Ingridd Alves: o jiu-jitsu de Fortaleza para o Mundo

Hoje, trago a incrível história Ingridd Alves, que representa o jiu-jitsu de Fortaleza, e hoje faixa preta da Guigo Jiu-Jitsu. Conversamos sobre sua trajetória, objetivos, títulos, dificuldades e muito mais. Confira o nosso bate-papo:

Como conheceu o jiu-jitsu e há quanto tempo treina? 

Prestes a completar 20 anos de idade, eu estava deprimida por ter deixado o sedentarismo me levar aos três dígitos na balança. Por conta própria, decidi procurar uma academia para perder peso e voltar a ter vida social, pois também estava muito isolada de tudo e de todos. 

Apenas simpatizava com o jiu-jitsu por acompanhar os eventos do UFC pela TV, não rolou nenhum convite para conhecer o esporte. Acredito, de verdade, que a “mão de Deus” me conduziu até a academia. 

No início, eu era bastante desengonçada e todas as técnicas davam um nó na minha cabeça. O sobrepeso me deixava insegura até para fazer um rolamento. A felicidade é que meu  professor Edilson Albuquerque, da Escola da Guarda, sempre acreditou em mim. Trabalhamos bastante em prol da minha evolução, tanto que em poucos meses, perdi 30 (trinta) quilos, ganhei um novo estilo de vida e uma profissão que já me rendeu muitos títulos, apesar de ter começado com o pé esquerdo.

foto de 2014 (reprodução: arquivo pessoal)

Fui “apagada” logo na minha luta de estreia na faixa branca. Após esse resultado, voltei ao dojô com mais vontade de vencer e, desde então, venho treinando exaustivamente para me superar a cada dia. Quase oito anos se passaram e estamos aí pro que der e vier. 

Como era ser uma atleta de jiu-jitsu de Fortaleza?

Eu nasci no Piauí e, por ser filha de militar, morei em varias cidades. Essas constantes mudanças me abalavam, pois tinha que recomeçar a vida social do zero a cada transferência com a minha família.

Até que em 2014 eu comecei a treinar na Escola da Guarda, fortalecendo o jiu-jitsu de Fortaleza. Inicialmente eu trabalhei como atendente de telemarketing e depois como auxiliar administrativo.

Na época era correria total, dava muito plantão (inclusive em horário noturno). Já fui virada para o treino diversas vezes e, quando em tese teria tempo para descansar nos finais de semana, na verdade estava em guerra nos ginásios, em campeonatos locais. Acho que ganhei uns cabelos brancos nessa época, mas valeu a pena!

Antes de ser desligada do trabalho e receber bolsa-esporte, participava de apenas um grande campeonato no ano, que era o brasileiro da CBJJ. Fazia hora extra para conseguir me ausentar nas viagens e acumular uma grana a mais, somada com o apurado em rifas, tudo isso na faixa roxa. Em 2018 levei prata na categoria (perdeu pra Chloe) e bronze no absoluto (perdeu pra Gabi Pessanha).

Como é a sua rotina de treinos? 

De segunda a sábado, temos um treino de competição bem “hardcore” na  Guigo JJ, são duas horas e meia a partir de 9h, entre técnica e porradaria.  A depender do dia, faço drill e específico antes ou depois desse treino principal, então sempre marco com algum parceiro de treino.

3x na semana faço preparação física, 1x por semana recovery e quinzenalmente acompanhamento psicológico. 

Minha nutricionista planeja a alimentação de acordo com a categoria do próximo campeonato. Transito entre meio-pesado e pesado, mas procuro manter a alimentação regrada, sim, flexibilizando um pouco no final de semana para não enlouquecer kkkkkk

Quando decidiu viver 100% do jiu-jitsu?

Durante minha trajetória, cheguei a conciliar os treinos com o trabalho de atendente de telemarketing e, posteriormente, auxiliar administrativo. 

Mesmo a duras penas com essa dupla jornada, consegui bater na trave no Campeonato Brasileiro CBJJ de 2018 e 2019, ainda como faixa roxa. (Ela fez as finais contra a Larissa Dias, perdendo de vantagem, e Mayara Custódio).

Já na faixa marrom, recebi um “sinal divino” ao ser cortada do emprego e, logo em seguida, ter sido selecionada para receber o auxílio financeiro do “Bolsa Jovem” na modalidade esporte, concedido pela Prefeitura Municipal de Fortaleza. Somada à bolsa, passei a dar aulas particulares e investir parte das verbas rescisórias para tirar o passaporte e visto americano. Ao aliar esse esforço com o apoio de pessoas e empresas que acreditam no meu trabalho, passei a viajar para competir o máximo possível. O sonho de viver do jiu-jitsu virou uma realidade.  

Acha possível ser atleta e ter uma profissão por fora?

Acredito que a palavra “impossível” deveria ser abolida do dicionário. Claro que o melhor dos cenários é ser atleta “full time”, mas nossa obrigação é dar o melhor com os recursos que temos disponíveis no momento presente. 

Levo comigo a filosofia de Martin Luther King: “Se não puder voar, corra. Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito”.

Apesar de hoje não ter profissão por fora, voltei a estudar para concluir o nível superior em quiropraxia. Estou no quarto semestre da graduação e sinto que mato um leão por dia para dar conta de tudo, mas sigo firme nos meus propósitos. 

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Títulos da atleta em 2021 (foto: arquivo pessoal)

Quais são as principais dificuldades no esporte e na carreira de atleta?

A falta de apoio que, no meu caso, foi experimentada já dentro da minha própria casa. Na melhor das intenções, meus pais não aceitaram esta escolha por classificarem o jiu-jítsu como algo “sem futuro”. 

Essa falta de apoio se repetiu em outras tantas portas fechadas que tive que encarar.

Mesmo aos trancos e barrancos,  mantenho a máxima disposição para construir meu legado desde que caí de pára-quedas numa academia fundo de quintal, que sequer bebedouro tinha, mas onde me formei com muita honra da faixa branca à preta. Mudei para a Guigo em busca das oportunidades que o time de competição proporciona, mas as minhas origens da Escola da Guarda estão entranhadas em mim. 

Quais os benefícios que o jiu-jitsu trouxe para a sua vida?

Por um lado, perdi trinta quilos e me livrei da depressão. Por outro, ganhei um estilo de vida, conquistei inúmeras amizades e virei atleta profissional. 

Qual o estilo de jogo que mais gosta e qual sua finalização preferida?

Não é segredo para ninguém que sou guardeira e o triângulo já virou até uma marca registrada, mas claro que onde cair temos jogo.

Quais os seus principais títulos de jiu-jitsu?

Com certeza o World Pro na faixa preta, que é minha maior realização. Experimentei uma sensação inexplicável, tão valiosa que nem todo dinheiro do mundo seria capaz de comprar. 

Eu cheguei ali, no topo do esporte para o qual eu estava me doando por inteiro há sete anos, em alto rendimento. Sem dúvidas passou um filme pela minha cabeça, com todas as provações, sacrifícios, momentos de glória e derrotas, pessoas que me apoiaram e também aquelas que duvidaram do meu potencial. 

Acredito que não somente as medalhas douradas que conquistei anteriormente, mas também cada um dos tropeços que tive durante a caminhada, me conduziram ao cinturão de Jiu-Jitsu mais cobiçado do mundo inteiro.

Além do World Pro, sou campeã brasileira, europeia, sul-americana (peso e absoluto) e, neste ano de 2022, conquistei o bronze no Mundial, todos esses últimos títulos pela CBJJ/IBJJF. 

Quem são seus/suas maiores inspirações no esporte?

Sou atleta da Guigo JJ e sinto que o ambiente por si só é inspirador, não apenas em razão do mestre, mas também pelos meus parceiros de treino. A gente se fortalece mutuamente.

Quais seus próximos objetivos?

Para a comunidade do jiu-jitsu, melhor que ser campeão do World Pro, apenas ser multicampeã!

O World Pro é o título mais expressivo da UAEJJ, a federação que mais valoriza nossa arte marcial sob a organização da AJP, a ponto de denominar os detentores do título como “heróis”, nos coroando com uma boa premiação em dólares, medalha e cinturão, fora o tratamento que é bastante honroso. 

Acredito ser mesmo uma heroína, não por ser um mito, longe disso, mas sim por superar a exaustão, dores, medos e meus próprios limites, ainda que para isso derrame sangue, suor e lágrimas.

Então, o bicampeonato é meu maior objetivo hoje e não descansarei até que se torne realidade.

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