O Gambito da Rainha: lições do xadrez de tabuleiro para nosso xadrez humano, o jiu-jitsu


O xadrez foi uma das minhas primeiras paixões na infância, e isso me chamou atenção para a minissérie da Netflix lançada em outubro, O Gambito da Rainha. A série é baseada no livro de Walter Tevis, que foi publicado em 1983 e conta a luta de Elizabeth Harmon para seguir em frente na vida sendo uma menina órfã, em 1950, que se apaixona e se entrega às disputas no xadrez aos 9 anos.

Gambito é uma estratégia dentro do tabuleiro, uma forma de sacrificar uma peça durante o jogo para que se obtenha algum sucesso adiante. A rainha refere-se à Dama, peça com dinâmica de mobilidade especial dentro do jogo. Durante a trama, podemos observar que isso acontece com a protagonista dentro e fora dos tabuleiros. Sem muito spoiler, o que me deixou muito intrigado com a série foram os ensinamentos que pude retirar para nosso jiu-jitsu, considerado por muitos como o “xadrez humano”, por depender além do esforço/capacidade física, de uma capacidade intelectual aguçada dentro dos seus movimentos e abstração dos movimentos do adversário.

Sim, não consegui passar um episódio sem observar disciplina, foco, estudo, reflexão da ação, análise de riscos e dedicação. Tudo que precisamos para nossa rotina de treinos no jiu-jitsu, competitivo ou não. Se você já assistiu a série ou pretende assistir, espero que acompanhe essa humilde observação que pode servir no seu desempenho ou progresso na arte suave.

Disciplina

Durante a série, Beth Harmon não possui um professor ou tutor fixo para “cobrar” seu treinamento, ou que ela precisa se dedicar ao treinamento para alcançar o seu objetivo. Claro que muitas vezes era exaustivo o processo vivido pela personagem, mas fiquei muito impressionado com o esforço da jovem em sempre buscar estar praticando, em dedicar/planejar um tempo para o que ela se propôs. Sempre busque estar em dia com sua prática, mesmo que não tenha ninguém cobrando. Claro, se puder.

Foco

Embora tenha uma vida conturbada, o seu amor pelo xadrez sempre falou mais alto, e Harmon sempre conseguiu voltar para sua atividade procurando êxito. Sabemos que muitas vezes somos atropelados por situações na nossa vida que nos impedem, de alguma forma, de seguir no jiu-jitsu. Mas eu consegui captar a ideia de que, se é o objetivo planejado, devo procurar uma forma de ajustar o jogo e continuar no caminho.

Estudo

Talvez seja o quesito que mais chamou a atenção. Quando não estava praticando, a personagem devorava livros e livros, matérias de revista de outros enxadristas, observando falhas, formas, planejamento, anotações… (isso não seria prática?) Sempre voltando a prática no tabuleiro para analisar as possibilidades. Isso me lembrou muito meu início e claro, meu momento atual no jiu-jitsu, devorando revistas e materiais diversos que tratam do BJJ. O estudo sempre é contínuo, seja no treino de uma posição ou seja em casa.

Reflexão da ação

Revisar nosso jogo, acredito, é uma tarefa de extrema dificuldade, principalmente porque afeta diretamente o ego. A personagem tinha o apoio de alguns amigos que alertavam para possíveis falhas em suas atitudes dentro do xadrez. Mesmo não aceitando de cara, ouvir suas falhas foi fundamental para o desenvolvimento de Harmom. No jiu-jitsu, geralmente, nossas falhas veem acompanhadas dos três tapinhas, e às vezes, são menos graduados que nos proporcionam este momento. Isso não precisa ser o fim do mundo, foi apenas uma falha, um cansaço, um momento. Tomar isso como aprendizado é fundamental. Ah, e isso serve para dentro e fora do tatame.

Análise de risco

O xadrez, assim como o jiu-jitsu, nos cobra sempre uma análise rápida de nossas ações. Seja uma pegada, seja quem chama primeiro pra guarda, precisamos sempre estar à frente de nossos adversários planejando estratégias de jogo. Às vezes uma decisão equivocada pode nos custar uma raspagem ou uma finalização. Harmon estudava os jogos de seus adversários para poder se adiantar ou projetar seus passos de defesa e ataque no tabuleiro. Analisar sempre que possível também o preparo físico e emocional pode ser uma boa estratégia (se entender no estágio de desenvolvimento dentro das graduações, se está treinando constantemente).

Não poderia esquecer de falar que trata-se de uma série que clama pelo protagonismo e ascensão feminina numa época extremamente machista, num esporte que acompanhava a lógica da época. É inspirador ver produções artísticas que dialoguem com a “correção histórica” de nossa sociedade. Tenho certeza que em diversas atividades esportivas as mulheres possuíam habilidades e talentos superiores aos dos homens, pois isso não está ligado exclusivamente ao gênero e sim às oportunidades. Quantas Elizabeth Harmon não poderíamos ter no jiu-jitsu, judô, futebol…?

No mais, deixo uma lição que estou seguindo de uns tempos pra cá: diversas produções culturais, filmes, séries, livros, nos trazem algum ensinamento que podemos levar para nossos treinos. Seja em uma série falando sobre xadrez, um minicurso que veio de brinde num momento de lazer, um trecho de um livro que você leu, dentre outros exemplos. Já percebeu isso em alguma produção?


Para quem quiser saber mais sobre a série, separamos um vídeo da Netflix:

A melhor enxadrista do Brasil explica O Gambito da Rainha

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