Caso Família Galvão: Um Olhar Psicanalítico

Família, poder e a violência das projeções

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por Débora Dante

Quando um líder cai sob acusação, o que se abala não é apenas a estrutura institucional, mas algo mais profundo: um campo de idealização que muita gente nem sabia que habitava. E quando esse líder é também pai, fundador, provedor e referência simbólica de um império familiar, o impacto deixa de ser apenas jurídico e invade o inconsciente coletivo.

A situação recente envolvendo o afastamento de um grande nome do jiu-jitsu brasileiro, e a consequente ascensão da filha à liderança da equipe, revela algo que vai muito além do fato em si. O que me interessa aqui não é o julgamento jurídico, tampouco o moral. O que me interessa é o movimento psíquico que se instala ao redor: especialmente sobre a jovem que, de repente, se vê convocada a ocupar o lugar deixado pelos pais.

Porque quando o Nome do Pai cai, algo estrutural se desloca, e quem está mais perto costuma sentir isso antes de qualquer um.

A função paterna e sua queda simbólica

Freud já descrevia o pai como aquele que concentra poder, lei e gozo e cuja queda funda uma nova organização social, ou seja, “morte” simbólica do pai reorganiza os laços coletivos que se formaram em torno dele.

Lacan foi além ao formular o conceito de Nome-do-Pai: a função que introduz a lei, a interdição e a ordenação simbólica do desejo. O pai, enquanto função, sustenta uma estrutura e quando uma figura pública investida dessa função é acusada e afastada, o que ocorre é uma fissura nessa sustentação.

O grupo que estava organizado em torno dessa autoridade experimenta um abalo narcísico, a imagem idealizada racha, e o que antes era coesão pode rapidamente se transformar em angústia. E angústia, sem elaboração, vira hostilidade.

A filha no lugar do pai

Uma jovem de 19 anos que assume a liderança de uma instituição familiar não está apenas ocupando um cargo. Ela está sendo convocada a sustentar um significante: o sobrenome.

E o sobrenome, quando vinculado a poder e capital simbólico, não é apenas identidade, se trata de marca, de herança. É posição no discurso social. Carregar esse nome, nesse momento, é carregar o peso de tudo que ele significou, e de tudo que ele deixou de significar.

Do ponto de vista psíquico, essa jovem pode estar atravessando múltiplas tensões ao mesmo tempo: o conflito entre o amor filial e a pressão pública, a necessidade de preservar a instituição, o luto pela queda da imagem dos pais e a exigência cruel de uma maturidade que ninguém deveria ter que demonstrar antes da hora.

Lacan nos lembra que o sujeito se constitui na relação com o Outro. E, nesse caso, o Outro social está atravessado por julgamento, suspeita e projeção.

Ela deixa de ser apenas filha e passa a ser representante. E ser representante é uma carga simbólica brutal para quem ainda está consolidando quem é.

A fantasia coletiva da cumplicidade

Há um fenômeno psíquico muito claro nas reações públicas a casos como esse: a suposição de que “quem está perto sabe”. É quase automático.

Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, Freud demonstra como os grupos operam por identificação e idealização. Quando o líder idealizado falha, a massa experimenta desilusão e raiva. Essa raiva precisa encontrar destino,  e de fato encontra, quase sempre, alguém próximo ao ídolo caído.

É assim que surge a fantasia da cumplicidade: se ele caiu, alguém próximo deve ter sabido, e essa suposição organiza o caos emocional coletivo, o que dá coerência à angústia.

Mas proximidade não equivale a saber. O inconsciente é estruturado exatamente por mecanismos de negação, recalque e idealização. A crença de que a filha necessariamente sabia diz menos sobre ela e muito mais sobre a dificuldade que temos, coletivamente, de tolerar a ideia de que o mal pode coexistir com o desconhecimento dos íntimos.

Projeção e bode expiatório

Quando o pai cai, o grupo perde seu eixo identificatório, e o que se segue, muitas vezes, é a busca por alguém que possa carregar o peso da frustração coletiva. A filha que assume a liderança torna-se alvo privilegiado dessas projeções: a decepção, a indignação moral, a necessidade de uma punição que se amplie além do acusado.

É o mecanismo clássico do bode expiatório: deslocar para um representante visível a angústia que não conseguimos elaborar. A massa ama e odeia com intensidade desproporcional, e quando o ideal cai, o amor pode se converter em hostilidade com uma velocidade que assusta.

O que assistimos, muitas vezes, não é julgamento, mas sim, descarga emocional com endereço.

Culpa não é hereditária

Há uma confusão recorrente entre responsabilidade subjetiva e pertencimento familiar. Do ponto de vista psicanalítico, cada sujeito responde por seus próprios atos, e vale lembrar que a culpa não é transmissível pelo sangue.

O que pode ser transmitido é o nome, a herança simbólica, os efeitos do discurso, mas não a autoria de um ato.

O imaginário coletivo, no entanto, frequentemente se apega a uma lógica de contaminação: “se pertence à família, pertence à culpa”. Essa lógica é menos jurídica e mais primitiva. Ela responde ao desejo de simplificação, não à complexidade da realidade psíquica. 

Entre a queda do pai e a construção de si

Há algo estruturalmente doloroso , mas potencialmente transformador, na queda do Nome-do-Pai. Esse momento pode abrir espaço para que o sujeito se diferencie, encontre suas próprias referências, construa uma identidade que não dependa do brilho (ou da sombra) do pai.

Mas isso não acontece sob linchamento. A construção de uma identidade própria exige tempo, elaboração e separação simbólica e exige que esse ser humano possa existir para além do sobrenome, seja ele glorificado ou manchado.

Quando uma jovem é convocada a sustentar uma instituição no meio de uma crise moral pública, o que está em jogo é a subjetividade. É a possibilidade (ou não) de ela se tornar quem é.

E talvez a pergunta mais ética que possamos fazer não seja “ela sabia?”, mas sim: “o que estamos projetando nela?”

A consideração final de uma Psicanalista

Casos como esse revelam menos sobre um indivíduo específico e muito mais sobre nossa dificuldade coletiva de lidar com a queda de ídolos, com a ambiguidade humana, com a complexidade das relações familiares, e com o fato de que as pessoas que amamos podem nos surpreender de formas que doem.

Quando o pai cai, a estrutura simbólica range, e quando a estrutura range, a massa busca culpados. E quem herda o nome frequentemente herda também o peso das projeções.

A psicanálise nos ensina que nem tudo o que é herdado é culpa, e que a responsabilidade é sempre singular.

Antes de julgar, vale a pena perguntar: o que há por trás do meu julgamento?

Que possamos viver em um mundo com mais empatia e com mais disposição para suportar a complexidade.

Débora Dante | Psicanalista

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