Por que deveríamos ter mais professoras de jiu-jitsu?


Foto: instagram Bianca Andrade

Por Alexandre Meyer Luz*

Algumas questões podem ser resolvidas de um jeito simples: alguém poderia dizer que jiu-jitsu não é um esporte para mulheres e encerrar a questão assim. Felizmente nós vivemos em um tempo em que não há pessoas com a força para responder questões desse modo autoritário e dogmático (mesmo que muitos gostem de quem tenta resolver questões intrincadas por meio de decisões autocráticas).

Mulheres nos tatames são um fato, e isso é excelente: o esporte alcança um público maior e, com isso, mais e mais gente pode se beneficiar dele. Seja como caminho profissional, como esporte, como meio de defesa pessoal ou como caminho para o desenvolvimento físico, mental e de aspectos importantes da socialização. Porém, o fato de termos mais e mais mulheres nos tatames não deveria também encerrar a discussão. Há muito mais a ser feito e eu gostaria de tratar brevemente de alguns dos muitos aspectos do que todos podemos e devemos fazer para nos educarmos na direção de oferecer uma experiência melhor para as jiu-jiteiras, como parte da comunidade de praticantes de jiu-jitsu.

Parece fácil descrever um esporte como o nosso como um esporte individual, afinal você luta sozinho contra um adversário. Pensar em termos individuais, porém, esconde muitos aspectos coletivos: esconde que o treino é quase sempre algo que fazemos em grupo, esconde que quando pisamos no tatame nos deparamos com vários elementos que nos chegam vindos de grupos no passado deste esporte. Neste último sentido, vale pensar na herança que recebemos já na primeira semana como um faixa-branca: usamos uma roupa, uma faixa branca, pisamos em um piso macio, aprendemos certos golpes e etc, e tudo isto foi pensado por alguém antes de nós. Se a luta é individual, o passado e o presente chegam até nós como um evento coletivo!

Estes aspectos de coletividade não se resumem aos aspectos materiais, mas incluem também elementos culturais. Quando entramos em uma academia, recebemos um banho de uma cultura cheia de especificidades, que nos diz coisas sobre hierarquia, agressividade, obediência, lealdade, cortesia e etc. Esta cultura por vezes aparece de maneira explícita, como num conjunto de regras de comportamento fixados na entrada do tatame.

Porém, ela também aparece em pequenas ações de valorização (ou de reprovação) de certas atitudes, aparece no vocabulário (você já pensou em quão exótico é um brasileiro pensar em si mesmo como um “samurai”?) e em diversas formas sutis da relação entre cada pessoa e aquele ambiente. E, claro, não se trata apenas da cultura específica do jiu-jitsu: cada pessoa traz pedaços de sua própria relação com a cultura da sociedade (ou as culturas)  para dentro do tatame, sob os mais diversos aspectos: religião, classe social, sexualidade e, dentre outras coisas, gênero!

Claro, alguém pode imaginar o tatame como um lugar para treinar, apenas. Um professor pode pensar sobre sua turma deste modo, um aluno idem. Isto não é negativo em si, já que isto pode ajudar a evitar que um traço negativo das culturas se manifeste de modo explícito em sua turma: o preconceito identitário. De modo bastante introdutório, preconceito identitário é uma avaliação injusta (geralmente para baixo) direcionada a um grupo de pessoas de modo associado a uma ou mais características que conferem identidade ao grupo. Exemplos de preconceito identitário aparece quando alguém diz que “os torcedores do time X são animais” ou que “os estudantes do curso Y são maconheiros” sem estar preocupado com qualquer fato sobre como efetivamente são aquelas pessoas ou realizando uma generalização apressada e descuidada.

A questão dos preconceitos identitários é cheia de sutilezas e elas não cabem todas  neste espaço. Uma destas questões não pode deixar de ser mencionada aqui: assim como recebemos uma cultura, na vida e na academia, recebemos também preconceitos identitários em relação a vários grupos sociais. Recebemos preconceitos por duas razões: primeiro, a base dos preconceitos identitários são os estereótipos identitários. Nós aprendemos que o grupo dos médicos, por exemplo, tem tais e tais características como a “capacidade de curar tais e tais doenças” e o “usar jaleco branco”. Saber isto nos poupa tempo e esforço quando precisamos de alguém que cure tal e tal doença. Estereótipos, neste sentido, não são ruins, pelo contrário. Mas eles são uma porta de entrada típica para preconceitos.

A segunda razão tem a ver com os constantes conflitos de interesse que afetam indivíduos e grupos identitários. As disputas conflituosas podem se dar em diferentes níveis: elas podem ser físicas, como numa briga de torcidas, mas podem também ser simbólicas, quando se constrói ou se recebe historicamente um imaginário que eleva o grupo de que se faz parte ou que diminui o outro grupo. Nós recebemos preconceitos em relação a grupos muitas vezes sem que nem nos demos conta do conflito de interesses em jogo.

Este caráter silencioso do preconceito deveria fazer todos os que querem um tatame aberto para todo tipo de gente parar para pensar. Este preconceito silencioso, chamado tipicamente de preconceito estrutural, tem a característica frequente de não ser imediatamente percebido pelos indivíduos do grupo mais forte contra o grupo mais fraco. Ele aparece, então, não pela escolha de um homem em tomar conscientemente as mulheres como inferiores (em algum sentido que não esteja baseado em fatos, como no caso dos torcedores mencionado anteriormente), mas num conjunto de falas e ações que inferiorizam direta ou indiretamente o grupo das mulheres. Não se trata, portanto, do que este ou aquele homem pensa sobre a denúncia de que certa ação ou frase é machista. Não se trata, também, do que esta ou aquela mulher em particular pensa. Se há preconceito, ele se manifesta nos resultados, independemente das declarações de alguma mulher que não se sente diminuída por esta ou aquela frase ou ação.

Como diminuir o preconceito no tatame

Os fatos parecem deixar claro que as mulheres são minoria nos tatames. Elas entram em um menor número e, vou supor, elas desistem em maior número. Talvez as razões para isto não estejam todas dentro do tatame; mas seria saudável, para quem quer ter mulheres frequentando o tatame, se perguntar se o preconceito não está desestimulando as mulheres dentro das academias. 

Se o preconceito identitário se infiltra para dentro do tatame, vale perguntar como lidar e acabar com ele. Vou sugerir duas estratégias: a primeira delas é a da representatividade. Quanto maior a ausência de mulheres no tatame mais facilmente o preconceito estrutural se estabelece e se reproduz e mais forte fica o ciclo vicioso que afasta as novatas. Mulheres precisam ter um lugar destacado na hierarquia da academia, como forma de compensar o seu menor número. Por exemplo, colocar tutoriais de posições estrelados por mulheres no grupo de whatsapp dos alunos não custa coisa alguma e é uma forma eficiente de destacar a representatividade.

A segunda é a de promover espaços exclusivos para mulheres. Eu não estou sugerindo aqui que não deveríamos ter treinos mistos ou etc. Eu estou apenas sugerindo que, além da representatividade, grupos de membros identitários minoritários precisam de espaços para organizar a sua própria vivência. Assim como os espaços masculinos no tatame são espaços, muito tipicamente, de construção de “broderagem”, mulheres precisam, mais do que os homens, enquanto minorias, de espaços de “sisteragem” (você já se deu conta que só existe a versão masculina do termo?). E, claro, estes espaços deveriam ser conduzidos por mulheres, não por homens.

Uma das coisas que o jiu-jitsu me ensinou foi a entender o que é um “rola soltinho”. Eu fui entender melhor esta noção quando comecei a me dar conta de um tipo de generosidade que sempre foi comum nos tatames que frequentei: aquela generosidade de um faixa preta que vai rolar com um branca não deixando o branca fazer o que quiser, mas sim jogando com o seu pior jogo. Esta é uma generosidade inteligente, já que o faixa preta encontra aí um lugar para lapidar o seu pior jogo e ao mesmo tempo cria condições que ajudam a desenvolver habilidades mais básicas do faixa branca, além de não submeter o novato a uma situação de atropelo constante (quem quer praticar um esporte em que é sistematicamente derrotado? É preciso submeter um faixa branca a isto para formar um bom preta? eu não creio nisso).

Este tipo de generosidade inteligente, vou me dar o direito de sugerir isto por conta dos meus cabelos brancos, não faz bem só para os faixas brancas. Faz bem para todos, na academia e na vida. Pensar sobre mulheres no tatame sob esta ótica generosa, abre os olhos para que se perceba um mar de possibilidades de desenvolvimento do esporte e das pessoas que o praticam e que vivem não só no tatame (o que inclui homens que vivem com mulheres, que criam filhas, que cuidam de suas mães e etc). Não é “mimimi”, é aprender com quem é diferente, antes de antagonizar. Aprender de verdade, dando as condições para que as situações de aprendizagem aconteçam. Oss para todos, mas uma saudação especial para todas as jiu-jiteiras que nos ensinam a lidar com isso!


*Filósofo, Professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina e Faixa Preta de Jiu-Jitsu

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