A segunda característica de um bom professor de jiu-jitsu #GuestPost

Hoje temos mais um Guest Post do Glauciano Júnior, continuação da série de características para ser um bom professor de jiu-jitsu. Ele é bacharelando em educação física pela UFPE, proprietário da Kakaroto Fight, personal fight e administrador da página Jiu Jitsu da depressão – Kakaroto Fight. Confira aqui o primeiro texto dele para o Bjj Girls.
2. Continuar estudando

Você já parou para estudar o jiu-jitsu? As técnicas, táticas, variações, história, legado, e conteúdos afins? Eu acredito que sim. Mas você já parou para estudar as metodologias de ensino para o jiu-jitsu? Não? Não se preocupe, pois você não está sozinho (a).

Quando eu tinha 15 anos de idade eu tive meu primeiro contato com a arte suave. Meu primo mais velho, que na época vestia a faixa azul, havia montado um tatame improvisado em um dos quartos da sua casa e me convidou para “experimentar um pouquinho” daquela novidade. Sem muita cerimônia, com dois ou três passos ele me ensinou minha primeira técnica: um arm-lock. Naquele momento, senti que poderia dominar o mundo. Certo tempo depois meu primo montou um dojô com seu primeiro professor embaixo da minha casa, e começou a dar aulas de jiu-jitsu e outras lutas. Fui um dos primeiros alunos daquele dojô e um dos últimos a abandonar o navio quando o barco começou a se afundar no mar de contas. De todas as histórias que vivi naquele espaço, eu guardo duas em minhas lembranças com terno carinho: meu primeiro dia de aula como aluno e meu primeiro dia de aula como professor.

Em meu primeiro dia de aula, eu estava com um sorriso no rosto de orelha a orelha e com uma energia contagiante dentro do peito. Eu havia acabado de aprender a realizar uma cambalhota simples para frente e já estava ensinando outro aluno, que também estrelava seu primeiro dia de treinos, a como fazê-la mais facilmente. A satisfação que tive quando o vi conseguindo fazer aquela cambalhota sem grandes dificuldades foi surreal. Naquele momento, soube que era isso que queria fazer da minha vida: ensinar. A maioria das pessoas sai do primeiro treino de jiu-jitsu desejando ser lutadores, mas eu saí de lá querendo ser professor.

Com o avançar do tempo, fui graduado para a faixa azul e comecei a auxiliar meu primo, agora na faixa marrom, nas aulas que ele ministrava. Pouco a pouco fui ganhando confiança e liberdade até que inevitavelmente eu assumi minha primeira aula solo. Naquele dia, reafirmei que era aquilo que eu queria para minha vida. Hoje dou graças a Deus por não ter entortado ninguém naquele momento. Não que a aula não tivesse sido um sucesso, todos os presentes nela gostaram, mas meu primo conseguiu ver algo além e me disse: 
– Júnior, tua aula foi boa, mas tu tens que criar a tua didática. Estás querendo passar tudo de uma só vez e não é por aí que a banda toca.
De fato, minha aula naquele primeiro momento não passava de uma confusão de conteúdos desordenados que me faziam rogar aos deuses do jiu-jitsu para serem absorvidos de alguma forma por qualquer um dos ali presentes. Devo admitir que aquelas palavras não me desceram bem e naquela noite fui dormir emburrado, não com meu primo, mas com meu aparente fracasso. Hoje, enxergo de outra maneira: eu não havia fracassado, eu tinha sido um sucesso. Não que a aula tivesse sido perfeita, mas, baseado na maneira como aprendi e no fato de que eu nunca havia me preocupado em como ensinar, eu fiz o melhor possível. Eu reproduzi fielmente tudo que havia aprendido até então com meu primo e com o nosso professor.
O tempo foi passando e, por mais que eu ainda não soubesse o que essa tal “didática” significasse, continuei dando as aulas até que um dia finalmente criei coragem e prestei vestibular para Educação Física. Iniciei os estudos na Escola Superior de Educação Física – ESEF/UPE –, e, dois meses depois das provas, foi lá que finalmente encontrei as respostas que eu estava precisando. No terceiro semestre de curso, peguei uma disciplina chamada “Fundamentos do treinamento esportivo” que abriu minha mente e me mostrou a ciência que estava envolvida (ou ao menos deveria estar) na minha prática pedagógica.

Tudor O. Bompa e Manoel José Gomes Tubino são importantes teóricos da área do treinamento esportivo que em seus livros discorreram a respeito da importância do planejamento prévio para os bons resultados. Tais livros trouxeram uma série de princípios – os princípios do treinamento esportivo – que visam a qualificar o treinamento para que este extrapolasse a esfera do empirismo e, com base na ciência, se tornasse o mais eficaz possível. Não quero me atentar em descrever detalhadamente cada um destes princípios agora, mas quero citar en passant o que me gerou mais questionamentos naquele momento: o princípio da individualidade do Tudor O. Bompa e o princípio da individualidade biológica do Manoel Tubino.

Segundo Bompa (2002), o princípio da individualidade pode ser compreendido como uma das principais exigências do treinamento contemporâneo. Refere-se à ideia de que o treinador precisa tratar cada atleta de forma individualizada, levando em conta suas habilidades, seu potencial, suas características de aprendizagem e, também, a especificidade do esporte, independente do nível de desempenho do atleta.

Segundo Tubino (1984, apud UNESCO, 2013), a individualidade biológica é o fenômeno que explica a variabilidade entre elementos de uma mesma espécie, o que faz com que não existam pessoas idênticas. Desta forma, cada ser humano possui estruturas físicas e formações psíquicas próprias. Individualizar os estímulos de treinamento, respeitando as características e necessidades individuais dos praticantes de qualquer esporte, é fundamental para o alcance de melhores resultados. 
Em resumo, o que os dois autores quiseram afirmar foi: cada um no seu quadrado. Cada caso é um caso e deve ser avaliado como tal. Pessoas que têm estruturas corporais distintas devem receber treinamentos também distintos ou correrão o risco de serem prejudicadas.

Sempre fui o mais baixo em todas as atividades que realizei até hoje e no jiu-jitsu não seria diferente. Enquanto a média de idade entre os pertencentes daquele dojô era 25 anos e a média de estatura era 1,75m, eu figurava meus 1,45m aos 15 anos de idade. Eram homens adultos em pleno vigor físico e eu era um moleque que atravessava a puberdade. Você deve estar pensando “Ah, que ótimo! Você deve ter ficado casca grossa, hein?!”. Se “ficar casca grossa” significa ficar cheio de hematomas, machucados e dores pelo corpo, sim, eu fiquei bastante “casca grossa”. De maneira geral, ou o treino era pesado demais para mim ou era leve demais para todos os outros. No momento em que descobri o princípio da individualidade biológica, me dei conta de que, reproduzindo as aulas que eu havia tido, eu estava reproduzindo os erros que cometeram outrora comigo. Decidi que não iria mais cometer as mesmas falhas do passado e a partir dali me tornaria o professor que eu gostaria de ter.

Comecei a frequentar diversos dojôs de jiu-jitsu e a observar as aulas de vários professores diferentes. Tentava identificar aspectos que apontassem para o sucesso ou insucesso das aulas baseado naquilo que via. Uma vez terminada esta primeira fase de pesquisas, comecei a frequentar dojôs de outras lutas para ver se encontrava neles aquilo que eu buscava para mim: metodologias eficientes de treino. Entenda metodologia como o conjunto de técnicas e métodos de que o professor se utilizará para o bom desenvolvimento de sua aula. Quando um padrão de métodos começou a se estabelecer nas aulas vi que era hora de migrar para o campo da formação científica.

Agora eu não só visitava dojôs diferentes como também me inscrevia em todo e qualquer curso na área de educação que me aparecesse na frente. Eu não procurei um “seminário de técnicas infalíveis das Organizações Tabajara” sequer. Todo meu dinheiro foi investido em cursos que não me ensinaram fundamentos técnicos de luta, mas me ensinaram a ensinar. O tempo foi passando e cada vez mais eu imergia no mar do conhecimento científico ofertado pela Universidade, mas sem deixar o empirismo das minhas vivências anteriores de lado.
Comecei a perceber que as aulas por si só ofereciam experiências singulares de aprendizado e que através das dificuldades dos meus alunos eu poderia sanar minhas próprias limitações e evoluir para um nível acima. Se eu tivesse um aluno sem uma das pernas, por exemplo, a disciplina de “Educação Física e Esportes adaptados” poderia me ajudar nisso. Um aluno com problemas de relacionamento com outras pessoas? Estudei sobre isso na disciplina “Abordagens pedagógicas em Educação Física”. Aluno querendo competir em nível internacional? A disciplina “Fundamentos do Treinamento Esportivo” me habilitou a treiná-lo para isso. O curso de Educação Física por si só proporcionou um salto gigantesco na minha habilidade em dar aulas, mas certamente eu não teria evoluído tanto se não tivesse feito duas coisas simples: Praticado e errado.

Errei muito, errei feio, errei rude. Errei várias vezes e paguei as consequências dos meus erros, mas através deles tirei valorosas lições que me ajudaram a ser o professor que sou. Em meu último semestre de curso na ESEF, 2014.1, estava como louco escrevendo meu TCC – quando me deparei com o livro autobiográfico escrito pelo Grande Mestre Hélio Gracie. No livro Gracie Jiu-Jitsu, Hélio Gracie relata como foi promovido de aluno a professor por um outro aluno. Tal promoção poderia ter acarretado em uma acomodação por parte do Hélio Gracie, mas ele não somente se dedicou ainda mais aos treinos como passou a pensar em como poderia tornar mais fáceis aquelas técnicas aprendidas com seu irmão mais velho, Carlos Gracie.

Hélio Gracie, sem formação científica, há anos atrás sabia da fundamental importância dos bons professores para a perpetuação do seu estilo de luta. Ele compreendia isto tão bem que a graduação em sua época não era feita com base nas habilidades de luta, mas sim nas habilidades de ensino. Se o grande patriarca do jiu-jitsu moderno, mesmo após atingir a graduação máxima existente, continuou a se qualificar, a pensar e a sistematizar estratégias de ensino mais eficazes, o que te impede de fazer o mesmo ainda que seja faixa preta?
Não quero dizer com isso, é claro, que você precise de uma graduação em Educação Física, Pedagogia ou curso similar para ser um bom professor. Acredito que uma boa forma de fazer isso seja se preparar melhor e procurar sair da zona de conforto se quiser ser um diferencial no mar dos professores de jiu-jitsu. Se você quiser ser de fato um bom professor de jiu-jitsu uma boa estratégia é buscar constantemente metodologias novas, problematizando e repensando as antigas, desenvolvendo, experimentando, praticando, errando e voltando atrás.
Essa é uma certeza de sucesso e, seguindo estes conselhos, você se tornará um professor melhor do que você mesmo consegue imaginar. Aprendi com um professor, por quem cultivo grande carinho, que o jiu-jitsu não passa de uma coisa abstrata. Ele não existe por si só, e tão pouco se desenvolverá sozinho. Ele precisa que as pessoas o pratiquem, o desenvolvam e o ensinem para que ele possa sobreviver. Pense comigo: se hoje morrerem todos os professores de jiu-jitsu, quem o ensinará amanhã?

Hoje em dia sou professor de Educação Física, e curso o bacharelado em Educação Física pela UFPE, já ministrei vários cursos e palestras sobre metodologias de ensino das lutas e continuo me inscrevendo em todos os cursos de lutas que vejo pela frente, não importa se o ministrante é mais graduado ou menos graduado do que eu. Não quero que você, caro leitor, termine a leitura deste texto pensando que seminários técnicos são coisas dispensáveis e que só devemos estudar metodologias de ensino, muito pelo contrário: quero que você compreenda a importância do constante estudo dos mais variados temas relacionados ao jiu-jitsu para que possamos crescer cada vez mais.
Das técnicas às táticas, da história à metodologia, da preparação física à filosofia, todas têm seu papel e sua importância. Pense em como você pode ser melhor, pense em como você pode tornar o aprendizado mais fácil para seu aluno, pense fora da sua zona de conforto.

Oss!

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Referências bibliográficas:


BOMPA, Tudor O. Periodização: teoria e metodologia do treinamento – Tudor O. Bompa; [tradução de Sergio Roberto Ferreira Batista]. – São Paulo: Phorte Editora, 2002.
UNESCO, Brasil. Treinamento esportivo. – Brasília: Fundação Vale, UNESCO, 2013. 58 p. – (Cadernos de referência de esporte; 4).

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