O agressor nunca bate sozinho


Elaine Caparroz, 55 anos, empresária, passou por momentos de intenso terror sendo espancada por durante 4h em seu apartamento. Ela conheceu seu agressor nas redes sociais e trocavam mensagens por oito meses. Marcaram o primeiro encontro e o convidou para ir em sua casa, na esperança de se relacionar com um rapaz. Uma situação muito corriqueira para qualquer um. Até que o criminoso iniciou sua sessão de violência gratuita, enquanto Elaine estava dormindo.

Algumas pessoas, nas redes sociais, relativizaram e culpabilizaram a vítima, questionando não só a diferença etária entre ela e o agressor, mas, como ela poderia levar um desconhecido para dentro de sua casa. O que é um desconhecido? Uma pessoa que só vimos apenas uma vez?

Na madrugada de 22 de julho de 2018, a advogada Tatiane Spitzner, de 29 anos, foi morta pelo seu marido. Eles eram casados desde 2013 e naquela madrugada, sofreu uma série de agressões que a levou à morte por asfixia. Muitas pessoas também foram nas redes sociais para relativizar e culpabilizar a moça. Alguns diziam que ela poderia ter percebido as atitudes do agressor muito antes do crime. Que ele deu sinais de agressividade.

Não vou citar nomes no caso que vou relatar agora, mas, num dos vários minicursos de defesa pessoal feminina que ofereço com alguns camaradas, uma mulher relatou sua experiência de horror. Seu ex-marido parecia ser um homem pacato, muito tranquilo. Mas um dia se revelou num ataque de fúria que quase a levou a óbito por estrangulamento.

Desconhecido, conhecido ou calmo demais, a violência gratuita oferecida às vítimas pelos homens nunca é questionada. A culpa sempre recai às mulheres. É essa permissividade de poder violar, espancar, matar, por causa da roupa, do horário, do ciúme, da idade… Enfim, a justificativa sempre estará na vítima. Os homens sempre podem tudo.

E até mulheres concordam. A Deputada do PSL, Ana Caroline Campagnolo já chegou a dizer que: “tudo é estupro, um assovio é estupro, uma passada de mão é estupro…”

Essa banalização da violência faz vítimas todos os dias. Torna agressões contra qualquer princípio da dignidade humana em coisas bobas. Naturalizam a violência. E se hoje um homem levanta a mão para espancar uma mulher, matá-la ou estuprá-la, ele faz sob os aplausos e a concessão dessas pessoas e suas atitudes, e também, pela omissão do Estado e da sociedade.

Há 3 anos escrevi por aqui um texto sobre violência simbólica, termo utilizado pelo sociólogo francês Pierre de Bourdieu. Trata-se de uma forma de coação que se apoia no reconhecimento de uma imposição determinada. Como vimos nos casos de violência citados anteriormente, várias pessoas reprimiram a empresária Eliane Caparroz pela sua “liberdade sexual”, ou culpabilizaram as vítimas por sofrer violências que elas mesmas estão passíveis de sofrer.

Isso cria uma estrutura simbólica de legalidade da violência no ideário popular. Você colheu o que plantou. Mas não é bem assim. O problema está na cultura da dominação que reproduz que os corpos femininos são de uso público, seja para a exploração nas atividades do lar, seja para exploração sexual, seja nas tarefas de cuidadoras. A intenção é manter as mulheres inferiores. Sem direitos.

E enquanto reproduzirmos ou banalizarmos estes casos, mais e mais mulheres sofrerão. Só nos primeiros 11 dias do ano, tivemos 33 vítimas de feminicídio. No caso da empresária Eliane Caparroz, o conhecimento básico de defesa pessoal pode ter salvado sua vida, pois o agressor queria aplicar um estrangulamento e a vítima se protegeu cruzando os braços no pescoço.

Jiu-jitsu e a defesa pessoal

Como vimos anteriormente, temos hoje desafios no enfrentamento da violência contra as mulheres para além dos conhecimentos técnicos do jiu-jitsu. Temos que combater também os apoiadores de tais violências ou a banalização destas.

A ignorância e o ódio a minorias devem ser colocados em questão no planejamento das aulas. A defesa pessoal pode ser uma ferramenta fundamental para o enfrentamento, quando preocupada com algumas questões:

  • Além de dar prioridade ao conhecimento de técnicas, alertar para procedimentos que possam ser adotados no cotidiano das mulheres, como: Pensar em estratégias de fuga, deslocamentos, a quem pedir ajuda num caso de violência, telefones de delegacias especializadas, grupos de advogadas que se disponibilizam em atender vítimas.
  • Conversar com os colegas de treino sobre a responsabilidade social do jiu-jitsu na proteção de pessoas. Utilizamos diversas vezes a arte suave como instrumento de transformação de vidas, logo, não podemos fechar os olhos para estes casos. Principalmente os homens. Nossa responsabilidade é ainda maior em observar e reprimir atitudes negativas dos nossos colegas.
  • Estimular mais e mais mulheres a estarem envolvidas com a arte suave, ou com qualquer outro tipo de arte marcial. O autocontrole desenvolvido nos treinamentos pode ser crucial num momento de alto estresse.
  • Conhecer um pouco o que realmente é o movimento feminista e suas pautas. Não podemos cair no preconceito ou na generalização de um movimento por causa de exemplos negativos.

No mais, as atitudes nas academias também contam. Criticar a vida sexual de uma colega de treino, sua forma de se vestir, de se sentar, enfim, reprimir de alguma forma atitudes que são tranquilamente realizadas por homens, só pioram as coisas. Devemos evitar piadas machistas, comentários desnecessários, e claro, nunca relativizar ou banalizar qualquer tipo de violência que testemunharmos ou não.



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