Hoje temos mais um Guest Post do Glauciano Júnior, bacharelando em educação física pela UFPE, proprietário da Kakaroto Fight, personal fight e administrador da página Jiu Jitsu da depressão – Kakaroto Fight. Confira aqui o primeiro texto dele para o Bjj Girls.
Em meu trabalho de conclusão de curso eu trazia em certo momento da justificativa o seguinte questionamento:
As lutas me cativaram e creio que, de alguma forma, eu as cativei também. Sendo assim, serei eternamente responsável por elas e elas por mim tal como disse, certa vez, um pequeno príncipe vindo de um planeta distante. Sendo eu responsável pelas lutas, não seria de bom grato retribuir-lhes de alguma forma o bem que elas me proporcionaram por todo esse tempo?
Antes de continuar a leitura do texto a seguir gostaria de dizer a você que reconheço não ser o melhor escritor do mundo, muito menos o maior teórico ou referência em lutas. Pesquiso, discuto e desenvolvo metodologias de ensino para lutas desde que entrei na minha primeira graduação aos 17 anos. No dia em que fiz 23 anos, pensei e decidi escrever algo que há tempos eu planejava, mas até então não tinha tido ousadia suficiente para pôr no papel.
Ano passado escrevi meu primeiro livro: Um projeto chamado 100 primeiras vezes, e hoje darei início à escrita de algo que pretendo tornar, num futuro próximo, um guia para professores de educação física e/ou de lutas que queiram repensar e qualificar suas metodologias de ensino das mais variadas lutas. Inspirado no texto “10 ways to improve your bjj teaching”, venho trazer a vocês aquilo que eu considero, de acordo com minhas vivências pessoais, acadêmicas e profissionais serem essenciais para um professor de jiu-jitsu ou qualquer outra luta durante o trato pedagógico.
Sendo assim, aqui vai a primeira característica daquelas que chamarei de “10 características de um bom professor de jiu-jitsu”. Vale ressaltar que desencorajo qualquer um a acreditar num possível caráter absolutista dos pontos que abordarei a seguir. Espero que eles sirvam apenas como pontapé inicial para reflexões posteriores que confirmem ou desmintam as ideias apresentadas ou como combustível para criação de novos conceitos. Começarei por aquela que acredito ser a mais polêmica de todas: Não seja negligente.
Mentalize rápido seu dojô e me diga o que você vê. Atletas? Campeões? Tente visualizar seu dojô feito de pessoas. Pessoas diferentes com objetivos diferentes e com diferentes motivos para terem ido até a sua academia. Dando uma olhada rápida em qualquer dojô, eu consigo identificar pessoas que querem lutar profissionalmente, pra perder peso ou pra manter a qualidade de vida e para aprender a se defender, mas também vejo gente que treina porque simplesmente gosta de treinar. Vejo pessoas de diferentes perfis, no entanto é extremamente raro encontrar uma turma em que todos tenham os mesmos objetivos dentro do tatame. Por que estou dizendo isso? Porque você tem muitas chances de ser um professor negligente.
Qual é a maneira mais eficiente de divulgar sua equipe? Aposto que “vencendo campeonatos” foi a primeira coisa que veio à sua mente. Vejamos, existe uma gama infinita de estratégias mais eficientes para captar novos alunos do que somente vencendo competições. Existem casos onde pessoas mudam de academia porque a mesma faz vários campeões mundiais, mas são bem pontuais, e isso não deve ser usado como critério prioritário para direcionar os treinos da sua equipe – ou você acha mesmo que todas as pessoas no mundo que podem vir a treinar um dia estarão atentas às competições? Existe muito mais pessoas que podem ser alcançadas com uma propaganda no jornal local do que vendo na Graciemag que sua equipe é campeã mundial.
Não estou dizendo pra você esquecer literalmente as competições. Eu sei muito bem que boa parte da evolução e propagação do jiu-jitsu pelo mundo se deve às competições, mas até quando iremos priorizá-las em detrimento dos alunos que não querem competir? Me canso de ver professores que dão atenção quase que exclusiva aos campeonatos e esquecem que existem outros alunos em sua academia que não querem competir. Já vivi isso inúmeras vezes. Basta uma competição surgir no calendário de eventos que todo o ciclo se inicia com frases como “foco total no campeonato, galera!”, “quero ver vocês treinando firme para o campeonato!” ou “o pessoal que não vai competir tem que vir treinar para ajudar os que irão lutar!”.
Quem determina a prioridade do seu dojô? Se a resposta for “você”, sinto lhe dizer que há algo errado aí. Por mais que você tenha condições financeiras de manter seu tatame sempre ativo, se lhe faltar o principal (pessoas) suas portas irão fechar. Pare de pensar que todo mundo que está ali quer ser um competidor. A competição é algo muito bom para aqueles que a apreciam, mas é um saco para os que não gostam. Quando você prioriza uma competição, você se torna o herói dos que sonham em ser competidores, mas e para os outros? E o Zezinho que tem obesidade mórbida e treina para emagrecer? E a Patrícia que treina porque é a única coisa em que encontrou prazer fora do trabalho? Melhor nem falar do Rodrigo que treina buscando aprender uma maneira de se defender dos agressores da escola. Estes certamente abandonarão o seu tatame quando perceberem que você prefere os alunos que trazem medalhas do que eles “simples peões”.
Quando você prioriza a competição, muitas e muitas vezes você acaba esquecendo dos demais alunos e torna seu treino direcionado apenas aos que “podem ser campeões”. Afinal, o que é ser campeão para você? É ter uma medalha no peito ou uma meta atingida? Não quero que você pare de entrar em competições ou de “treinar mais forte” perto de um campeonato, quero que repense suas aulas. Você já sentou com seus alunos e perguntou o que eles acham de participar de um campeonato sendo 100% imparcial? É difícil, não é? É difícil porque geralmente é você quem escolhe os campeonatos que sua equipe irá participar, é difícil porque é você quem determina quais estão aptos ou não à lutar, é difícil porque você aprendeu assim e acredita cegamente que deve ser assim até o fim dos tempos.
A hierarquia é uma das bases do jiu-jitsu, mas muita gente faz mal uso dela. Muitos professores e graduados enxergam a hierarquia como algo vertical em que o mais antigo manda e o mais novo obedece. Meu amigo, você deveria repensar esse pensamento. A hierarquia dentro do jiu-jitsu não deve ser vista como autoritária mas, sim, como uma empatia. A empatia do mais antigo em proteger e ajudar o mais novo, a empatia do mais novo em reconhecer as vivências prévias dos mais antigos, a empatia de reconhecer erros e voltar atrás. Permita que todos os seus alunos treinem, se desenvolvam, cresçam e determinem por si mesmos a real importância daquele campeonato.
E você, o que acha da “pressão” nas academias para que os alunos se inscrevam nas competições? Até onde a performance é importante no desenvolvimento do aluno?
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