Conquiste o seu espaço, lute como uma garota


Desde que o mundo é mundo, nascer mulher é praticamente uma desvantagem. Ao longo da história, é possível encontrar indícios das lutas das mulheres em prol de seus direitos, desde os mais básicos, como: educação, trabalho, voto, divórcio. Durante nossos 21 séculos de história, há apenas três (a partir dos séculos 18 e 19, com o advento do Iluminismo e da Revolução Francesa) se começou a falar em reivindicações de direitos femininos. Desde então (e sempre), ser mulher é uma luta constante, pois apesar dos avanços e do crescente discurso de igualdade de gêneros, ainda lutamos arduamente pela conquista de espaços predominados por homens.

Em todos os âmbitos da sociedade, somos obrigadas a comprovar nossa força, capacidade e conquistar nossa independência. Em uma entrevista de emprego nos perguntam se somos casadas, se temos filhos (Quantos? São pequenos? Quem vai cuidar deles?) e somos sempre levadas a confirmar sermos capazes de conciliar nossa vida profissional com a pessoal. Se casamos durante o curso universitário, nos dizem que não vamos conseguir concluir, se damos prioridade aos estudos, vamos morrer sozinhas. Se vamos à faculdade depois dos 40, nos perguntam “E o marido, ele deixa?”.

A verdade é que sempre somos uma extensão do que fazemos e não uma protagonista disso. É verdade que somos várias em uma, e ninguém além de nós seria capaz de fazer o que fazemos, mas ainda assim somos chamadas de frágeis. Muitos nos chamam de guerreiras e dizem reconhecer a nossa força, mas na hora H a falta de credibilidade nos coloca sempre à prova. Se denunciamos assédio, dizem: com certeza a história não foi em assim, é melhor ouvir o outro lado, afinal, mulheres interpretam mal. Se nos sentimos injustiçadas e em situação de desmerecimento, é puro vitimismo. Se sofremos abuso, foi por falta de cuidado nosso. Se lutamos por igualdade, queremos estar acima dos outros.

Para ser realista, homem nenhum, por mais consciente que seja, poderá ser capaz de entender o que é ser mulher em uma sociedade machista, que sempre nos encara como frágeis, incapazes, loucas, mandonas, instáveis. Estar aqui é estar constantemente lutando para provar que merecemos reconhecimento, que merecemos espaço, que podemos fazer isso ou aquilo e que somos fortes o suficiente.

No esporte não é diferente, sendo este um campo privilegiadamente masculino, inclusive no jiu-jitsu. O esporte já foi considerado um privilégio e não um direito, sendo assim proibida a sua prática por mulheres pela legislação brasileira:

“Art. 54: Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país” (DECRETO-LEI Nº 3.199, DE 14 DE ABRIL DE 1941)

Artigo este deliberado pelo Conselho Nacional de Desportos em 1965:

2. Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo-aquático, pólo, rugby, hanterofilismo e baseball.”

Muitas mulheres lutaram no passado pelo direito à prática de esportes e ainda hoje estamos constantemente lutando para mostrar o nosso valor. Lutamos pela igualdade no tatame, damos o dobro da nossa dedicação para chegarmos em algum lugar, lutamos por reconhecimento e igualdade nas competições. E eles dizem que nos apoiam, e que reconhecem nosso crescimento, que somos boas (mas entre nós), mas nos dizem que somos poucas, que não estamos no perfil, que o retorno com as lutas masculinas são mais rentáveis.

Então vamos ocupar o nosso lugar. Vamos conquistar o nosso espaço, lotar o tatame, lotar as competições, propagar o jiu-jitsu feminino, nos tornar cada vez mais fortes e fazer com que eles não tenham mais como tentar justificar a desigualdade. Vamos lutar, mas vamos lutar juntas, como garotas sim, como aquelas do passado que não desistiram, se uniram e insistiram em mostrar o seu potencial. Lutar é o que sabemos fazer de melhor e somos incansáveis. Não precisamos provar nada a ninguém, mas se essa é a única forma deles nos “ouvirem”, então vamos gritar. We can do it!

Qual sua reação

Curtir Curtir
1
Curtir
Amei Amei
2
Amei
Haha Haha
0
Haha
uau uau
0
uau
Triste Triste
0
Triste
Grr Grr
0
Grr

Comments 0

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Conquiste o seu espaço, lute como uma garota

log in

reset password

Voltar para
log in