Os benefícios do jiu-jitsu para o paciente oncológico


A prática regular do jiu-jitsu é comprovadamente benéfica para a melhoria da saúde e qualidade de vida de seus praticantes, assim como qualquer outra atividade física. Os treinos no tatame proporcionam benefícios adicionais, como melhora da autoestima, autoconfiança e socialização, por exemplo. Dessa forma, o jiu-jitsu possibilita melhora no controle dos sintomas e efeitos deletérios em pacientes sob efeito de terapias bastante agressivas, como é o caso de pacientes oncológicos.

Nos últimos anos, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) tem trabalhado com a população feminina a importância de “estar alerta” (estratégias de conscientização) aos possíveis sinais que podem sugerir o diagnóstico de câncer de mama, o segundo tipo que mais acomete brasileiras (aproximadamente 25% de todos os cânceres que afetam a população feminina).

Não há uma causa única para o câncer de mama. Diversos agentes estão relacionados ao seu desenvolvimento, tais como: histórico familiar, envelhecimento, fatores relacionados a vida reprodutiva, excesso de peso, entre outros. Ainda segundo o INCA, atividade física regular e alimentação saudável estão associadas a uma redução de aproximadamente 30% do risco de desenvolvimento da doença. Já no pós-diagnóstico, o exercício é capaz de melhorar o convívio com efeitos adversos da terapia, auxilia no controle do peso corporal, evita a perda excessiva de massa muscular e acúmulo de tecido adiposo, entre outros benefícios.

Dessa forma, a prática regular de atividade física se afirma como parte importante da terapia não-medicamentosa para esses pacientes. Para evidenciar ainda mais a importância do papel do exercício e, de forma especial, do jiu-jitsu, segue abaixo o relato de uma guerreira chamada Michele Salek que encontrou na prática da modalidade um desafio capaz de fazê-la enxergar muito além:

“Eu fui diagnosticada com câncer de mama no dia seguinte ao meu aniversário de 27 anos, fiz 16 sessões de quimioterapia, fiz a cirurgia de adenomastectomia bilateral com reconstrução, 28 sessões de radioterapia e faço hormonioterapia desde dezembro de 2017. Embora eu não tenha mais câncer, preciso fazer tratamento supressão hormonal por alguns anos.

Eu comecei a praticar jiu-jitsu há cerca de um ano, por incentivo de uma amiga minha que mora na Irlanda e é professora e competidora. Eu precisava praticar alguma atividade física que me trouxesse motivação e a paixão dela pelo jiu-jitsu me despertou a curiosidade pela arte marcial.

No começo fiquei com receio, pois eu fiz a retirada das duas mamas, reconstruí com prótese de silicone, e também retirei linfonodos da axila. Naquele momento eu duvidei da minha capacidade de praticar o jiu-jitsu por conta disto, mas procurando nas redes sociais achei a Bárbara Monteiro, de Brasilia, que me deu o maior incentivo. Naquele momento ela era a minha referência, pois ela também é mastectomizada e isso não a impedia de praticar jiu-jitsu. Então me joguei.

Pra mim foi um super desafio começar o jiu-jitsu, por muitas e muitas vezes eu me sentia incapaz de praticar os movimentos, mas a superação diária das dificuldades era o que mais me motivava a ir para o tatame.

Mas o jiu-jitsu foi fundamental para mim no momento em que eu comecei, pois eu havia acabado de iniciar uma medicação nova para o tratamento hormonal que eu faço e eu convivia com efeitos colaterais muito fortes. Eu sentia dores fortíssimas no corpo, tanto articular, como muscular. Todos os dias eu enfrentava desafios para levantar da cama, sentia muitas dores para realizar movimento simples como sair da cama pela manhã, sentar e levantar, abrir e fechar os dedos da mão.

Porém, mesmo sentindo dores eu ia treinar, me arrastando muitas vezes, confesso, mas ia, eu sabia que a prática do exercício ia fazer com que eu sentisse um pouco menos de dor por algumas horas do meu dia. Além disso o fato de superar as dores e ir pro tatame fazia como que eu me sentisse um pouco “normal” diante do contexto que eu vivia. Conviver com dores é um desafio muito grande.

Meses depois eu troquei a medicação que me causava fortes dores e minha qualidade de vida melhorou bastante, mas ainda assim eu convivia com alguns efeitos colaterais da hormonioterapia, sendo um deles os famosos “fogachos” da menopausa. A prática de uma atividade física intensa como o jiu-jitsu me ajudava a contornar esse feito colateral, melhorando ainda mais a minha boa resposta ao tratamento.

Eu posso dizer com toda convicção que o jiu-jitsu foi um grande aliado para o meu tratamento, pois mesmo no período de dores e no período de fogachos intensos, a prática era uma aliada para diminuição de todos esses efeitos, melhorando a minha qualidade de vida e também do sono, que é outro fator afetado pelo tratamento hormonal.

Além do mais, o jiu-jitsu teve um grande papel na minha parte emocional, eu costumo dizer que a prática vai muito além do aprendizado de técnicas. Meus professores Makoto e Paulo sempre me mostraram o jiu-jitsu como uma forma de encarar a vida e os desafios que nela surgem. Também sempre me mostraram que muitas vezes a forma como nos comportamos no tatame é a forma como agimos na vida diante das dificuldades, e eu sempre procuro pensar nisso quando to passando por alguma situação. Eu sempre fui uma pessoa muito ansiosa e isso refletia nas minhas práticas de jiu-jitsu, creio que ao longo do tempo pude melhorar isso dentro e fora do tatame, o que prova mais uma vez que o jiu-jitsu vai muito além do que o que a gente faz na academia.

Sou muito grata por ter conhecido o jiu-jitsu, ainda sou iniciante, estou me recuperando de uma lesão ligamentar do joelho, espero voltar logo e evoluir, não importando quanto tempo demore. E se eu puder deixar uma palavra de incentivo a quem passa pelo câncer de mama e quer encarar esse desafio é: vá sem medo! Converse com seus médicos a respeito da prática e se tiver vontade, encare, pois os benefícios são inúmeros!”

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