Jiu-jitsu utilizado no tratamento de crianças atípicas


Hoje vamos falar sobre um assunto que tem ganhado destaque tanto no meio do esporte, quanto no meio da psicologia: jiu-jitsu aliado no tratamento de crianças atípicas. Confiram a entrevista com psicólogo do esporte Rodrigo Damasceno, com a colaboração do estudante de psicologia Antônio Cesar Soromenho. 

O que são crianças atípicas?

Rodrigo Damasceno: Segundo estudos, são aquelas crianças que não alcançam o desenvolvimento psicológico e cognitivo esperados para sua faixa etária, após serem excluídos alguns fatores físicos e ambientais. Grande parte dessas crianças apresentam dificuldades nas interações sociais (que é um dos primeiro sinais que podem ser percebidos pelos pais, logo nos primeiros anos de vida). Algumas patologias são capazes de influenciar nesse desenvolvimento atípico: alterações genéticas, Síndrome de Down, TEA (Transtorno do Espectro Autista), Síndrome de Asperger, Síndrome de Rett, paralisia cerebral, entre outros.

Como o comportamento atípico pode afetar o cotidiano das crianças?

Rodrigo Damasceno: Com o tempo as crianças passam a desenvolver alguns reflexos desse comportamento atípico como desinteresse em atividades coletivas, falta de contato visual, ecolalia (imitação da fala do outro), preferência por brincadeiras individuais, e em alguns caso até recusam brinquedos, e preferem objetos diferentes (relógios, aparelhos domésticos, etc). Em alguns casos, existe também alterações rápidas de humor, agressividade, e até comportamentos obsessivos.

Como surgiu a ideia de dar aulas de jiu-jitsu para as crianças com comportamentos atípicos?

Antônio Cesar: A ideia surgiu quando conheci o Rodrigo. Ele dava aulas de jiu-jitsu numa academia, eu tinha chegado de Portugal e queria começar a treinar. Na época, o Rodrigo ainda era estudante de Psicologia, estava concluindo o curso, fizemos uma amizade muito boa. E logo em seguida, a ideia foi amadurecendo e surgiu a oportunidade, por ele ser instrutor de jiu-jitsu e psicólogo do esporte, e por eu trabalhar com a Mestre Joana Soromenho na área da Psicomotricidade com crianças com perturbação do desenvolvimento e dificuldades de aprendizagem há 12 anos. Em março de 2017 começamos com o projeto, que teve início na Caminhada do Autismo, montamos o tatame em um parque público de Teresina e apareceram vários pais e crianças para conhecer. A partir daí, iniciamos o trabalho na clínica com uma criança autista. Com o tempo foram aparecendo outras crianças atípicas e típicas.

Como são as aulas? São adaptadas de acordo com as necessidades dos pacientes?

Rodrigo Damasceno: As aulas são feitas no ginásio da Clínica Soromenho, onde temos um tatame. Trabalhamos com circuitos psicomotores como aquecimento com alongamento, corrida e brincadeiras lúdicas como morto e vivo (“morto” a criança faz o spraw, “vivo” ela levanta e fica fazendo base). Algum tipo de adaptação que fazemos é a ajuda do acompanhante terapêutico Antônio César, que me auxilia nas aulas e em alguns movimentos com os alunos. As crianças são treinadas e orientadas na aprendizagem de técnicas e posições de luta como queda, spraw, armlock, drills de passagem, drills de raspagem, dentre outras. No início, alguns apresentam algumas dificuldades, mas sempre procuramos trabalhar e ajudar na evolução de cada criança (tendo comportamento atípico ou não).

Quais os benefícios que esse tratamento em conjunto (atendimento psicológico e aulas jiu-jitsu) traz para as crianças?

Rodrigo Damasceno: As crianças apresentam um melhora no desenvolvimento psicomotor e global, há uma evolução também na interação social e diminuição de situações de perdas e frustrações, ou seja, as crianças compreendem sobre ganhos e perdas. Melhora também no cumprimento de regras e instruções, ou seja, eles aprendem em qual momento pode ou não fazer algo, pedir algo ao professor, cumprimentar no início e no final o professor e colegas de treino.

Um bom desenvolvimento psicomotor das crianças está associado a algum estímulo ou situação específica? Como melhorar esse desenvolvimento, de uma forma geral?

Rodrigo Damasceno: Sim, o bom desenvolvimento psicomotor está ligado à estimulação psicomotora, que a criança tem no seu período de maturação e no seu desenvolvimento nas fases iniciais de sua vida.

Na sua opinião como profissional, os resultados do tratamento passaram a ser mais satisfatórios quando decidiu acrescentar as aulas de jiu-jitsu?

Rodrigo Damasceno: Sim, sem dúvidas. Com o acompanhamento psicológico ligado ao estímulo psicomotor através do jiu-jitsu, a criança passa a apresentar uma evolução que pode ser percebida no seu comportamento de um modo geral.

Há algum caso marcante desde que iniciaram as aulas de jiu-jitsu no tratamento dessas crianças ?

Rodrigo Damasceno: Vários casos. De uma maneira geral, muitos têm dificuldades em seguir regras/instruções e a responder a comandos verbais. E a cada aula as crianças vão aprendendo algo novo e chega ao momento de elas falarem por si só, ou seja, ficam independentes. Isso é muito gratificante para todos os envolvidos no processo (terapeutas, acompanhante terapêutico, quem dá aula, a própria criança e a família).

A psicologia do esporte pode auxiliar também no desenvolvimento psicomotor em crianças?

Rodrigo Damasceno: A psicologia do esporte nesse contexto, entra em uma área de atuação do profissional que é a “reabilitação”, que está relacionada ao acompanhamento de pessoas típicas ou atípicas com algum tipo de lesão, limitação, dificuldade de aprendizagem ou alguma síndrome, entre outros. Saindo um pouco do foco do que é mais tradicional, que é o psicólogo do esporte em atletas de alto rendimento. Suas outras áreas além dessas citadas, é a iniciação esportiva, esporte educacional e projetos sociais.


Obs: Esse trabalho é fruto de um projeto piloto, com a ideia inicial de Rodrigo Damasceno (psicólogo do esporte e instrutor de jiu-jitsu) em conjunto com a Dra Joana Soromenho (psicopedagoga e psicomotricista) e com o Antônio César Soromenho (acadêmico de psicologia). Esse trabalho foi recentemente apresentado no Congresso Internacional de Psicologia do Esporte.

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