Desafios de Manter Grupos de Jiu Jitsu Feminino – Entrevista com Nika Schwinden

Conheço a Nika desde que ela era faixa roxa, e desde então, já admirava o seu trabalho com mulheres. Mesmo com uma turma pequena, ela estava sempre indo em todos os campeonatos de jiu jitsu, motivando, apoiando, e acima de qualquer título, isso é muito inspirador.

Conversando com algumas mulheres no nosso grupo de whatsapp, grupos de academias e tudo o mais, percebo uma grande dificuldade (falo por mim também) em manter turmas femininas em academias, tanto no Brasil, como nos EUA.

Pensando nisso, resolvi entrevistar Nika Schwinden, faixa preta há mais de 10 anos, que hoje tem uma turma de aproximadamente 150 mulheres, só em sua academia, a Gracie Barra Curitiba. Segue:

O início de tudo

Nika, sabemos que você dá aulas desde a faixa roxa (acompanhada por um faixa preta). Quais dificuldades você encontrou no começo para criar uma turma feminina e manter esse time?

Nika: Na verdade, foi muito natural começar a dar aula, porém não foi muito fácil começar a dar aula exclusiva para mulheres, e eu tive esse desejo no meu coração porque foi muito difícil dar esse início ao jiu-jitsu, na minha trajetória mesmo.

Eu tive muita dificuldade de encontrar um ambiente que me abraçasse como mulher, para a prática do jiu-jitsu. E aí, quando eu tive a oportunidade, eu quis me debruçar em relação à aula exclusiva para as mulheres.

Na época, não tinha ninguém dando aula só para o feminino aqui no Paraná e foi bem desafiador porque o meu grupo era sempre motivo de chacota, de piada. Durante muito tempo, as pessoas ficavam fazendo comentários, rindo pelos cantinhos, falando que a gente só batia “selfie”.

Eu lembro bem até que a gente, em um campeonato brasileiro, fomos em cinco meninas, e todas medalharam, voltaram campeãs, e foi uma vitória de alma. Mas, depois daquele dia, eu prometi nunca mais ter que provar alguma coisa para alguém em relação a isso, simplesmente porque era uma coisa que eu tinha escolhido fazer e que eu amo fazer, e aí o propósito foi ficando cada vez maior.

“Hoje, o jiu-jitsu nos serve como uma ferramenta; eu gosto de trabalhá-lo para empoderar as mulheres e, principalmente, para empoderar e fortalecer a união entre elas. Acabou se tornando isso na minha vida, muito louco.”

Quais estratégias você encontrou mais eficazes para atrair mulheres para começar a treinar jiu-jitsu, considerando as barreiras culturais e físicas que todas nós enfrentamos

Nika: A melhor maneira para atrair mulheres para o tatame, eu acredito que seja através dos workshops, aulas de defesa pessoal, porque 90% das mulheres que começaram acreditavam que não poderiam treinar Jiu-Jitsu. Então, quando você apresenta o tatame de uma maneira mais amistosa, você torna isso possível.

Como você cria um ambiente de treino que não só acolhe mulheres de todas as habilidades, mas também promove uma sensação de comunidade e pertencimento entre as praticantes?

Nika: Eu acredito que eu crio isso trazendo a responsabilidade para o indivíduo, de tornar aquele ambiente saudável para todo mundo e isso automaticamente vai faz com que aconteça e que se construa esse senso de pertencimento, de cuidado, de se abrir, de olhar o outro, né, coisas que a gente não tem muito nos tempos atuais.

É deixar a competitividade do lado de fora do tatame, e trazer o aprendizado para o lado de dentro do tatame. E, isso está sempre nas minhas falas, na formação. Eu acho muito importante sempre lembrar que a ferramenta é o Jiu-Jitsu, mas que aquilo ali pode ser muito mais terapêutico que só a prática do Jiu-Jitsu, que pode ser um momento de família, de parceria, de união e de troca mesmo de vivências, né, porque sermos todas mulheres, a gente acaba tendo várias histórias em comum e ali a gente consegue se fortalecer e amadurecer e crescer juntas. Não só em relação à habilidade técnica do Jiu-Jitsu, mas como um ser humano.

Diante dos desafios comuns que as mulheres podem encontrar ao treinar jiu-jitsu, como questões de segurança, intimidação ou falta de representação feminina, que medidas você toma para abordar essas preocupações e garantir que elas se sintam seguras e apoiadas?

Nika: Vejo que sou frequentemente criticada pela minha postura determinada nesse assunto. Na nossa escola, eu faço questão de não permitir ou aceitar qualquer forma de intimidação ou desrespeito em relação às diferenças de gênero. Essa é uma causa muito importante para mim, um espaço que defendo com unhas e dentes para as mulheres.

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Foto: arquivo pessoal

E o problema não se limita apenas ao tatame; é algo estrutural, presente em escritórios de advocacia, no crossfit, em qualquer lugar, e é um desafio global. Acredito firmemente que temos a responsabilidade de promover mudanças e aqueles com maior voz devem liderar esse movimento. Portanto, mantenho uma postura bastante rígida sobre isso.


Observo que muitas mulheres, por vezes, relutam em treinar com outras mulheres. Sempre enfatizo a importância de assumir a responsabilidade por essa mudança, pois, curiosamente, toda mulher já enfrentou algum tipo de preconceito ou discriminação de gênero. Questiono por que, quando uma mulher ocupa uma posição de liderança ou ensino, sua autoridade é frequentemente subestimada. Ou quando tem a chance de ser parceira de alguém com as mesmas capacidades, isso não é valorizado. Busco incentivar uma reflexão sobre essa auto responsabilidade em promover mudanças no sistema.

Uma vez que as mulheres começam a treinar, quais fatores você acredita que são cruciais para mantê-las engajadas e motivadas a continuar no jiu-jitsu a longo prazo?


Nika: Quando alguém treina em determinado local, essa é uma observação bem importante. Se a pessoa que está no comando não vê esse indivíduo como um ser humano, não se esforça para fazer parte de sua vida e seu processo de evolução, dificilmente essa pessoa desenvolverá lealdade e fidelidade ao local.

Portanto, a chave para gestores de escolas e professores é adotar uma postura humana, tratando os outros como gostariam de ser tratados, entendendo que estão interagindo com outro ser humano. É fundamental mostrar genuíno interesse por essa pessoa, estabelecer uma conexão verdadeira, pois isso a encorajará a querer voltar, a atravessar a cidade se necessário, para treinar com você. Isso acontece porque ela sente, através de suas palavras e ações, que é uma pessoa verdadeiramente importante e especial.

Como lidar com a rivalidade feminina? Em turmas femininas existe muita disparidade principalmente de objetivos, como o exemplo da praticante que gosta de competir, e a outra que pratica por hobby, para fazer uma atividade física… como lidar com essa diferença?

Por isso sempre toco, nas hora da formação, nas nossas conversas, nas redes sociais sobre a importância de cada mulher assumir a responsabilidade pela mudança no sistema estrutural que busca desmantelar, especialmente considerando que todas já enfrentaram algum tipo de discriminação por serem mulheres. Isso inclui questionar por que não se valoriza a oportunidade de ter uma parceira de treino, ou por que não se dá o devido valor a uma mulher que ocupa uma posição de liderança, como uma professora de faixa preta.

Da mesma forma, se uma mulher é advogada, ela busca ser ouvida e respeitada da mesma maneira que suas colegas. O ponto é enfatizar a necessidade de verbalização dessas questões, pois a comunicação clara é fundamental. É crucial não apenas questionar constantemente os motivos por trás de nossas ações, mas também compreender profundamente as razões pelas quais buscamos essas mudanças.

Como lidar com as diferenças entre praticantes de jiu-jitsu, incluindo aqueles com transtornos como TEA e Borderline, por exemplo, e manter a união do time?

Nika: Ao promover a inclusão e o senso de pertencimento em um ambiente como o de uma escola de Jiu Jitsu, é essencial começar pelo acolhimento e pelo entendimento das necessidades e objetivos individuais de cada aluno. Isso envolve reconhecer se o aluno está buscando competir, melhorar a autoestima, ou se está lidando com questões mais profundas, como ter sofrido violência, por exemplo. É importante coletar um histórico do aluno para categorizá-lo adequadamente, o que permite um acolhimento mais eficaz e a integração ao grupo de forma a minimizar qualquer impacto negativo, especialmente em casos de alunos que possam ter transtornos específicos.


Receber alunos com condições mais desafiadoras, como autismo em graus mais severos ou esquizofrenia, representa um desafio enorme. No entanto, o princípio do Jiu Jitsu ser para todos demanda um esforço conjunto para superar essas barreiras. Isso implica na necessidade de uma preparação que vai além do tatame, englobando estudos teóricos e práticas inclusivas que equipem os instrutores com as ferramentas necessárias para acolher todos os alunos de maneira efetiva. Assim, pode-se verdadeiramente cumprir a missão de fazer do Jiu Jitsu uma prática acessível e benéfica para todos, independentemente de suas particularidades individuais.


A Nika, além de professora, ajuda a gerenciar o GBF Camp, um dos maiores eventos de jiu-jitsu feminino do mundo.


Conversamos com ela, inclusive, se há a possibilidade dela abrir um curso mais profundo sobre como lidar/ trazer mulheres para o tatame, e ela disse que em breve abrirá uma turma. Aguardem novidades!

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