não é melhor tratar esta birosca?”. Fiz um raio-X, medimos a curva. Daquela época em diante, decidi criar consciência corporal para executar exercícios corretamente e não sobrecarregar a coluna. Acrescentei o pilates, aprendi a fortalecer o core, a distribuir o peso do corpo, a buscar alinhamento. Reforcei a musculação.

Quando conheci o jiu-jitsu, já com esta base preparada. Acrescentei Schroth, um método alemão, voltado à correção ativa da rotação por meio da respiração. Até hoje não tenho dores nem limitação, ao contrário de muitos casos que vejo, de curvaturas até menores. Atribuo isso 100% ao esporte.

A arte é suave, mas o sistema…

É claro que jiu-jitsu traz muitos ganhos físicos. Mas não há como negar que as articulações sofrem – a arte suave exige muito. E exige da coluna também. Então, com uma escoliose de brinde, não dá para se arriscar a treinar sem um forte trabalho de fortalecimento no paralelo.

Tinha um temor de piorar a escoliose com anos de tatame, especialmente na guarda, quando ficava embolada em algumas posições. Mas treino normalmente e compito, sem prejuízo algum em relação às adversárias. Só evito absoluto (sou pluma) e algumas situações, como emborcada.

Neste ano, fiz meu acompanhamento com um ortopedista de coluna que, por força do destino, também é faixa preta de jiu-jitsu. Ele foi categórico: exercício é altamente recomendável, e o jiu-jitsu, em si, não oferecia risco de progressão. Poderia, sim, progredir. Mas não causada pelo esporte.

Há algum tempo, conheci no Instagram um caso raro, um tanto doido e arriscado: um australiano com escoliose severa que passou pela cirurgia. E continuou no tatame depois disso. Obviamente, não podia rolar como antigamente. Fiquei curiosa, e ele me explicou como adaptou tudo só pelo prazer de estar ali. É superação que fala, né?

Moral da história: a escoliose é mais uma motivação para darmos o melhor de nós mesmos.

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