Vanessa Sousa: primeira árbitra e coordenadora de arbitragem de jiu-jitsu do RS


“Eu sou dentro do jiu-jitsu gaúcho a faixa preta que eu nunca tive!”

Essa entrevista de hoje é muito especial para mim, pois vou falar um pouquinho desta gaúcha, inspiração para o público feminino e não somente isso, a primeira árbitra e coordenadora de arbitragem do Rio Grande do Sul. Ela literalmente levantou a bandeira do BJJ feminino aqui no estado e acabou abrindo o caminho para que outras mulheres se inspirassem a arbitrar campeonatos de jiu-jitsu.

Convidei a Vanessa Bezerra de Sousa para um bate-papo. Falamos de sentimentos, essência, coisa boa e relembramos histórias. Uma aquariana de espírito humanitário, de personalidade simpática, que conquista amizades por onde passa e que possui uma originalidade sem igual. Iniciou no jiu-jitsu com 15 anos e com apenas 3 aulas encarou seu primeiro campeonato já medalhando, foi justamente por esse motivo que ela tomou gosto pela coisa. Se hoje ainda sofremos com a falta de atletas em algumas categorias, você pode imaginar 18 anos atrás, quando as categorias ainda eram unidas para que houvesse lutas.

Ela acabou se lesionando, entrou para a faculdade de Relações Públicas muito cedo, com apenas 16 anos, permanecendo na arte suave por mais 2 anos até completar sua maior idade. Começou a trabalhar ficando quase 9 anos afastada do jiu-jitsu e treinando a cada 3 meses, entendendo que essa não era uma melhor forma de graduar, quis permanecer na faixa azul, ela pertencia a Equipe Marra Senki na cidade de São Leopoldo e treinava com o Professor Sérgio Correa. Sua retomada ao BJJ aconteceu em 2013.

No seu retorno graduou faixa roxa, foi aqui que ela iniciou sua turma feminina e com isso realizou seu primeiro curso de regras.  Foi neste período que ela conheceu seu atual professor e amigo Márcio Mendonça da Equipe A de Novo Hamburgo, o qual lhe graduou faixa marrom e preta e a fez campeã de muitos títulos, além de torna-lá árbitra. Ele foi o maior incentivador de Vanessa, principalmente na arbitragem.

O incentivador da arbitragem

Com todo esse carinho que ela tem pelo seu atual professor, procurei o Márcio Mendonça que como sempre foi muito simpático e concordou em falar um pouquinho sobre essa guerreira.

Márcio conheceu a Vanessa a aproximadamente quatro anos atrás, quando ela foi visitar a sua academia e em uma conversa descobriram que iriam disputar o mesmo campeonato em São Paulo, o Mundial da CBJJE. Ela se interessou em ir com Márcio e a sua filha Manu Mendonça, 13 crianças de um projeto social e mais dois adultos.

Sempre cuidadosa, Vanessa ajudou a cuidar das crianças, mas o que eles não contavam era que desse tudo errado. Chegando ao aeroporto descobriram que as passagens das crianças teriam sido compradas erradas e que não havia passagem alguma, mas Márcio com todo o seu empenho, conseguiu que a empresa aérea ajudasse a embarcar as crianças uma a uma para São Paulo. “Foi um dia inteiro embarcando crianças para SP” como relembra Márcio.

Chegando a São Paulo a equipe conseguiu fazer quatro campeões, o que eles não contavam novamente era que o problema nas passagens aéreas iriam se repetir, só que agora a empresa aérea não ajudou. Novamente Márcio se empenhou e acionou de lá mesmo vaquinhas para ajudar essas crianças do projeto, ele foi comprando as passagens uma a uma para que as crianças pudessem retornar. Sim, a sua academia tem essa união e esse cunho social. E foram esses os motivos que levaram a Vanessa a se apaixonar pela equipe.

Foi aqui que ela foi convidada pelo Márcio para entrar na equipe. Márcio me relatou que fica muito feliz em ter participado desta evolução da Vanessa, pois ela estava parando, estava desistindo do jiu-jitsu. “Hoje ela voa sozinha!”

O início da arbitragem

A arbitragem começou pelo incentivo do seu professor Márcio Mendonça, e nunca foi algo que ela quis. O primeiro ano foi muito difícil, nos estágios por ser a primeira árbitra no estado, escutar besteiras como ela mesma falou foi muito comum no início, pois muitos pensavam que ela estava ocupando um lugar que não era dela. Ofensas e boletins de ocorrências também fazem parte deste currículo de arbitragem. Depois de um ano, a arbitragem começou a ser o seu amor, inspirando mulheres no Sul do país, no Brasil e fora dele.

Já tínhamos nos emirados árabes outras faixas pretas que arbitravam, mas a entrada dela na arbitragem impulsionou muitas outras a entrarem neste time. Na área atualmente há quatro anos, arbitrando por três regras diferentes IBJJF/CBJJ, AJP e a SJJSAF, em destaque para a última que é a precursora de levantar a bandeira do jiu-jitsu feminino, kids e o paradesportivo, fechando muito com as ideias que ela aborda que é o estímulo das atletas faixas pretas e mulheres.

Foi seu atual professor que a colocou em seu primeiro estágio de arbitragem já na faixa marrom na Associação de Árbitros de Jiu-jitsu do Rio Grande do Sul: “foi ele que me jogou para os leões” e a colocou nas situações mais difíceis que ela podia estar no esporte, foi ele que a fez árbitra e campeã de muitas coisas, também que a ajudou a viajar para o exterior e a fez faixa preta e não somente isso, a fez faixa preta responsável pela equipe dele. Sim ele confiou a ela essa responsabilidade. Sim isso é representatividade feminina quando se tem o apoio total do seu professor.

Quando a colocaram no quadro de arbitragem, ela sabia de tudo que ela teria que segurar, recebia áudios diariamente de meninas elogiando e incentivando, pessoas a marcando em redes sociais, foi ai que realmente ela pensou que teria que ficar até uma próxima chegar e embora não tivesse sido o seu sonho, alguém teria que fazer a frente pois poderia ser o sonho de alguém. Um exemplo disso é a faixa marrom Michele de Assis, que atualmente estagia com o André Bastos e falou para a própria Vanessa: “Você é a minha inspiração!”

Márcio a ajudou a ser campeã de muitos campeonatos, entre eles podemos destacar o Brasileiro, Brasileiro No-Gi, Sul-Americano, Sul-Americano No-Gi, Internacional Master, Pan Americano.

Quando questionada sobre a sua equipe, ela me falou que não entrou para a equipe do Márcio Mendonça só porque ele é bom de jiu-jitsu e nem porque ele é do mesmo tamanho que o dela, mas principalmente pelo cunho social da equipe, pelo conhecimento que ele tem. Pois a equipe não dispõe de dinheiro e sim de união para fazerem qualquer coisa pela comunidade, seja ela uma festa de crianças, ou inscrições para um projeto social sempre terá alguém disposto a participar em ajudar. “Eu sou fã dele e sou extremamente grata!”

Arbitragem no presente

Atualmente a gaúcha ama arbitrar e já conta com três estagiárias que querem seguir o seu legado, são elas: Débora Maciel, Dulce Rosenthal e a Thais Oliveira. Cuidadosa em todos os detalhes, ela tem a preocupação de preparar as meninas para assumirem esse quadro da arbitragem, pois sente que elas possuem o incentivo que ela no passado não teve.

“É muito fácil quando a gente só é atleta, agora se responsabilizar por um atleta que teve uma preparação física, um condicionamento físico, lutou, treinou por meses se preparando para uma luta e a gente estar despreparado para arbitrar, aí prejudicar esse atleta eu acho que é a pior coisa que existe neste mundo. Somos humanos e erramos, mas a gente estuda para que isso não aconteça e a gente estuda muito e mulher estuda 10 vezes mais, eu acho, para não dar ponto sem nó.”

A coordenadora de arbitragem

Sabe-se que temos a Roselind Ferreira como coordenadora de arbitragem nos Emirados Árabes, tanto feminino como misto, mas aqui no Brasil temos a Vanessa Sousa, que foi a primeira coordenadora de um recente evento que ocorreu em Lajeado, aqui no RS, no qual contou com a presença de 400 atletas aproximadamente. Ela coordenou um time de oito homens arbitrando, ficando assim extasiada com a oportunidade oferecida pelo André Cristófoli, presidente da FSJJRS, federada da SAF.

“Quando uma mulher coordena, os professores são mais contidos e te escutam melhor”, ela destaca também que o fato dela ter formação em Relações Públicas facilitou sua relação com os professores e que não houve nenhum tipo de machismo neste evento. Fizeram parte do seu time: Márcio Mendonça, Gabriel Horn, Cristófoli, Daniel Figueiró, Felipe, Henrique, Didi e Alberto. Como ela mesma disse: “Fica aqui um agradecimento especial para esse time que realmente valoriza as mulheres e fizeram o campeonato se tornar leve e não se importaram em ter uma amiga e colega coordenando eles. Uma experiência incrível!”

Com o apoio do público, dos atletas, dos professores, das amigas, das meninas que se inspiram e toda a sororidade feminina, apoio da SAF no RJ, Lu Neder que é a uma das representantes da SAF no Rio de Janeiro, André Cristófoli e do Márcio Mendonça tudo aconteceu de uma maneira leve. Como ela mesma me falou: “Eu estava pronta para qualquer coisa que viesse dar errado, para qualquer amigo que viesse desistir de me apoiar e para qualquer desrespeito, estava pronta para qualquer gerenciamento de crise que pudesse acontecer com possível problema. Mas as coisas aconteceram magnificamente bem!”

Conversei com Cristófoli e pedi para que ele deixasse uma descrição da Vanessa: “Ela é uma pessoa sensacional, ter ela do nosso lado foi a melhor escolha que eu podia ter feito, gosto muito do trabalho dela e do jeito que ela trata os atletas e as crianças. Todos os professores gostam da atuação dela. Obrigada Vanessa por você ser essa pessoa fantástica.”

Como é a Vanessa árbitra daqui a 5 anos?

“Não serei mais árbitra não, daqui menos de 5 anos em um futuro muito próximo 2020-2021.” Quando entrou para esse ramo, isso não era um desejo, como acontece com essa nova geração, como a Dulce Rosenthal, Débora Maciel, Thais Oliveira e eu. Elas procuraram, desejaram, se espelharam e querem muito arbitrar. O que aconteceu foi que ela começou um sonho que não era dela e estagiou por 1 ano, escutando muitos absurdos e querendo desistir sempre.

“A gente pensa em desistir, mas entre pensar e fazer existe uma grande distância e por isso a gente nunca desiste.”

Atualmente tem-se a certeza que as árbitras já estão sendo bem vistas e irão ganhar destaque e exercerão com muito amor o jiu-jitsu, esse espaço será ocupado por mulheres que encontrarão mais facilidade de estudo, de convivência, de espaço e de respeito.

Imaginando que daqui a dois anos não esteja arbitrando mais, Vanessa gostaria muito de formar um time feminino de arbitragem e daqui a cinco anos sim, olhar as meninas que entrarem em atividade sendo melhor do que a sua geração foi. “Fui uma facilitadora, não aguentei nada de graça, quero essa geração com mais respeito, quero que alguém diga que no meu tempo era diferente, daqui a cinco anos teremos outros objetivos e desafios para o esporte, porque esses já evoluíram. Que as mulheres sejam melhores tecnicamente, dentro e fora do tatame, que elas façam treinos femininos e que elas se coloquem a disposição de ser a faixa preta que elas não tiveram, que façam por respeito pelo trabalho que foi realizado até aqui.”

Todas nós sabemos da dificuldade que é ter mulheres faixas pretas em um tatame, a própria Vanessa teve essa experiência somente após 14 anos de jiu-jitsu, quando rolou com a Márcia, mãe do Ian Berhing. Este momento foi o divisor de águas, foi neste momento que ela percebeu que precisava retribuir tudo que o jiu-jitsu já tinha lhe dado que eram: força, garra, saúde, determinação, não desistir de qualquer obstáculo, continuar sempre em frente e principalmente, o relacionamento com pessoas de todos os tipos, estilos e classes sociais, pensamentos e a troca de uma energia e tato dentro de um tatame.

A máxima do grande professor é formar pessoas melhores do que ele e eu sei que essas gurias já são melhores do que eu. Pode ter certeza que vocês já são mil vezes melhor do que eu fui, e vão ser mil vezes melhor do que eu sou hoje em breve. E não vai demorar 18 anos, não. Isso me deixa muito feliz, que vale apena tudo isso!

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