Hoje eu mal consegui dormir e minha cama parecia me expulsar a cada tentativa de pregar os olhos. Com certeza não é uma noite normal, pois é véspera de competição e parece que meu corpo tem adrenalina para distribuir pra toda a população da Terra e ainda sobrar para os que vão nascer. Definitivamente não será um dia normal, e talvez seja daqueles que entrem para o meu legado de coisas que quero lembrar para o resto da vida ou das coisas que terei como exemplo do que não se deve repetir. Será o dia da minha primeira competição e há muita responsabilidade nisso tudo, afinal, é a minha “primeira viagem”.
Os pensamentos são confusos e eu tento organizá-los de uma forma inteligível. Imagino posições e possibilidades, vejo meu braço sendo levantado ao final da luta, vejo o braço do meu adversário sendo levantado ao final na luta. Meu coração dispara e minha respiração me atropela e a galera da academia fica gritando coisas que não consigo entender. Preciso parar de pensar.
Amanheceu e eu estou uma bateria carregada, a ansiedade me fez arrumar a mochila ontem e agora não tenho nada pra fazer e pra piorar parece que esqueci tudo o que treinei por meses! E eu achava que o tal “branco” só acontecia nas provas escolares. Ora, nada se compara com isso até que me provem o contrário. Mas, vamos lá, o dia já raiou e eu preciso levantar que o campeonato começa cedo e vou dar apoio aos meus companheiros que também lutam hoje.
Saio de casa armado até os dentes: kimono e faixa (itens mais importantes), protetor bucal, garrafa de água e meus documentos. Ando com as pernas trêmulas e isso me faz parecer um idiota perdido na rua. Confesso que estou meio desnorteado e um dia procuro a explicação científica pra tantos efeitos colaterais pré-competição. Meu estômago fervilha e eu não vejo a hora dessa adrenalina estabilizar, caso contrário, não vou lembrar nem como se faz uma simples pegada (e se eu fizer a pegada errada é bem capaz de levar um armlock voador pra deixar de ser besta).
E finalmente enxergo o ginásio, parece maior do que sempre foi e lá de dentro escuto vários sons, gritos e alvoroço. Muita gente pelas proximidades, cada um com o seu estilo, uns sentados pelas calçadas, outros rindo em grupos, uns já vestidos com os seus kimonos, outros com parte deles, alguns suando de nervoso (como eu) e outros suando pra perder peso. Ainda tem isso, eu estou no peso para a luta e se eu tivesse que perder alguma coisa além das minhas pernas que já não me pertencem mais estaria muito pior do que me sinto agora.
Chego ao acesso do ginásio e me apresento como competidor, isso me deu um orgulho que nunca havia experimentado, acho até que dei um sorriso meio sem noção pro cara da portaria. Quando visualizo a quadra e todas aquelas áreas de luta o meu coração volta a disparar e confesso que nessa hora bateu o desespero, mas que logo se dissipou ao enxergar os meus colegas de academia na arquibancada. Dirijo-me até eles e sou recebido calorosamente com abraços, gargalhadas, tapas na cabeça, um puxão na camisa, um sacolejo e gritos de “finaliza, finaliza!”. Quem dera fosse simples assim, mas gosto do pensamento positivo deles, isso ajuda a acalmar. Que coisa boa é essa irmandade!
Tento manter a calma enquanto visto minha armadura para aguardar a chamada. Vejo meus amigos ganhando as suas lutas e isso me deixa com a sensação de que seria a decepção da equipe se eu perdesse no meu combate. Os gritos ensurdecem, todos torcem por seus pares e eu mal consigo olhar para as áreas de luta. O tempo parece voar. Faço-me de forte quando escuto a chamada da minha categoria e é engraçado porque quando chamam, mesmo que tenhamos escutado nitidamente, os companheiros saem correndo atrás da gente gritando “é tua hora, porra, vai logo lá pra baixo!” e isso faz o desespero voltar, mas lá vou eu. Já na área de concentração olho para os lados e vejo a rotina de cada um. Há os que pulam pra aquecer, os que se alongam, os que agem naturalmente como se estivessem nas salas das suas casas e eu, que não sei se vou ou se fico, se sento ou levanto, se cuspo ou se assobio.
Estreia é assim mesmo, sério? Ninguém me disse nada disso. Eu tomei o cuidado de verificar minuciosamente a minha chave, o problema é que no meio de tanta gente eu não sei quem são meus oponentes. Será aquele ali o primeiro? E se eu passar por ele, será aquele outro o segundo? Analiso as faces de cada um como se fosse possível ser conclusivo. Estou ficando maluco, só pode!
E lá vem o cara da prancheta que chama meu nome e me pede pra subir na balança. Torço para que esta balança esteja calibrada igual às mil e quinhentas balanças que eu me pesei nas últimas semanas. Cheguei a um ponto em que não podia ver uma farmácia aberta que eu entrava. Mas bateu o peso certinho, pelo menos essa parte está superada, que venha a próxima. Ele alinha todos os lutadores e eu começo a enxergar os meus oponentes. Andamos todos juntos para a área onde iremos lutar e, sem exagero, pareço ser o menor de todos. Da arquibancada escuto os gritos da galera, mas é difícil decifrar em meio a tantos outros gritos vindos de lá. Minhas mãos suam, meu coração dispara, meus olhos estão fixos naqueles tatames coloridos. Não quero mais encarar ninguém, só quero que a luta comece logo.
Somos os primeiros da chave, eu e ele estamos lado a lado. Ele nem me olha e eu nem sei para onde estou olhando até que o árbitro posicionado no meio do tatame faz o gesto para entrarmos nele. Meu oponente ajoelha pra rezar e eu sigo até parar em frente ao árbitro, que pede para eu me posicionar. Lá vem ele, rezado e aparentemente preparado, talvez mais experiente que eu, talvez tão nervoso quanto eu, quem vai saber? Ele fica à minha frente e o árbitro fala algumas coisas e grita “combate!”, tocamos a mão um do outro e o primeiro embate são as trocas de pegada, o resto só o tempo (de luta) dirá.
Querido diário, hoje acordei todo moído e quase não consigo abrir os olhos. Não lembro o momento em que “apaguei” aqui na cama, mas lembro que ontem venci um embate contra mim mesmo, que lutei a melhor luta contra os melhores adversários e o resultado está agora pendurado na parede do meu quarto como uma lembrança de um dia ímpar. Ontem eu comecei a escrever a história de um competidor que comprou uma passagem só de ida para deixar a “primeira viagem” como o exemplo a ser seguido; que sentiu medo, que ficou nervoso, que criou lutas imaginárias em sua cabeça, que tropeçou nas próprias pernas e que mesmo assim seguiu em frente até a área de combate. Hoje eu acordei mais pleno, mais equipe, mais forte e mais experiente do que ontem. Hoje eu sou mais Jiu-jitsu do que nunca.



