Faço jiu-jitsu, consigo reagir a um assalto a mão armada?


Minha militância pela igualdade de diretos para mulheres me levou a combater a violência sexual oferecendo cursos de defesa pessoal feminina e LGBTS para estudantes e interessadas no assunto. Tomar essa decisão política de enfrentar os números crescentes de estupros no país (135 por dia, para que você tenha uma ideia) gerou uma curiosidade em algumas pessoas: Isso vai resolver o problema? Infelizmente o curso não tem este poder. Mas preza pela preservação da vida.

O minicurso tinha o objetivo de preparar mulheres e LGBTS para prevenir ou evitar tais violências, desvencilhar de ataques em casas noturnas ou outros espaços, estimulando as participantes a produzir análises de risco e a utilização de técnicas para garantir sua integridade física e/ou a vida. E não esquecendo, tentar aproximar estas pessoas às Artes Marciais, para que o autocontrole, disciplina e persistência auxiliem nesse processo. O problema é estrutural e já abordamos por aqui, assim como o problema da violência, de uma forma geral no nosso país.

Em um desses cursos fui entrevistado por um programa de TV e a jornalista me questionou sobre treinamento de reação contra armamento. Trabalhei como segurança pública no período de 2001/2008 em Recife (terceiro SGT do Exército) e, como aprendi nos diversos cursos de operações que participei, em um confronto armado é sempre interessante quando se pode evitar. Uma operação bem sucedida é aquela que se resolve sem um tiro disparado, sem vítimas. E é exatamente isso que transmito para todos os meus alunos e participantes dos cursos de defesa pessoal que tenho desenvolvido: em situações de assalto a mão armada não se reage!

Vou tentar esclarecer. Os agentes de segurança pública, policiais e outros tipos de agentes, no nosso país, estão a cada dia entrando nos registros de vítimas por reação a assaltos ou simplesmente por serem assaltados (4 em cada 10 no Rio, de um total de 100 e 25 no Ceará, em 2017). O que nos ajuda a pensar que, oficiais treinados e que vivem cotidianamente com o manuseio de armamentos e treinamentos específicos, estão sendo assassinados nessas situações. Não cabe aqui julgamentos sobre as vítimas, são trabalhadores que não tiveram seu direito à vida garantido. Costumo usar estes exemplos para demonstrar que em alguns casos, o conhecimento prático e a experiência não garante um desfecho interessante.

E nós, praticantes de Jiu-jitsu, que experiência acumulamos (prática e teórica) para podermos reagir a estes tipos de situação?

Em 2 de março de 2015, a supercampeã Gabi Garcia, foi vítima de um assalto em São Paulo. O marginal, quando percebeu seu kimono e faixa preta na mochila, começou a agredir a atleta com o armamento xingando-a de “lutadora de merda” (afirmou a atleta em entrevista à Graciemag). Segundo o professor, faixa preta há mais de 20 anos e também agente da polícia civil, Paulo Peposo, (na mesma matéria) a atleta agiu corretamente não demonstrando nenhuma reação. O professor salientou que foi até instrutivo para todos nós, e que nada é mais valioso do que nossas vidas. Mestre Peposo afirmou ainda na entrevista que o jiu-jitsu o auxiliou culturalmente e mentalmente em diversas situações de risco, e que a cortesia, persistência e respeito ao ser humano, ensinados na arte suave, são valores fundamentais para melhorar nossa realidade e a tomada de decisões.

Infelizmente, diversos outros casos com atletas de jiu-jitsu não tiveram o mesmo desfecho. Não vou expor estes pois o objetivo do nosso texto, repito, não é julgar uma vítima, e sim, discutir que o papel do jiu-jitsu nesses casos, o que é muito mais preventivo. Podendo ser repassado nas academias os riscos de tomar uma decisão equivocada ao enfrentar um indivíduo que porta uma arma de fogo, discutindo também a relevância de se evitar qualquer situação de risco, de uma forma geral.

Podemos pensar na nossa rotina de treinamento. Basicamente, passamos muito tempo da nossa periodização anual nos preparando para competições. Como só posso afirmar o cotidiano de minha equipe, às vezes me pego negligenciando o ensino de defesa pessoal para meus alunos por este motivo. Quando cito a defesa pessoal englobo todos os aspectos já falados aqui: evitar situações de risco, produzir análises, projetar rotas de fuga, entre outros.

Enfim, claro que existem posições políticas atuais que discordam totalmente do que falamos por aqui hoje. Inclusive, um dos símbolos maior desse movimento atual já foi vítima de um assalto e “se sentiu indefeso” mesmo portando uma arma. Devemos sempre pensar em soluções reais e com respaldo para esses problemas, procurar estudar o que alguns países que reduziram a criminalidade e a violência fizeram para resolver ou controlar estes números. Afinal, o que nos diferencia dos “animais” é a nossa capacidade de refletir. Enquanto não alcançamos esse objetivo, preserve sua vida. Não é apenas o seu bem maior, muitas pessoas dependem ou precisam de você ainda. Tenha certeza, nenhum bem material vai substituir sua falta.

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