Quebrando paradigmas: Vanessa Sousa, a única árbitra de jiu-jitsu do RS


Recentemente tive a oportunidade de conversar com Vanessa Sousa, uma faixa preta simpática, que tem quebrado paradigmas e que nos conta um pouco da sua história. Vanessa começou no jiu-jitsu com 15 anos, em Esteio no Rio Grande do Sul. Pertencia a equipe Marra Senki na cidade de São Leopoldo e treinava com o Professor Sérgio Correa em 2001.

Por uma série de motivos, a atleta teve um intervalo no BJJ por quase 8 anos e retornou ainda faixa azul em 2013. A faixa preta foi conquistada em dezembro de 2017 e entregue pelas mãos do professor Marcio Mendonça, da Equipe A Jiu-Jitsu em Novo Hamburgo (RS). Quando está em fase de reparação para competição, até dois treinos por dia fazem parte da rotina da esportista. Atualmente, devido a demandas do trabalho, lesões e outros compromissos, a frequência da academia por vezes diminui um pouco.

O jiu-jitsu faz parte da vida desta jovem árbitra. Ela gosta de dizer que tem mais tempo de vida no tatame do que fora dele. Afinal, são 17 anos! O jiu-jitsu moldou muito a personalidade da competidora e a fez uma mulher mais forte e uma defensora árdua de opiniões relacionadas ao meio feminino dentro do BJJ e também fora dele. Ela nos conta que a postura corporal muda, os pensamentos, a imposição perante determinada situação e, obviamente, a tornou mais independente.

Seu jogo na arte suave é o que ela chama de “passadora metida a guardeira”. Situação que eu pessoalmente me identifico bastante. Vanessa se diz uma apaixonada pela guarda profunda e a passagem de quebra de joelho. Campeã Brasileira, Campeã Sul-Americana, 2x Campeã do Masters International e 3º no Mundial Masters da IBJJF, esta atleta tem muita experiência em competições de nível nacional e internacional.

Muitas são suas fontes de inspiração no esporte. Como ela mesmo nos conta: “Sempre foram e serão: Letícia Ribeiro, Leka Vieira e a gaúcha Caroline De Lazzer. Atualmente admiro demais a Bia Mesquita”. Nomes que, com certeza, são respeitados e admirados por muitas pessoas.

A arbitragem

Vanessa explica os vários fatores que a levaram a ser a primeira e única árbitra do RS. “Primeiro que eu sempre carreguei a bandeira do BJJ feminino e infantil no estado desde que eu voltei a treinar e já na faixa roxa. Aliado a isto tenho um professor “maluco” que apoia e incentiva sem precedentes o esporte. Fiz o curso e ele me empurrou para um estágio de arbitragem. Desde a primeira experiência as meninas do RS me apoiaram. Elas me incentivam até hoje! Quando penso em parar, logo aparecem mensagens de apoio total para que eu continue até que o quadro feminino na arbitragem aumente. E é essa coletividade dentro do esporte individual que me encanta! Ali na frente é a Vanessa, mas quem impulsiona são essas mulheres e crianças. Sensacional!”.

Nesta bela história há também fatos tristes. E que infelizmente parecem ser ainda rotineiros no meio do jiu-jitsu. Perguntei se, como mulher, já sofreu algum preconceito dentro do meio. A resposta foi muito sincera e deprimente.

Por incrível que pareça o lugar que eu mais sofro preconceito é dentro dos tatames. Seja treinando, competindo ou arbitrando. Aquele colega que aplaude teu trabalho e reconhece teu esforço é o mesmo que te chama de ‘treino de descanso’. Diz que as demais colegas ‘não têm jeito’, que é ‘muito raro chegar a preta’ ou que simplesmente não treinam com mulheres. É tanta bobagem que eu escuto! Pior mesmo é na arbitragem. Teve um tempo que se ouvia xingamentos das arquibancadas. Hoje eles falam pelas costas, xingamentos contidos. Mas não é o preconceito somente, é a falta de tato e a falta de estudo. Por vezes, compreensível. Mas não sempre!”.

O avanço do jiu-jitsu no RS

Mas estes episódios lamentáveis não têm impedido a continuidade da luta e da trajetória. Essa vencedora nos conta que o esporte em seu estado tem crescido, assim como no mundo. Ele mudou bastante. Há mais de 10 anos não se tinha nada de jogo moderno, preparação física, suplementação correta e de fácil acesso. Impossível não presenciar tamanha evolução da arte marcial.

Hoje, destaca a árbitra guerreira, “aumentamos também a consciência coletiva, temos professores que incentivam a visita as demais academias e por vezes topam o treino junto! Quem diria, não é mesmo?” Tudo isso favorece a evolução do esporte. O número crescente de campeões mundiais gaúchos e a forte representação por parte de atletas nas categorias Masters têm difundido ainda mais as experiências em treinos e competições.

Naturalmente, pedi a Vanessa que fizesse uma avaliação do jiu-jitsu feminino no RS. A resposta se inicia com um sonoro bah! Típico da fala sulina. “Bah, temos representantes mundiais no estado, mas as meninas não são acessíveis às demais atletas. Sinto falta disso.” A faixa preta propõe de se fazer um treino feminino no estado por mês para que as meninas tenham a oportunidade que ela não teve. Se aproximar de graduadas, por exemplo.

Ela relata que nestes treinos se conversa muito sobre o universo feminino dentro do esporte, sobre preparação física, regras, competições. Todas são convidadas, todas as bandeiras e idades são bem-vindas. É uma forma de se ter interação e fazer com que o BJJ feminino cresça saudavelmente. A ideia é que elas tenham uma postura nobre. Que compitam com muito afinco, mas que se convidem para competir também. A escassez de atletas deixa os campeonatos com pouca presença feminina. E a campeã procura enturmá-las para que combinem de competir juntas. Assim sempre terá campeonatos com meninas representando!

Fazendo a diferença

Em 2015 eu dei aula de BJJ Feminino na cidade em que moro. Éramos uma turma linda de 15 a 20 alunas e uma delas havia sofrido abuso quando adolescente. Na época, com 28 anos, entrou no BJJ e não conseguia treinar 5min quando ficava por baixo, na posição de guarda ou levando 100 kg. Se desesperava, tinha crises de pânico. Ela era uma passadora excelente, mas o biotipo era ótimo para a guarda, pois tem pernas longas e fortes. Passamos a trabalhar em todos os treinos: 4 min de passagem e obrigatoriamente 1 min de guarda com a minha supervisão a cada treino. Aumentamos gradativamente os minutos de guarda e, depois de seis meses, já tínhamos uma guardeira afiada na turma feminina. Esse trabalho de professor, mestre, mentor vai muito além de apenas uma aula de BJJ.”.

Finalmente, a admirável atleta e pessoa nos deixou o seu recado final:

Me orgulhar com e no BJJ é ver você evoluindo mais que eu. Posso abrir o caminho, fazer a frente, ensinar, conversar. Mas o sonho do faixa preta é formar pessoas melhores que ele! No jiu-jitsu, seja na arbitragem, na competição, no rola ou na vida, precisamos de atitudes que auxiliam o próximo. O sonho é fazer do esporte individual, coletivo! Oss!

Vanessa, nós da BJJ Girls Mag lhe desejamos todo sucesso em seus projetos e trabalho de expansão do jiu-jitsu feminino pelo Rio Grande do Sul!



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