O que aprendi ministrando cursos de defesa pessoal feminina e LGBT


Até hoje eu me achava culpada por aquilo”. Foi com esta frase e com lágrimas nos olhos que uma adolescente de 13 anos me agradeceu pela oficina de defesa pessoal que ministrei em sua escola. Por diversas vezes fui absorvido por um sentimento de impotência nestes encontros. A sensação de ter chegado tarde demais, de ter iniciado esta resposta aos crescentes números de violência contra mulheres e LGBTS apenas há um ano. Só que aprendi nas entrelinhas do jiu-jitsu que, só é derrotado quem desiste de lutar.

Eu estava navegando pela rede social quando fui surpreendido pela notícia de que uma garota, na universidade que estudo, foi violentada às 10h da manhã, ameaçada por um alicate. Foi o gatilho para que junto com outros camaradas, das lutas e de lutas, realizássemos o primeiro minicurso de defesa pessoal para mulheres e LGBTS da Universidade Estadual de Feira de Santana. Atendemos na primeiro edição a 30 inscrições e nossas intervenções iam se moldando aos depoimentos das participantes. Sabíamos que o minicurso não teria a capacidade de superar por si a violência, pois é um problema estrutural, enraizado na história e cultura de nossa sociedade, machista, racista e homofóbica.

Sofremos algumas críticas, entre estas, aparecia forte a questão de estarmos enfrentando violência com violência. Comparativos com alguns discursos e figuras públicas que tentam resolver problemas sociais com violência. O único problema é que geralmente tais críticas eram fundamentadas na aparência que nosso minicurso apresentava. “Ensinar mulheres a reagir à violência com socos, chutes e pontapés”.

Sempre foi muito mais que isso. Estávamos ensinando mulheres e LGBTS a resistir dentro de um contexto que torna aceitável ou “naturaliza” os mais diversos tipos de violência (física, psicológica, simbólica, sexual). A reconhecer e evitar estes casos, a se proteger e proteger seus amigos, amigas, irmãs, mães.

Não conseguimos dar continuidade ao projeto na universidade (ainda) por conta da correria diária dos nossos companheiros. Aplicar um minicurso com recursos próprios não é nada fácil. As pessoas precisam se manter, trabalhar, estudar, concluir seu curso. Entretanto, isto não quer dizer que ficamos observando o problema de longe. A experiência nos fundamentou e nos fez chegar em outros ambientes, tão carentes e necessitados de uma atenção a respeito do tema.

Nosso país, para se ter uma ideia, entre 2011 e 2017 teve um aumento nas notificações gerais de violência sexual contra crianças e adolescentes, sendo 31, 5% dos casos contra crianças, e 45% contra adolescentes (confira aqui). A maioria das ocorrências são praticadas em casa e mais de uma vez.

Foram vários relatos durante um ano. Familiares que não acreditam na denúncia, que fortaleciam a culpa da vítima, perseguições psicológicas, jovens que saíram de casa por não ter sua orientação sexual aceita e sofrerem algumas violências dentro de casa. A cada oficina ou palestra, ficava evidente a necessidade de uma abordagem preventiva, com informações sobre a origem do problema (que nunca está na vítima), quais ações para evitar algumas exposições, como denunciar, e, diante de tanto sofrimento, acolher e empoderar estas pessoas. A informação é imprescindível para superação deste quadro, e fica evidente na maioria das falas das vítimas o quanto são coagidas a acreditar que elas são “erradas e culpadas”.

A defesa pessoal é uma fonte inesgotável de possibilidades na abordagem destes problemas, se entendermos que o trabalho preventivo é parte fundamental para o conteúdo. Devemos compreender que o uso das técnicas de defesa são a última instância para estes casos específicos. Se pensarmos numa realidade que naturaliza a violência contra mulheres e LGBTS, nem sempre será garantido o apoio das pessoas numa situação de reação a um caso de violência. O silêncio e a omissão da sociedade também contribuem para o aumento destes casos. Basta observar o caso da advogada Tatiane Spitzner que antes de morrer sofreu diversos tipos de violência sem que ninguém interferisse, ou o caso da travesti Dandara dos Santos, morta em plena luz do dia, no Ceará.

A função do jiu-jitsu

O autocontrole, a persistência, a coragem e a superação promovidos pelo jiu-jitsu podem ajudar estas pessoas. Podemos utilizar nossa eficiência técnica e filosófica para combater este quadro, mas para isso, é importante também muito estudo sobre gênero e sexualidade, e suas lutas diante deste contexto. Durante um ano, em várias oficinas que participei, senti um pouco de impotência com os depoimentos das vítimas, mas percebi que várias outras precisam ouvir que não foi culpa delas, que elas não podem se render diante deste quadro, que é importante denunciar.

É preciso lutar muito e em diversos espaços, seja numa academia, numa escola, em casa. Informar e empoderar, como fez nossa colunista Marina Gatti em seu brilhante texto sobre relacionamentos abusivos. Estas informações devem chegar em mais e mais espaços, incentivando estas pessoas também a praticar o jiu-jitsu para que se possa alcançar os benefícios proporcionados pela arte, ou qualquer outro tipo de luta. Mais e mais pessoas precisam estar preparadas.

Ajuda e denúncia

180 – Disque denúncia da central de atendimento à mulher

Aplicativos:

  • SOS mulher
  • Salve Maria
  • Me respeita
  • Sai pra lá
  • Mete a colher


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