Organização do trabalho de ensino no jiu-jitsu: todos saem ganhando.


O Jiu-jitsu Brasileiro fincou os pés na história do nosso país como um sistema de defesa pessoal e logo se desenvolveu esportivamente com grande ênfase na luta de solo. Diferente do Judô, em sua origem, nunca houve uma preocupação entre seus idealizadores em sistematizar um método ou programa de ensino dentro de uma perspectiva pedagógica e que envolvesse algumas categorias imprescindíveis para este processo: Projeto Político Pedagógico, Seleção dos conteúdos, Objetivo/Avaliação, Conteúdo/Método, entre outros.

Hoje, há uma crescente mobilização entre professores que se propõem a desenvolver um trabalho mais profissional, utilizando-se de conhecimentos científicos, para melhorar sua relação com seu ofício e com seus alunos. Qual o conteúdo/método ideal para trabalhar o jiu-jitsu com crianças e adolescentes? Quais as possibilidades pedagógicas ou de aplicação a Arte Suave pode oferecer para quem procura apenas lazer ou manutenção da saúde? Como trabalhar com competidores? São algumas das perguntas que a organização do trabalho de ensino pode responder.

Trata-se de utilizar do conhecimento científico/pedagógico coerente para planejar, organizar, periodizar, aplicar e avaliar, as diversas dimensões de ensino (Conceitual, procedimental, técnico, atitudinal, ético, social) e conteúdos (Filosófico, técnico, histórico…) que podemos transmitir para nossos alunos durante nossas aulas. Ampliar as possibilidades de ensino e aprendizagem sobre nossa arte marcial.

Há 6 anos percebi a relevância dessa organização através do meu trabalho, pela necessidade de diferenciar as abordagens sobre o jiu-jitsu nos diversos ambientes em que ele é ofertado. Ao ser convidado para ministrar aulas para crianças numa escola pública da cidade, notei que não poderia reproduzir para aqueles pequenos o mesmo treinamento que era realizado pelas turmas adultas, que até então era a única forma de ensinar que eu tinha como exemplo. Eram crianças que apresentavam alguns problemas de relação por conta da violência que sofriam em casa, dificuldades motoras visíveis à mais simples observação e que não dispunham de materiais suficientes na escola, como por exemplo, tatames.

Esse desafio me fez buscar num curso de Licenciatura em Educação Física os conhecimentos que me dessem respostas para os problemas sinalizados anteriormente e para outros que surgiriam no decorrer do desenvolvimento do meu trabalho. Problemas como identificar a fase do desenvolvimento psíquico/motor que meus alunos se encontravam, o que era prioridade de ensino para aquele momento da periodização do desenvolvimento psíquico deles, iniciação esportiva x especialização precoce? É prioridade a competição na iniciação esportiva? e o que considero mais importante: Compreender porque a realidade para algumas pessoas é tão mais difícil do que para outras.

Não quero dizer que esse tipo de informação é único e exclusivo dos ambientes acadêmicos. Já existem equipes que disponibilizam este conteúdo pela internet em cursos ou módulos online. O que facilita o acesso ao conhecimento a qualquer momento para quem não dispõe recursos para uma formação acadêmica. O que é relevante é pensarmos sempre em desenvolver um trabalho mais adequado às necessidades dos nossos alunos dentro das multiplicidades de interesses/disponibilidade que eles apresentam, como também, estarmos sempre atualizados nos conhecimentos necessários para desenvolver um trabalho qualificado, baseado em informações científicas que possam ser aplicadas, e que claro, sendo observado a efetividade desse conhecimento na aplicação, e se surgirem problemas, que voltemos novamente para a teoria e depois para a prática, numa repetição constante.

Como por exemplo: Me aproximar de uma teoria pedagógica me ajudou a compreender qual a função social do ambiente em que trabalho como também a relevância da função que exerço. Quais os métodos de aplicação e seleção dos conteúdos, que tipo de aluno pretendo formar. Me forneceu instrumentos para que a partir dali eu pudesse estruturar meu Projeto Político Pedagógico, que é onde insiro as minhas intenções, ações e estratégias de ensino, o tempo que vou precisar utilizar para aplicar o conteúdo, qual relação terei com meus alunos, quais materiais utilizo e como isso será aplicado durante o ano.

Disponibilizo este documento para que os meus alunos ou responsáveis compreendam as fases de treinamento/ensino que eles participarão nos 3 quadrimestres do programa. Que é o período que selecionei para realização de avaliações técnicas, físicas ou teóricas. Esta última é realizada após a entrega de um material de consulta que foi confeccionado contendo a história do Jiu-jitsu Brasileiro, com os personagens importantes, mudanças que a arte passou nos diversos períodos, regras esportivas, procedimentos dentro e fora do Dojo, etc.

(Modelo de periodização quadrimestral utilizado no meu Projeto Político Pedagógico, baseado na referência: Metodologia Cientifica do Treinamento Esportivo, de Manoel Tubino, 1985)

Todas as aulas devem possuir um objetivo e uma avaliação. Não faria sentido algum aplicar um tipo de conhecimento, seja ele qual for, sem que se possa haver uma constatação da aprendizagem dos alunos. No caso do Jiu-jitsu, a observação da forma que ele utiliza a técnica ou tática objetivada pelo professor pode ser um modo de avaliação. Mas também existem avaliações mais objetivas que podem ser realizadas na forma de exames técnicos, onde o aluno demonstra a aplicação do que lhe é solicitado. O importante é que a avaliação incorpore sempre os objetivos da aula.

Diante do estudo dos elementos citados anteriormente, de sua aplicação prática e sua reformulação para novamente ser aplicado, cheguei à conclusão de que ainda há muito o que se estudar, aplicar, reformular, aplicar novamente. Sempre aparecerão novos desafios nas atividades que envolvam os seres humanos: As crianças estão sofrendo cada vez mais de carência afetiva, estão sofrendo violência sexual em casa, problemas com Bullying na escola. As mulheres sofrem diversos tipos de violência, os homens sofrem com a masculinidade tóxica… São alguns dos problemas que compõem um quadro que altera totalmente a capacidade de aprendizagem e concentração.

Por isso indico a todos que se propõem à função de monitor, instrutor e professor, iniciar o processo de estudo do ser humano de uma maneira mais ampla. Os conhecimentos técnicos são fundamentais mas estamos exercendo uma função social muito importante, e precisamos conhecer profundamente quem chega em nossas “mãos” nas nossas aulas. Se houver interesse sobre o assunto ou mais informações sobre a organização do trabalho de ensino, podem entrar em contato no direct, via Instagram da bjjgirlsmag ou no perfil @dtorresjbjj.

Dessa forma nossa Arte Marcial evolui e ganha relevância educacional que ela merece. O trabalho do professor é potencializado, sendo reconhecido profissionalmente/pessoalmente, os sujeitos envolvidos se tornam conhecedores aprofundados de todas as expressões possíveis que se pode trabalhar com o Jiu-jitsu (Arte Marcial, Esporte, Filosofia, Defesa Pessoal, Manutenção da saúde, lazer), e construiremos uma história diferente para as próximas gerações que virão.

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