Machismo no jiu-jitsu: não vamos mais deixar passar nada


Vou começar esse texto falando sobre a primeira coisa que me vem na cabeça quando vejo uma situação machista acontecendo no jiu-jitsu (ou na vida): não podemos mais deixar passar NADA! Vão te chamar de chata, vão dizer que você está exagerando, que “não é bem assim”, mas a naturalização de comportamentos e atitudes machistas agride e mata mulheres todos os dias.

Dito isto, vamos lá. A última polêmica que vem dividindo opiniões no universo do jiu-jitsu foi sobre o post da faixa preta Juliane Wiggers a respeito do treino de competição na academia do professor Mario Reis . Não estou aqui para julgar ninguém, nem para tirar uma conclusão definitiva a respeito de uma situação interna de uma academia. Mas tenho certeza de uma coisa: esse episódio traz à tona um problema que sim, ainda existe nos tatames, e que deve ser falado, se preciso, todos os dias, até não existir mais.

Independente de equipe ou professor, em muitos tatames por aí ainda é aceitável um cara achar que mulher é treino de descanso, falar para ela ‘treinar como homem’, ter tratamento diferente entre alunos e alunas. Infelizmente, nem todo mundo enxerga o quanto isso atrasa a nossa evolução no jiu-jitsu. E quando eu digo nossa, não é só das mulheres, mas sim de qualquer pessoa que esteja dentro de um tatame. Afinal, se algo é bom somente para você, não é bom de verdade, né? E o jiu-jitsu nos ensina diariamente sobre coletividade, respeito, empatia e a abdicar do nosso ego.

Precisamos parar de tratar situações como essa apenas como um mal entendido ou uma infelicidade. Temos sim que questionar a maneira de falar das pessoas e fazer todos pensarem sobre isso. Não dá para aceitar que foi apenas infeliz uma pessoa dizer que homens se sentem menosprezados em treinar com mulheres, que no treino com mulheres os homens teriam que fazer um “soltinho”, que iria prejudicar o treino, e por aí vai. Ou seja, mulheres não são treino forte para ninguém.

A Mayara Munhos, da EspnW, postou em 2017 um vídeo sobre machismo no jiu-jitsu e, com a discussão dos últimos dias, compartilhou de novo. Surgiu então um comentário (abaixo) que mostra exatamente o que essa mentalidade traz de pior. Para quem acha que esses são minoria, não é bem assim. Por trás de muitos dos nossos “ídolos”, às vezes, existe um comportamento ou atitude machista que por muito tempo pode ter ficado escondido ou passado batido por trás dos títulos, das palavras bonitas e da influência no jiu-jitsu.

Sobre treino de competição

Não precisamos nem discutir que só competidores participam de treino de competição. Ouvi algumas pessoas falando que entendem o ponto de vista do Mario Reis por conta desse argumento. Mas ele é óbvio, até. Dependendo da academia, por exemplo, faixas brancas não participam do horário de competidores. E hoje é cada vez mais comum ver treinos separados por nível, como iniciantes, intermediários, avançados.

Em uma entrevista para o canal Jiu-Jitsu in Frames, a faixa preta Ana Carolina Vieira (Baby) falou bem: no treino de competição é porrada (não que os outros não sejam), o ritmo é diferente, vai sobrar pé na cara, é um treino bem mais intenso. Se os competidores treinarem assim nos outros horários, a academia perde aluno. Por isso, a importância de entender o objetivo de cada um e oferecer treinos que condizem com isso.

Mas a questão não foi essa, e sim, dizer sobre mulheres em geral. É claro que seria o melhor dos mundos um treino de competição que fosse mais específico possível. Um para homens, outro para mulheres, divisões por categorias de peso, e até idade. Só que não temos material humano para isso.

Passei um mês em Abu Dhabi com mais cinco meninas do Brasil e lá a gente treinava assim. O treino dos meninos ficava bem mais cheio. Mas o nosso tinha bastante menina e quando estava com uma quantidade boa, era separado em até três divisões de peso. Nossa, isso é um sonho! É óbvio que uma mulher prefere treinar com outra mulher para competição. Mas é muito difícil ter essa realidade na maioria das academias. E, com certeza, o que não queremos é ouvir do professor que não temos o perfil adequado para um treino de competição e acabar ficando de fora por isso.

Várias vezes já fui a única no treino de competição da minha equipe. E meu professor nunca nem pensou na possibilidade de me deixar de fora por causa disso. O meu sonho é ter um treino desse lotado de mulher na minha academia, e sei que isso está aos poucos podendo virar realidade, como em muitas equipes por aí. E assim vamos fazendo nosso trabalho.

No mínimo, precisamos usar situações como essa de exemplo para que o tema possa ser discutido. Pode parecer besteira, podem achar que estamos exagerando e apontando o dedo para o professor em questão. Mas o machismo no jiu-jitsu vai muito além dessa fala. É justamente por isso que precisamos deixar bem claro que nada mais pode passar, por menor que possa parecer o acontecimento. Algo que é pequeno e fica escondido, só vai crescendo por baixo dos panos e quando vem à tona é muito pior.

O esporte já tem barreiras suficientes e estamos dispostas a quebrar todas elas para seguir buscando nosso sonho. Vamos juntas!

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