Vozes no Tatame: o que as entidades responsáveis pelo Jiu-jitsu estão fazendo a respeito?


Uma série de reportagens realizadas pela UOL (Vozes no Tatame) vem apresentando uma situação ainda oculta das artes marciais: a violência contra as mulheres. São relatos de abusos cometidos por professores, alunos, e que já tiveram também a participação de mulheres descendentes do “clã” que desenvolveu e propagou o Jiu-jitsu Brasileiro como narradoras: a família Gracie.

Aqui no Bjj Girls Mag, isso já faz parte das publicações desde 2016. Já reproduzimos em forma de matérias e crônicas esportivas, uma série de relatos de pessoas que não tinham coragem de assumir em público que sofriam ou já tinham sofrido algum tipo de violência nas academias ou em eventos. Por isso, quero iniciar parabenizando a coragem das mulheres que decidiram dar “caras” e nomes aos casos, desmistificando aquilo que observamos facilmente nas redes ou em qualquer conversa: “isso deve ser invenção” ou “no jiu-jitsu não existe isso.”

Existe, e nos faz pensar no quão pesado é o patriarcado e o machismo. As próprias descendentes dos Gracies são vítimas da perpetuação dessa lógica absurda. Como disse a Karina Gracie no seu relato: “A maioria dos homens da minha família sempre foi muito machista. Se uma mulher Gracie decide levar o esporte a sério, ela precisa de muita força de vontade para superar as barreiras impostas pelos parentes. Na visão de meu avô, seu irmão e os filhos deles, as mulheres são seres reprodutores que devem ficar em casa cuidando da família.”

Não adianta tentar achar uma justificativa no fato, tentando minimizar a responsabilidade dos “patriarcas” nos casos, com aquela de “são homens de uma época complicada”. Isso, de alguma forma, permite que se construa uma outra lógica de permissividade e presunção de inocência em tudo que os homens fazem. Se o homem é jovem demais e comete violência “ainda não amadureceu”, se já passou do período “balzaquiano”, é que é coisa da idade. Obviamente, se são homens de uma “certa” classe/raça, diga-se de passagem.

Digo isso também porque temos uma cultura de romantizar figuras importantes da nossa história, os colocando acima do bem e do mal. A história é também um local de disputa de narrativas e “passar pano” em violência não dá. Trata-se de reconhecer a responsabilidade social dessas pessoas quando se propõem a oferecer algo que “vai mudar vidas”, como falamos diversas vezes sobre o nosso Jiu-Jitsu Brasileiro. Foi um erro cometido pelos criadores da arte suave e por alguns membros. Deve ser corrigido. Isso está acontecendo?

A pergunta surge da observação em alguns veículos jornalísticos, esportivos ou não, da repercussão dos relatos e do silêncio das entidades promotoras de eventos no nosso esporte. Não foi observado o repúdio de nenhuma Federação aos casos, que acontecem nos tatames ou até nas competições.

O papel das instituições

Alguns setores da sociedade de posicionam ativamente sobre a violência contra as mulheres. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) não admite em seus quadros candidatos que tenham agredido mulheres. Transita na Câmara Legislativa do Distrito Federal um projeto de lei que quer proibir condenados pela Lei Maria da Penha, em casos de violência contra a mulher, que assumam cargos comissionados. No Acre, o Governador Gladson Cameli sancionou uma Lei que veda a contratação em âmbito Estadual para quem tenha sido condenado nas condições previstas pela Lei Maria da Penha.

Já no Esporte, em janeiro deste ano, clubes paulistas participaram de uma campanha da Prefeitura de SP que contratava mulheres vítimas de violência doméstica, oferecendo oportunidades de emprego, com o intuito de suprimir a dependência financeira das vítimas. Alguns clubes também se posicionaram sobre a violência contra as mulheres nos estádios. Mas, o que podemos pegar como maior exemplo de combate à violência é a medida tomada pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva.

No dia 19 de agosto, o STJD emitiu aos clubes um ofício recomendando que a partir da data de expedição do documento, sejam relatados em súmula por árbitros, auxiliares e delegados das partidas, qualquer caso de manifestação preconceituosa e de injúria em decorrência de opção sexual de torcedores ou participantes das competições. Baseando-se na decisão do Superior Tribunal Federal no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADO) 26, e do Mandado de Injunção MI 4733, considerando os atos atentatórios a direitos fundamentais dos LGBTS, enquadrando homofobia e a transfobia nos crimes de racismo (LEI 7.716/1989). O que levou à primeira interrupção de uma partida de futebol na história por cânticos homofóbicos proferidos durante o jogo Vasco X São Paulo, no dia 25 de agosto.

E no jiu-jitsu?

Com os exemplos anteriores podemos pensar em ações que podem ser desenvolvidas pelas organizações de eventos ou federações de jiu-jitsu. Além de campanhas publicitárias, promoção de eventos voltados à discussão do tema, como treinos coletivos, seminários educativos sobre violência contra as mulheres, punições previstas em regulamento de competição para quem praticar violência física, simbólica, assédio ou de qualquer outro tipo, banir ou proibir atletas envolvidos nas condições previstas na Lei Maria da Penha, punições para equipes que forem denunciadas e criação de comissões de enfrentamento à violência contra as mulheres.

A SJJSAF lançou recentemente uma ouvidoria “que objetiva prestar uma escuta e acolhida qualificada às mulheres em situação de violência acometida por atletas, praticantes e professores.” O serviço também oferece dados sobre direito da mulher, como informações sobre centros e delegacias de apoio à mulher, encaminha e acompanha as denúncias feitas aos órgãos responsáveis. A ouvidoria funciona 24h por dia pelo whatsapp ou ligação e o número é: (21) 97102-5414. (Se souberem de mais alguma ação nesse tipo por parte das federações, comente aqui!)

Claro que o silêncio de alguns órgãos não é em vão. A arte marcial ainda é um objeto da cultura corporal com uma visão reacionária, quase que hegemonicamente. Muitos dos sujeitos envolvidos em seu desenvolvimento não querem promover ou não possuem interesse de alterar o quadro. É mais viável a arrecadação de inscrições ou alinhar com sujeitos que ocupam cargos importantes no Executivo, condenados por incitação ao estupro. Sujeitos que, como esse exemplo, acham normal dizer que uma mulher merece ou não ser estuprada.

Mas podemos provocar a mudança cobrando as Federações. Criando instrumentos educativos para superação da violência, de uma forma geral. Por exemplo, nas regras de etiqueta dentro e fora da academia, o primeiro item a ser lido e praticado pelo aluno iniciante ou o mais graduado em minhas turmas é: Não serão tolerados comentários machistas, misóginos, racistas, homofóbicos, ou que, de alguma forma, desrespeitem o princípio da dignidade da pessoa humana. Item que é questão de prova teórica para troca de faixa.

Fiscalizar as relações dos alunos com as companheiras de treino e abrir espaço para problematização de situações ocorridas durante as aulas também é uma estratégia válida. Ouvir as alunas. Fazer de conta que não está acontecendo um problema não o elimina. Muito pelo contrário, coloca os “neutros” na posição de agressores. Temos que tocar na ferida. Crescer dói mesmo.

Vamos aguardar então o posicionamento das instituições. Tomara que eles nos provem o contrário. Pelo bem do nosso esporte e da humanidade.

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