ONNA BUGEISHA: A MULHER “SAMURAI” E A HISTÓRIA QUE NÃO SE CONTA


onna bugeisha

No Japão feudal um grupo de mulheres se destacavam por participar dos combates lado a lado com os samurais (Vem do verbo saburau e se refere aos membros da nobreza militar, ou “aquele que serve) e por ter um papel fundamental na administração da propriedade na ausência de seus maridos, pais, irmãos… As Onna Bugeisha ou Onna Mushas (mulheres guerreiras) seguiam o tão respeitado código ou “caminho” do samurai, o Bushido, um conjunto de regras que se baseavam em valores como, lealdade, coragem, verdade, e honra.

Acima de tudo, o papel fundamental dessas guerreiras era de educadora dos futuros guerreiros da classe nobre e militar. Treinavam desde a infância e se especializaram na naginata. Uma espécie de lança com uma lâmina curva, para compensar a desvantagem corporal aos homens. No período Edo (1603-1868), foram criadas até algumas escolas de guerra femininas, administradas e mantidas por mulheres. Uma história escondida e de participação das mulheres guerreiras na formação de uma sociedade.

Basicamente, é assim que nos apresentam uma série de histórias ressaltando o valor da mulher e sua participação nos momentos importantes da humanidade. Essas personagens enchem de orgulho e servem de inspiração para algumas guerreiras modernas, nossas jiujiteiras. Entretanto, você percebe que o papel delas, na sociedade feudal japonesa, é meio parecido com o de algumas mulheres atualmente?

Como disse Simone de Beauvoir: basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. E foi justamente desta forma que se deu o fim das Onna Bugeishas no Japão feudal. Essas mulheres foram engolidas por um tsunami chamado neo-confucionismo, sistema político/filosófico que enfatizava a importância da moral, educação e ordem hierárquica dentro de uma sociedade e governo.

Vários períodos marcam a história tão desconhecida por nós, na terra do sol nascente. As mulheres nesses diversos períodos foram tratadas de formas distintas. No período medieval, sua função social era a jovem que atraia sexualmente os homens, emprestando seu corpo para o deleite sexual e para a criação das crianças. O período feudal foi marcado por expansão territorial e diversas disputas militares, e a mulher era fundamental para manter vivo o clã dos guerreiros samurais. No período Edo, marcado pelo fim dos grandes conflitos militares que muito se beneficiou das mulheres guerreiras, os samurais tinham mais tempo para ficar em suas propriedades estudando literatura, caligrafia, e artes.

Uma nova estrutura social se estabelecia e os guerreiros de outras épocas iam cada vez mais se tornando burocratas ou comerciantes, e, o ideal de mulher guerreira é substituído por uma mulher obediente, controlada e submissa ao homem. O budismo e o confucionismo desintegraram a capacidade intelectual da mulher através do ideal de boa esposa e mãe sábia, devotada exclusivamente ao lar.

Algumas dessas mulheres ou suas filhas e netas podem ter vindo para o nosso país. O final do período Edo também foi marcado pelo início da migração de japoneses para outros países. No mesmo momento que há uma expansão de suas rotas comerciais.

E foi por me aproximar desses estudos e de observar uma brisa conservadora pairando em nossa sociedade que decidi abordar este tema. Outro dia, vi uma publicação no Instagran de uma atleta de Jiu-jitsu utilizando um trecho do hagakure, livro de Yamamoto Tsunetomo, que sistematiza a filosofia samurai, criado mais ou menos em 1703. Logo me veio um forte choque de ideias. Não há nada de errado em postar na sua rede social trecho de livro algum, afinal, não estamos aqui para “moralizar” a atitude de ninguém, ela publica o que quiser em sua rede social.

Mas, tenho certeza que a atleta, como várias outras mulheres desconhecem sobre suas irmãs Onna Bugeishas e que, “oculto nas folhas” está a força conservadora do hagakure. Praticamente, foi o “livro de cabeceira” utilizado no período Edo para justificar a “domesticação” das mulheres. Como diz o grande Tsunetomo em um trecho deste livro, sobre a virilidade: De fato o mundo está se degenerando, os homens perdem sua virilidade e se parecem cada vez mais com as mulheres. Isso é só um exemplo, não o estou julgando moralmente.

E claro, é compreensível falar assim em 1703, numa sociedade que tinha apenas estas produções para balizar seus conhecimentos. É normal se justificar em 2017, com os mesmos argumentos? Algumas figuras públicas fazem.

Tenho certeza que, atualmente, você já deve ter ouvido sobre a “degeneração” de nossa sociedade, que estamos cada vez mais perdendo valores morais, hierárquicos… E que isso é a solução para todos os problemas. Afinal, quem seria contra estes valores? O problema é que a história já nos mostrou várias vezes qual o lugar da mulher numa sociedade conservadora. Foi este ideal que impediu que mulheres acessassem as lutas por um longo período da história, que não tivessem direito ao voto, que construiu a ideia que existe esporte de mulheres e de homens. Deixo que vocês reflitam o ano de lutas dentro e fora dos tatames que foi 2017, e que será 2018. Tempos em que escrever um texto solicitando a tão divulgada igualdade no jiu-jitsu, gera uma enxurrada de comentários homofóbicos.  

Não apontem a espada contra seus ventres. Oss!

 

HOFFMANN, Leonardo. A influência do xintoísmo, pensamento chinês e zen na formação do bushido e a experiência zen de Eugen Herrigel. 2008. 158 f. Trabalho de conclusão de curso (Graduação) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.

Referências:

https://seuhistory.com/noticias/conheca-onna-bugeisha-o-cla-das-mulheres-samurais
http://academiareflexo.blogspot.com.br/2010/09/onna-musha-mulher-samurai.html?m=1

http://danibado.tumblr.com/post/144138904999/autonomia-reprodutiva-ameaçada


http://jararaca.ufsm.br/websites/nep/download/TExtos/mulher%20nikkei.pdf

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Sobre homossexuais no jiu-jitsu

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