O que a cor da faixa significa


Meu pai é um goiano do pé rachado, um homem do interior criado no cabo da enxada. Foi para a cidade grande quando adolescente. Cinco décadas depois, no meu ponto de vista, venceu na vida. Está longe de ser um milionário. Mas tem o que, no passado, parecia ser sonho: casa e carro, um negócio próprio, plano de saúde, um sítio para passar os fins de semana e filhos que cursaram a faculdade. Quando brinco e digo que queria ter uma vida boa como a dele, ele responde usando um ditado regional. “Todo mundo fala das cachaças que bebo, mas ninguém vê os tombos que levei”.

Com esse ditado, meu velho quer dizer que as pessoas comentam suas conquistas, mas não pensam nas dificuldades que enfrentou. Acho que o mesmo pensamento se aplica aos graduados. Recentemente, recebi uma mensagem que dizia o seguinte: o faixa azul é respeitado, o faixa roxa é admirado, o marrom é invejado e o preta, idolatrado. Seria essa visão que os iniciantes no jiu-jitsu teriam em relação aos mais antigos. Almejamos alcançar o mesmo patamar, mas nem sempre pensamos nos “tombos” que vamos precisar levar para ter as mesmas conquistas. E não me refiro a medalhas e títulos. Mas somente à habilidade.

Por regra geral, a diferença técnica entre os atletas depende da cor da faixa. Certamente essa é uma das coisas mais incríveis que descobri no jiu-jitsu desde que comecei a praticá-lo. Fico completamente atônito quando vejo a facilidade com que os mais graduados finalizam os iniciantes. A supremacia, em dados momentos, chega a ser abissal. Tenho um companheiro de academia, faixa roxa, que precisa de pouquíssimo tempo para me finalizar. Mas em determinado treino, acompanhei atentamente um rola entre ele e um faixa marrom. O mais graduado ”venceu” com relativa tranquilidade. Até entre faixas brancas é possível ver alguma superioridade entre os colegas com mais tempo de tatame.

Onde está a diferença

Contudo, é importante lembrar que a excelência de um aluno em relação a outro não está na cor da faixa. Mas sim no que ela representa: o tempo de treino e a dedicação. Olhamos a faixa, mas nem sempre pensamos que a cor significa horas de tatame. Se usarmos a matemática e compararmos dois praticantes comuns – um faixa roxa e um faixa azul – que treinam, em média, três dias por semana, podemos avaliar melhor a questão. Considerando que o faixa roxa tem 1 ano de treino a mais que o azul, que ambos treinam 1 hora por dia e que em cada treino fazem três rolas, isso significa que o faixa roxa fez 468 rolas a mais que o azul. São quase 500 combates! O que isso representa em amassos, pressão, chaves de braços e pernas, estrangulamentos, rolamentos e até alguns apagões? A superioridade do mais graduado não provém da cor da faixa. Mas sim das dificuldades enfrentadas no tatame.

O meu pai, antes das conquistar a vidinha que leva hoje, foi agricultor, pedreiro, carregador e caminhoneiro. Dormiu muito em galpões de obra e postos de combustíveis em estradas pelo Brasil afora. Grande parte dessas situações é desconhecida pelas pessoas que não o conhecem em intimidade. O sofrimento, geralmente, é enfrentado em silêncio. Por isso recorri à história dele no início do texto para falar sobre esse tema.

O praticante de jiu-jitsu enfrenta dificuldades em aprender uma posição, a sair de um golpe, a não se desesperar durante o amasso, a enfrentar uma lesão que custa em sarar, a ganhar flexibilidade, a ignorar as marcas roxas espalhadas pelo corpo e a suprimir o próprio orgulho. É um passo de cada vez. E quanto mais tempo se caminha, mais longe se vai. Por isso, ao ver um graduado, não devemos pensar somente na cor da faixa. Mas sim em tudo que ele enfrentou para conquistá-la. É o tempo de treinamento que faz a diferença.

Excepcionalidades

Obviamente, quando falo que a primazia de um aluno sob outro está ligada à cor da faixa, estou falando de casos ordinários. Todos já vimos um menos graduado finalizar um mais graduado. Mas há de se considerar a dedicação de cada aluno aplicada aos treinos. Sempre tem os que, por motivos diversos, conseguem treinar somente uma ou duas vezes por semana. Enquanto outros treinam todos os dias e, aos fins de semana, disputam campeonatos. Há ainda os que recorrem a treinos de musculação e aeróbicos com o único objetivo de melhorar o rendimento no jiu-jitsu.

Eu mesmo tenho um colega que começou a treinar na mesma semana que eu. Contudo, ele não falta um dia. Há semanas em que vai todos os dias. E há dias em que ele faz dois treinos, um após o outro.  No início, os nossos rolas eram equilibrados. Mas agora é visível que ele está em um degrau mais alto.

Há ainda os jovens de 17 e 18 anos que, apesar de faixas azuis, tem muitos anos de treinamento. Uma de minhas filhas, por exemplo, começou a treinar aos 4 anos. Se ela não desistir, quando alcançar a maioridade, vai ter 14 anos de experiência. É o dobro de tempo que, geralmente, um adulto leva para caminhar da faixa branca até a preta.


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