As faixas marrons de 2016 são a melhor geração da história do jiu-jitsu feminino?


O guest post de hoje traz um texto do Bruno Fugazza, faixa roxa de Jiu Jitsu, árbitro de MMA e um eterno apaixonado por artes marciais. Editor-chefe e Sócio-fundador do BJJ Fórum, Começou com as primeiras quedas no Judô aos 5 anos de idade, passou pelo Muay Thai, até encontrar no Jiu Jitsu o amor verdadeiro. Teve a sorte de ver ao vivo na Califórnia a melhor luta da história do esporte, entre Buchecha e Rodolfo no Mundial de 2012.


Há pouca (ou nenhuma) controvérsia em dizer que o jiu-jitsu é historicamente um esporte amplamente dominado por homens. Ainda hoje, a maioria dos praticantes é formada por homens. A maioria dos fãs e consumidores de produtos também, além da maioria dos inscritos em campeonatos.

Mas, felizmente, é possível ver que ano após ano essa disparidade no esporte diminui, graças ao esforço das próprias mulheres que se fizeram respeitar em um meio inicialmente tão hostil e machista. Na história, merecem destaque algumas das pioneiras da arte suave, tais como:

Yvone Duarte (Foto: Globo Esporte)
Yvone Duarte (Foto: Globo Esporte)
  • Yvone Duarte, nos anos 80, a primeira mulher faixa preta de jiu-jitsu;
  • Rosângela Conceição, nos anos 90, que, além de ser primeira campeã Mundial de Jiu Jitsu em 1998, fez parte da Seleção Brasileira de Judô e medalhou no Panamericano no Wrestling, obtendo classificação para as Olimpíadas;
  • Leka Vieira, nos anos 2000, a primeira mulher a graduar outra pessoa como faixa preta e uma das primeiras mulheres a viver o jiu-jitsu profissionalmente;
  • Michelle Nicolini, recordista em títulos mundiais na faixa preta com 8 ouros e a única pessoa (entre homens e mulheres) e vencer o Absoluto enquanto peso Pluma.

Poderíamos citar ainda dezenas de outros nomes, como Letícia Ribeiro, Hannete Stack, Kyra Gracie e Gabi Garcia, que de alguma forma contribuíram para que outras mulheres percebessem que vestir um kimono nunca foi exclusividade masculina e que os holofotes poderiam e deveriam ser divididos com elas.

Mas abrir este caminho e conquistar este espaço definitivamente não foi fácil.

As mulheres sequer participaram dos dois primeiros Mundiais, realizados em 1996 e 1997. Em 1998, foi criada a primeira categoria feminina da história, englobando todas as faixas, e dividindo as atletas apenas entre os pesos “Leve” e “Pesado”. Entre 1999 e 2004, as atletas das faixas roxa, marrom e preta competiam todas juntas, e foi criada uma nova categoria para faixas azuis. Entre 2005 e 2011, as faixas roxas ganharam sua própria categoria, seguindo a disputa conjunta entre faixas marrons e pretas. E somente a partir de 2012 as mulheres passaram a competir contra competidoras de sua mesma faixa, quando as categorias Faixa Marrom e Faixa Preta foram finalmente desmembradas (pela IBJJF, pois a UAEJJF ainda as mantém unificadas no Mundial Pro).

A essa altura você talvez esteja se perguntando Mas se esse texto é sobre a nova geração, por que ele está falando tanto sobre o passado?. Confesso que é uma boa pergunta. Talvez seja simplesmente pela minha tendência verborrágica. Ou talvez por sentir que estaria sendo injusto ao enaltecer a atual geração como a melhor da história sem dar os devidos méritos àquelas que quebraram tantas barreiras e permitiram que essa nova geração existisse.

Então, reverências feitas, vamos ao ponto central desta coluna: eu acredito que o jiu-jitsu feminino nunca teve faixas marrons e novas faixas pretas com tanto potencial como temos atualmente. Nunca na história da arte suave tanto talento foi “despejado” de uma só vez na faixa preta quanto no último ano.

Ok, a geração de faixas marrons em 2014 foi espetacular, com Monique Elias, Dominyka Obelenyte e Angélica Galvão. Em 2013, tivemos as “gringas” Janni Larson e Tammi Musumeci roubando a cena. Em 2012 (primeiro ano de separação entre marrons e pretas), contamos com Mackenzie Dern, Gezary Matuda, Ana Carolina Vidal e Andresa Corrêa, o que por alguns segundos me fez questionar se eu realmente acho a de 2016 superior.

Todavia, mantenho minha opinião, por dois principais motivos, e esses motivos têm nome e sobrenome: Tayane Porfírio e Nathiely Caroline, campeãs dos Absolutos em 2016 nos Mundiais UAEJJF (marrom/preta) e IBJJF (marrom), respectivamente, e recém-graduadas faixas pretas.

Nathiely e Tayane recebendo a faixa preta no Mundial IBJJF deste ano

Tayane Porfírio tem 21 anos e ainda na faixa marrom já havia derrotado diversas faixas pretas consagradas como Mackenzie Dern, Luiza Monteiro, Bia Mesquita e Fernanda Mazzelli, consagrando-se campeã do absoluto entre as faixas marrons e pretas no Mundial Pro de 2016. Basta dizer que ninguém ganha o apelido de “Nova Gabi Garcia” sem motivo, não é mesmo?

Nathiely Karoline por sua vez é ainda mais nova, com apenas 20 anos, mas já mostrou que tem tudo para guardar seu nome na história. Esse ano, venceu sua categoria no Mundial Pro finalizando a duríssima faixa preta Priscila Cerqueira, e faturou peso e absoluto no Mundial IBJJF, vencendo a própria Tayane na semifinal do Absoluto em uma das melhores lutas do ano. O biotipo longilíneo com 1,78m e a técnica apurada fazem de Nathiely um enorme desafio para as adversárias, e o nível técnico alcançado ainda tão jovem deixa claro que, para ela, o céu é o limite.

Mas a “Geração 2016” vai MUITO além das duas. Há ainda diversas outras atletas nesse grupo que certamente terão um futuro dourado no jiu-jitsu:

Ana Carolina Viera, "Baby" no Guatemala Open (Imagem: Estúdio Veintchiocho)
Ana Carolina Viera, “Baby” no Guatemala Open (Imagem: Arquivo pessoal)

Uma delas é Ana Carolina Vieira, a “Baby”, irmã de Rodolfo Vieira e mais nova faixa preta da GF Team, de 22 anos. Ana teve um ano de 2014 dominante, vencendo tudo na faixa roxa. Porém uma lesão no ombro não só a tirou das competições em 2015, como quase colocou um fim precoce em sua carreira. Mas Ana superou as dificuldades e retornou triunfante em 2016 para vencer peso e Absoluto no Brasileiro CBJJ e sua categoria no Mundial IBJJF. Vale lembrar que em seu primeiro campeonato de faixa preta, a atleta desbancou a duríssima Luiza Monteiro, no Guatemala Open,  na semana passada.

Talita Alencar foi mais uma a vencer o Mundial IBJJF 2016 e receber a faixa preta ainda no pódio das mãos de Júlio Cezar, líder da GF Team. Se alguém ainda tem dúvidas se ela deve estar nesta lista, basta olhar o lutão que a peso pluma fez contra Tayane Porfírio na final do Absoluto no Europeu deste ano.

Thamires Aquino, de 21 anos, fecha a trinca de novas faixas pretas da GF Team. Venceu o Mundial IBJJF, em 2015, como faixa roxa, e em 2016 como faixa marrom (fechando com Talita Alencar).

Bianca Basílio, 20 anos, é mais uma jovem realidade. A ainda faixa marrom dos irmãos Almeida venceu sua categoria no Mundial IBJJF, e chegou à final do Mundial Pro após derrotar a faixa preta Luiza Monteiro.

E a lista se estende pra fora do Brasil também. A canadense Yacinta Nguyen vinha sem chamar muita atenção, mesmo com excelentes resultados como o ouro no peso e a prata no absoluto entre as faixas roxas no Mundial de 2015 (perdendo a final para Tayane). Mas no Mundial Pro de Abu Dhabi deste ano a faixa marrom (que é ex-judoca e treina jiu-jitsu há apenas quatro anos) se destacou ao derrotar a faixa preta campeã mundial Monique Elias, beliscando uma medalha de bronze entre as faixas marrons e pretas. No Mundial IBJJF, fez mais uma ótima campanha, obtendo a prata no Absoluto, perdendo para Nathiely na final. Essa semana temos uma entrevista com ela por aqui. Fiquem ligados!

Obviamente, esta lista poderia ser bem maior e deixa de fora outras grandes atletas. Mas é possível perceber duas coisas em comum entre quase todas estas faixas marrons (ou recém-graduadas faixas pretas):

  1. A pouca idade com que elas chegaram à elite do esporte, quase todas nos “vinte e poucos” anos;
  2. Que elas já se testaram e se saíram muitíssimo bem em lutas contra grandes faixas pretas campeãs Mundiais como Luiza Monteiro, Monique Elias, Bia Mesquita, Mackenzie Dern e Fernanda Mazzelli.

Vejo o primeiro ponto como consequência de uma geração que conheceu o jiu-jitsu muito cedo, ainda crianças ou adolescentes, quando a arte já era livre dos antigos estigmas e preconceitos, e vista como algo também “para mulher”. E o segundo é o reflexo de atletas que cresceram tendo uma gama muito maior de campeonatos para disputar, tendo colegas de treino do mesmo sexo, peso e graduação para evoluir tecnicamente, e tendo exemplos para seguir e se espelhar por toda sua carreira esportiva.

Por isso, enalteço a atual geração de campeãs, que julgo a mais promissora em toda a (ainda breve) história do jiu-jitsu feminino. Mas não sem antes reverenciar àquelas que permitiram que essa geração pudesse existir.

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