Campeonato Brasileiro: sonho e realidade se materializando


Do dia 28 de abril a 6 de maio, cerca de 7 mil atletas se encontram para disputar o evento considerado o mais importante do calendário do Jiu-jitsu Brasileiro, o Campeonato Brasileiro da Confederação Brasileira de Jiu-jitsu (CBJJ). É isso mesmo, mais de uma semana de evento para que as gigantescas chaves de categoria cheguem aos quatro atletas que, naquele dia, conseguiram controlar suas ansiedades, respiração, e se anteciparam aos seus adversários.

Até aí tudo não passa do normal. Ué, todas competições são assim, não é? Isso! Só que nem todas competições são o Brasileiro da CBJJ. Pergunte para qualquer atleta qual a medalha que ele gostaria de ter na sua coleção? Afirmo isso pelo grau de dificuldade que a competição apresenta. Além de treinar horas e horas, para poder se adaptar à quantidade de combates, como já falei, das gigantescas chaves, você terá que, logisticamente, se preparar para sair da sua cidade, estado ou país para poder participar de um evento assim. Perceba também como engradece o currículo ter um título de campeão do brasileiro da CBJJ? É incontestável.

Alguns atribuem a relevância do evento pelo nível organizacional da instituição que o promove. O rigor dos critérios para participação, o cumprimento dos horários das chaves. Outros pensam na “utópica” unificação das federações, pelo crescimento do jiu-jitsu em prol de um movimento olímpico. Realmente, quem não gostaria de ver o BJJ numa olimpíada? Quantas medalhas nosso país iria trazer, hein? Uma Beatriz Mesquita, Tayane Porfírio, Claudia Do Val numa mesma equipe, competindo pelo nosso país? Seríamos imbatíveis!

Se eu consegui fazer você pensar um pouco no que falei, e você tentou visualizar a emoção e o orgulho que é estar em Barueri, no Ginásio José Corrêa, com os grandes nomes do jiu-jitsu mundial, num caldeirão de emoções e sonhos… Então, consegui fazer você chegar onde eu queria.

Quando estamos acalorados pelas emoções, é muito raro pararmos para refletir sobre a realidade. Os sonhos mexem conosco, precisamos deles para nos manter vivos, humanos. Mas, a realidade é outra. Certamente você sabe que vivemos num país que o apoio ao esporte é quase nenhum. O (des)governo cortou, para 2018, 87% do orçamento destinado para o Ministério dos Esportes, o que afeta diretamente nas bolsas de permanência e nos programas de incentivo ao esporte, que poderiam estar ajudando esses guerreiros.

Já na iniciativa privada, são raras as empresas que investem em atletas ou em projetos de permanência esportiva. Obviamente, a relação do jiu-jitsu com a grande mídia não é das melhores, o que impacta totalmente nessa relação. Para você entender: você preferiria investir na imagem de sua marca num atleta que participa de um evento esportivo que vai ser transmitido por uma emissora que tem alcance de 90% da população ou investiria no que participa em outro evento, televisionado por um veículo de comunicação que atinge 10% da população? E não é no horário nobre da emissora “tal” que podemos assistir ao Brasileiro, né? Claro, cabe um outro texto para explicar melhor essa situação, mas, precisamos olhar para o investimento privado no esporte como realmente ele é ou deveria ser: lucrativo.

Mas, estávamos falando de permanência e investimento esportivo. Este rápido passeio na realidade foi para fazer você pensar: se a situação é essa, como essas pessoas fazem para passar uma semana em outra cidade ou estado para realizar seus sonhos? Algumas vendem água nos semáforos, fazem rifas, vendem chaveiros, bonés, oferecem aulões, promovem competições premiando quimonos que ganham nos absolutos, fazem campanhas na internet. Será que dá para manter ou algumas estão passando dificuldades sérias? Isso tem impacto direto na vida dessas pessoas. Dá para manter um padrão legal de rendimento competitivo? Os convido, novamente, a pensar.

E o que se tem de retorno de tanto investimento pessoal no Brasileiro? De tanto esforço? As inscrições, até 2 de março estavam por 158 reais. Até o dia 19 de abril, 170 reais. Um evento realizado num ginásio municipal, com cerca de 7 mil atletas inscritos, não poderia oferecer uma premiação interessante para os atletas?

Talvez agora, depois de tanta coisa que não aparece nas fotografias do pódio, de poder ver tanto esforço de pessoas para realizar seus sonhos, de ver opiniões a respeito do evento, você entenda a magnitude dessa competição e suas implicações na vida delas. Como deve ser glorioso depois de tanto suor e esforço conseguir chegar à medalha de ouro nesse evento? Como deve ser frustrante parar no meio do caminho? Quantas experiências não se pode tirar dali? Um caldeirão de sonhos e realidade num ginásio esportivo.

Minha função hoje foi um pouco a de Dédalo, personagem da mitologia grega, pai de Ícaro, que alertava seu filho sobre os perigos de voar muito próximo ao Sol com suas asas de cera. Devemos sonhar. Sonhar sempre! Correr atrás disso, mas, temos que ter a mínima noção da realidade para não sermos explorados justamente naquilo que mais temos apreço. Para não sermos abraçados pelo mesmo infortúnio de Ícaro que, possuído por seu sonho de voar, caiu no mar por se aproximar demais do sol, tendo suas asas de cera derretidas.

No mais, cobrar fortemente as instituições responsáveis pela garantia do acesso às atividades esportivas no nosso país. Garantias constitucionais! Nos organizarmos como atletas que buscam este objetivo, fazendo campanhas nas redes sociais, reuniões. Nada cairá do céu, como a chuva.

 Boas lutas aos competidores! Oss!


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