Apesar das limitações, projetos sociais transformam vidas


Administrar uma academia de jiu-jitsu, ou de qualquer outra modalidade esportiva, certamente não é um trabalho simples, afinal requer alta exigência de planejamento, desde o público-alvo até organizações mais técnicas, como acessibilidade, localização, estrutura, conforto, qualidade do serviço, entre outras, que são determinantes para que o negócio funcione e alcance ainda mais pessoas. Mas quando a academia se trata de um projeto social, esse trabalho se torna ainda mais difícil.

Primeiro de tudo é necessário citar as diferenças de objetivos e de público-alvo entre uma academia pagante e um projeto social. Das academias pagantes, os objetivos podem variar desde apenas oferecer uma forma de defesa pessoal através das artes marciais, a formar uma equipe competidora. Mas a maioria atualmente consegue agregar a todos os objetivos, sendo capaz de oferecer tanto aulas de defesa como para competidores e muitas delas estão vinculadas a equipes de grande nome, sejam elas em âmbitos nacionais ou regionais, o que faz com que muitas estejam localizadas em áreas mais nobres da cidade, visando alcançar um público que, obviamente, possa pagar pela academia.

Já os projetos sociais, têm uma função amplamente social, estando geralmente situados nas áreas periféricas, e boa parte deles não agrega nenhum tipo de fim lucrativo, seja nas mensalidades, seja para manutenção do espaço, ou cobram um valor muito abaixo do mercado, justamente por ter como principal objetivo alcançar jovens, crianças e adultos que não possuem condições financeiras para pagar por uma academia maior.  Além do mais, boa parte dos projetos não possui um espaço próprio ou adequado. Como muitos se mantêm através de voluntariado, é comum que estejam situados em espaços comunitários ou cedidos (como um pátio de uma casa, um quintal, uma igreja), o que limita a frequência dos treinos durante a semana e os horários, sendo essa a sua primeira grande limitação.

Nessa realidade, nem sempre é possível organizar treinos para todos os dias da semana ou em horários variados. No centro onde treino, por exemplo, temos uma limitação de apenas três dias durante a semana, divididos em dois horários em um dia de treino, no qual o primeiro treino é reservado às crianças e adolescentes e o segundo horário aos jovens e adultos. Apesar de não ser a maneira mais adequada de dividir os treinos, é uma limitação que nos impõe como única forma de organização, na qual não nos permite dividir os treinos por categoria, iniciantes, graduação e competição, por exemplo.

O prejuízo que isso pode causar é exatamente na disparidade de níveis entre atletas, no qual iniciantes podem acabar pulando etapas, e graduados podem sentir-se estagnados. E certamente esta é a realidade de muitas equipes que se mantêm como um projeto social. Mas apesar das limitações, o esforço tanto dos instrutores quanto dos alunos consegue burlar o que poderia resultar em prejuízos e gerar bons atletas e excelentes competidores. A verdade é que isso acaba por exigir um esforço em dobro da equipe; dos instrutores em conseguir manter um treino misto, mas organizado entre quem vai competir, quem possui determinada graduação, quem está em uma categoria abaixo ou acima e estar atento a cada atleta individualmente quanto a sua evolução; e dos alunos, em manter a ordem e organização no tatame, estar atento a aprender aquilo que lhe é indispensável ao seu nível de graduação, especialmente às técnicas e ao que lhe é ou não permitido.

Outra grande limitação enfrentada por boa parte dos projetos que vivem essa mesma realidade é a dificuldade em organizar treinos específicos apenas para competidores. As limitações de horários e frequência de treinos durante a semana tornam quase impossível separar um horário específico para competidores, dessa forma, durante períodos de competição, ou os treinos acabam se tornando mais pesados, mesmo para quem não vai competir, ou ele reveza entre competidores e não competidores.

Obviamente, essa não é uma realidade geral. Existem muitos projetos por aí que possuem um espaço próprio, mesmo que alugado, onde é possível organizar mais treinos durante a semana e durante um dia. Mas sem dúvidas, a falta de recursos é a principal limitação de qualquer projeto que se sustenta apenas pelo voluntariado de seus professores, que sonham com a possibilidade de poder garantir um espaço confortável, amplo, com estrutura adequada, bons equipamentos, num espaço onde muitos dos atletas não possuem kimono, muitas vezes nem a faixa, onde por vezes o tatame é improvisado.

É um trabalho que se mantém totalmente pelo amor à arte suave e em transformar vidas através dela, pois se tem uma coisa que o jiu-jitsu nos ensina é a não desistir nunca e sempre manter uma base firme, não cair, e se cair, levantar. Mesmo com todas as limitações, os projetos têm conseguido fazer um grande trabalho não só na sua função social, mas também gerando excelentes atletas, competidores que têm gerado bons resultados, pois nenhuma limitação social é capaz de limitar o sonho de quem luta.

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