A rixa que ainda existe entre equipes


Foto por Olga Guryanova em Unsplash
Quem nunca foi fazer um treino de intercâmbio em outra academia e se sentiu um carneiro indefeso na selva? rs..

Em 2017, me aventurei em um intercâmbio americano. O intuito maior era estudar, mas com toda certeza eu não iria deixar de lado a oportunidade de treinar em uma academia na América. Eu morava em Maryland, mas bem próximo (40 minutos de carro ou trem) de Washington DC. Mas por ser interior, os locais em geral, a pé ou de transporte público, eram bem distantes. Apesar da valorização cultural do esporte, as academias eram afastadas da minha casa e os campeonatos, além de bem caros, perto da nossa realidade brasileira, você tinha que fazer viagens de no mínimo duas horas para lutar, salvo quando tinha em DC, que não era tão frequente.

Independente de dificuldades e obstáculos que eu fosse encontrar, estava disposta a enfrentar tudo pela experiência incrível que isso poderia me proporcionar. Então, na segunda semana de States, já tinha me matriculado na academia mais próxima da minha casa e começado a treinar. Lá, nós treinávamos jiu-jitsu brasileiro, o mestre era brasileiro, mas meu professor era americano. Meu inglês não era dos melhores na época, imagina o técnico para jiu-jitsu?! rs..

Quando você entra em uma academia nova, sendo faixa colorida, a primeira coisa que eles perguntam é: “Da onde você veio?!” “Quanto tempo você treina?” e não foi diferente comigo. Eu sempre fui sincera e clara, que tinha mudado para estudar, que estava aproveitando a oportunidade para treinar, e que meu professor, e amigos de treino no Brasil eram como família pra mim.

Os meses foram passando, eu treinava todos os dias religiosamente, fazia em média três treinos por dia (jiu, thai e judô), e achava bem diferente, não em questão de técnica, até porque nós treinávamos jiu-jitsu brasileiro, e em questão de técnica o Brasil é melhor. A diferença que vi na América foi a valorização cultural do esporte, as pessoas levam mais a sério, desde criança de no mínimo 3 anos já estão treinando, são mais competitivas e patriotas. É bom? Claro! Mas tudo na vida há um senso, e foi por essa falta de senso que comecei a discordar de coisas que eles faziam. Não que todos no EUA façam isso, mas a minha experiência na academia específica que comecei a treinar foi essa.

Por mais que eu viaje, mude de bairro, cidade, país de novo, pra mim o mais importante é sair de cabeça erguida e de portas abertas em todas academias/lugares que visito. Minhas raízes nunca vão mudar e vou ser eternamente grata por toda trajetória que minha primeira equipe trilhou comigo, e não, eu nunca vou esconder ou mudar essa versão para quem vier me perguntar. E o professor me cobrava muito isso, que minha “raiz” tinha que ser lá, onde eu estava, se me perguntasse de onde eu vim, eu tinha que falar o nome da academia americana. Fingia que tinha entendido tudo, mas não fazia o que ele pedia, e ele acabou ficando um pouco bravo comigo.

Todo campeonato grande, mesmo quando eu não ia participar, ou nem estavam acompanhando quem estava competindo e etc.. Na segunda-feira pós campeonato ele me chamava e fazia questão de sempre fazer a mesma coisa: “Hey Natasha… (traduzindo) você viu os resultados do campeonato de ontem?” Eu respondia que não. Ele, “nós ficamos em primeiro lugar no resultado geral, e sabe a sua equipe do Brasil? Ficou em terceiro. Viu como somos melhores?”

Eu fingia várias vezes que nem ouvia ou muito menos mostrava qualquer tipo de reação, porque no fundo, acho que o que ele mais queria era isso, então eu não iria dar esse gostinho pra ele. Apesar do mestre ser brasileiro, ele não ia lá com frequência, e eu era a única brasileira que treinava lá, me sentia um peixe fora d’água por isso também. O tempo foi passando, continuei treinando com eles todos os dias, e cada mancada por diferença de academia que ele dava, mais desgostosa eu ficava de treinar. E repetia pra mim, “não deixa ele acabar com uma das coisas que você mais gosta de fazer, que é treinar” “Você não conquistou a confiança dele ainda, vai passar” E nunca passava.

Um belo dia, em um grupo de intercambistas no Facebook (rede social é vida), achei uma carioca super gente boa, sorridente (amo brasileiros), que estava morando perto de mim e também treinava jiu-jitsu em outra academia. Chamei para conversar e ela me contou que tinha uma GFTeam em DC e que a gente poderia marcar um treino lá para eu conhecer. Nossa, a minha felicidade foi tão grande, que não via a hora de fazer um novo intercâmbio de jiu.

Finalmente fui na GFTeam, equipe que eu já treinava Brasil, e conhecer a unidade de DC era uma grande honra pra mim. Tinha mais brasileiros do que na outra academia, professor brasileiro, mas muitos americanos também, e nossaaaa, que diferença de energia, de treino, de felicidadee! haha.. Super me receberam bem e em momento nenhum pediram pra eu sair da academia americana, e no final sempre diziam: “Vem quando puder, as portas sempre estarão abertas pra você”.

Aprendia mais, me diverti mais, e foi uma das melhores experiência no jiu-jitsu pra mim, e que diferença de cabeça e de visão de professor, mas o importante pra mim era que eu estava feliz de novo fazendo o que eu gostava, estava aprendendo, e não via a hora de voltar a competir de novo.

A GFTeam era no centro de DC, então era mais longe ainda da minha casa, não daria pra eu treinar só lá. Para não ficar parada eu treinava de segunda a quinta na academia americana e sexta e final de semana na GFTeam. A diferença era gritante, mas quando batia aquela saudade do Brasil, da família, não pensava duas vezes, eu ia para GFTeam. O professor americano descobriu que eu estava treinando em duas academias, e ficou mais bravo, implicava comigo por qualquer coisa e disse coisas que me deixaram bem chateada, que não vem ao caso agora. Saí da academia e prometi pra mim mesma que nunca mais deixaria ninguém impor mais nada na minha vida que eu soubesse que não me fizesse bem, e que ninguém pode me dizer o que fazer ou deixar fazer, porque qualquer pessoa é capaz de qualquer coisa, basta querer.

Eu quis lutar o mundial na Califórnia, mas infelizmente não consegui porque decidi voltar pro Brasil antes, mas estipulei isso como desafio pessoal de vida e não vou desistir até consegui. E após toda essa trajetória que foi uma fase bem difícil na minha vida, além de amadurecer, e muitos outros aprendizados que adquiri, aprendi também o quão é importante fazer esses tipos de intercâmbio esportivos.

Apesar de ter muitos professores/mestres que têm a cabeça mais aberta e incentivam isso aos seus alunos, tem outros também que deixam o respeito e o espírito esportivo de lado e usam isso para criar um rixa maior do que já existe.

Mas, será que esse tipo de intercâmbio é importante mesmo?

Com toda certeza, quando treinamos sempre com as mesmas pessoas, acabamos pegando os mesmos vícios e sempre fazendo o mesmo jogo por conhecer o estilo de luta de cada pessoa. Quando treinamos com quem não conhecemos, somos frequentemente surpreendidos, com alguma chave que é a especialidade daquela equipe, com o estilo de luta etc.

Isso deveria ser bem visto entre todas as academias, tirando um pouco de lado a visão competitiva, pensando pelo espírito esportivo, e até o aprendizado da arte em si. Não deveria haver essa rixa, o respeito e o aprendizado de cada treino deveria sempre ser prioridade. Quem nunca viu as lutas do Lyoto Machida no UFC, e no final de cada luta, independente do resultado, ele sempre agradece e mostra o máximo respeito pelo adversário e pelo público, porque teve mais um grande aprendizado.

Por isso, quando você receber algum “intercambista” na sua academia, seja receptivo(a), aproveite a oportunidade para ensinar e aprender, e verá como a diversidade é rica em conhecimento e grandes lições. E assim, como toda ação tem a sua reação, a intercambista quando receber alguma visita também, tratará bem, bem como foi recebida, e isso será cada vez mais recíproco entre todos.

Espero que tenham gostado da experiência que compartilhei, espero que ajude bastante muitas pessoas a abrirem mais as suas cabeças e que tenham certeza, que vocês são responsáveis por conduzir o protagonismo da vida de vocês. Bora fazer um intercâmbio esportivo essa semana? Pra quem for de São Paulo, é só me chamar que será muito bem-vinda e aprenderemos muito umas com as outras, osss!

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Comments 1

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  1. Que linda história…tão novinha…parabéns pela tua garra…mundo precisando de pessoas como você. Parabéns Nat Guerreira 😉

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