Jiu-jitsu e a vida real das mulheres: histórias pouco contadas da guerra e da resistência não-violenta


Que o jiu-jitsu é muito além que uma arte marcial de defesa pessoal nós sabemos. Sua filosofia é aplicada à vida, no dia-a-dia, nas mais diferentes áreas e nos mais diferentes aspectos. Não há limites! Por isto, hoje eu quero contar um pouco de como o jiu-jitsu foi fundamental, com ênfase às mulheres, na guerra e em um caso de resistência não-violenta.

Pouco tempo atrás, um filme intitulado em português “As Sufragistas”, chamou a atenção para o jiu-jitsu feminino. O seu lançamento no Brasil em 24 de dezembro de 2015 foi bastante repercutido no meio do nosso esporte. Sufrágio é uma palavra que tem o significado composto. Pode significar votar (ou ser votado) ou declaração de opinião. Hoje em nosso país de Estado de Direito Democrático, temos liberdade de expressão, apesar da fase conturbada da democracia que vivemos atualmente. Mas para as mulheres, apesar de terem a igualdade garantida (ao menos no papel), a vida é um pouco mais complexa. E as inglesas não tiveram vida fácil.

Em 1897 se iniciou na Inglaterra o movimento hoje conhecido como “Movimento das Sufragistas” que, incialmente, buscava direito ao voto feminino. Direito esse que era exclusivo dos homens ingleses. Edith Margaret Garrud foi uma personagem chave para o movimento, em especial perto da Primeira Grande Guerra. Edith é descrita como uma mulher pequena e frágil de aproximadamente 150 cm de altura. Como esperar que uma mulher com estas características físicas enfrente um policial inglês? Mas vemos as origens do jiu-jitsu mostrando já a sua tão conhecida eficiência. É importante destacar que em um contexto pré- e no período da guerra, a violência contra as mulheres não era uma prioridade policial. E por isso “histórias pouco contadas da guerra”.

Edith Margaret Garrud (demonstração)

Não foi uma vida simples para aquelas mulheres. Para garantir alguns poucos direitos elas tiveram que partir para o confronto corporal. Estratégias como desobediência civil, marchas ilegais, assaltos e incêndios foram utilizadas. Confrontos corporais aconteceram inúmeras vezes e, em muitos deles, as mulheres tiveram suas integridades garantidas devido ao treinamento marcial que estavam recebendo. Por esta razão o termo “sufrajitsu” foi cunhado, pela relação que houve entre as sufragistas e o jiu-jitsu. Um dos resultados importantes do movimento foi que em 1918 as mulheres com mais de 30 anos poderiam votar. Já em 1928 as maiores de 21 anos passaram a ter o direito ao voto. Você pode ler um pouco mais sobre as Sufragistas na própria Bjj Girls Mag. Clique aqui ou aqui e veja outras questões sobre este movimento tão importante.

Associar o jiu-jitsu à defesa pessoal é, naturalmente, muito simples e direto. Mas e associar o jiu-jitsu à uma batalha não física? E, neste sentido, gostaria de falar um pouco sobre resistência não-violenta, que é, como o seu próprio nome diz, é contrária ao uso da força e da violência física.

Alguns estudiosos colocam a seguinte situação: o uso de violência contra movimentos sociais de resistência não-violenta costumam ter um efeito tanto político quanto social contrário aos agressores. E por isto o uso dos termos “jiu-jitsu moral”, ou “jiu-jitsu político” ou ainda “jiu-jitsu ético”. A ação do lado violento é usado contra si mesmo, ou seja, uma das fundamentações da arte marcial que praticamos. A característica central do jiu-jitsu “físico” não-violento é que o praticante do jiu-jitsu não-violento nem foge nem combate o oponente violento diretamente, antes, ao contrário, usa sua arte suave de tal maneira que as próprias ações do atacante violento trabalham contra ele. Naturalmente, em caso de confronto em que o agressor lhe ataque, use fisicamente a sua técnica da arte suave para preservar sua integridade.

Esta situação pode até parecer um pouco utópica, mas vamos analisar alguns exemplos. Em uma situação real de estresse, como uma tentativa de assalto a mão armada, o que seria mais importante? Seria usar a violência contra o agressor ou usar o diálogo (quando possível)? O domínio próprio, autocontrole e não-violência (que poderia resultar em violência maior por parte do agressor) são qualidades do jiu-jitsu moral.

Também podemos pensar de forma mais ampla. Para alguns estudiosos, por exemplo, o sucesso do movimento pacífico de Gandhi só foi possível pelo uso da filosofia do jiu-jitsu moral. Também temos exemplos recentes de conflitos armados em que o jiu-jitsu moral foi chave para a mudança da situação de violência. Um ótimo exemplo é no caso da Guerra em Samaniego (Colômbia), em que a resistência civil não-violenta com a estratégia do jiu-jitsu moral foi decisivo no conflito que durou deste 1997 até 2014.

Frente a isto que foi exposto fico me perguntando por qual razão muitas pessoas ainda veem o jiu-jitsu como uma filosofia de violência. Mas isto nós já conversamos aqui. E, graças a Deus, esta imagem está mudando! Bons treinos e paz! Oss!

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Comments 1

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  1. Muito bom breno…show de bola;muitos de nossos irmaos nao dao importancia para a historia do jiu-jitsu. Mas ela se faz importante para o crescimento filosofico de nossas próximas gerações

Jiu-jitsu e a vida real das mulheres: histórias pouco contadas da guerra e da resistência não-violenta

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