Uma primavera para um setembro amarelo


Em meados de outubro do ano passado (2016), Day Yoshioka, faixa preta de guarda quase intransponível cometeu suicídio. Sofria de depressão. Tinha o que muitos almejam: uma carreira de médico, a tão sonhada faixa preta, e muitos títulos.

E a questão é justamente essa: o alcance da satisfação afasta as dificuldades e, com isso, a busca por romper os desafios é anulada. Resultado: a vida perde a graça.

Como justificar o destino de Yoshioka se o jiu-jitsu é considerado como qualidade de vida? Esta é uma pergunta sem resposta, ou melhor, com respostas muito pessoais, já que cada um de nós é um terreno de emoções e vivências.

Em tempos de selfies, likes e seguidores, somos levados a montar personagens que passam longe da pessoa que somos verdadeiramente quando deitamos ao final do dia. Dia após dia, montamos nossos diários nas redes sociais em fotos vestidos de kimono, sorrisos amarelos como deste mês de setembro e punhos fechados que se esforçam em esconder a fragilidade de nossas almas

Enchemos os feeds de fotos de treino, sempre rodeados de “amigos” dos quais nossas conversas frente a frente se resumem a frases como “bom treino” e “oss”, ante a um rola. Atualizamos nossos grupos de Whatsapp com nossos compartilhamentos de fotos de pódio nos campeonatos vitoriosos que vivenciamos aos finais de semana, para contatos que não conhecem nossas noites de insônia e medo sem motivo…e que no máximo nos dizem “Parabéns”. Isso quando dizem após visualizarem!

Sinceramente, precisamos parar. Likes não trazem afeto, e os valores continuam os mesmos do século passado: família, amizades que se desenvolvem fora do wi-fi e um trabalho do qual tenhamos alegria de ir e voltar para casa. Definitivamente, a nossa risada precisa deixar de ser um kkk… e conseguir ser sentida, ouvida e transformadora para quem comunicamos.

Nada é absoluto e todos os dias são diferentes! Que aceitemos que ninguém é completamente feliz e realizado e que tristeza é fase da vida para silenciar e nos deixar sermos amados, não por quem amamos, mas por quem quer nos amar. Hoje temos uma gama de medicamentos que controlam nossas emoções e que nos impedem de experimentar, por exemplo, quão bonita pode ser uma solidão, se com ela nos fizer encontrarmos mais com Deus.

Quimicamente falando, as taxas dos hormônios da alegria estão praticamente zeradas no momento de um suicídio. Não quero aqui, banalizar a depressão ou a ansiedade, precursoras deste ato. Pelo contrário, acho tão difícil e improvável chegar, nos dias de hoje, aos trinta ou quarenta anos sem ter tido uma crise seja de ansiedade, pânico ou depressão, que acredito, sim, que a ação medicamentosa além de acompanhamento psicológico é o caminho mais correto para tratamento.

Mas quero chamar atenção de que, paralelamente, para vivermos, outras ações positivas e boas estratégias são necessárias.

E tudo pode começar com o se abrir e reconhecer que a depressão pode ter chegado também à sua porta. É não termos o preconceito sobre isso, achando que estas doenças que não são de origem bacteriana ou viral são apenas manhas.

E se prepare para que, ao falar sobre isso, tenha do lado pessoas (em um número bem reduzido, é verdade) com infinita compaixão, amor e paciência para nossas crises. Tenha coragem para falar, porque é uma forma de se aliviar, e de organizar esse quebra cabeça maluco que são nossos pensamentos.

Devemos focar em viver bem. Não nos tornemos um suicida em potencial por falta de um bom estilo de vida. E isso inclui uma boa alimentação (sim, refeições regulares, com horários fixos e boa ingestão de água), atividade física (leia-se jiu-jitsu), e com licença aos ateus: Deus! Com todo poder que há neste nome…

No mais, se vigie! Num mundo de excesso de responsabilidades, esquecemos que amigos (não os feitos com um click em redes sociais), mas os que nos visitam sem pretextos ou datas específicas, amigos que nos ligam, mas não para dar recados, mas para perguntar como temos passado verdadeiramente, são remédios da alma e evitam muitos destinos tristes, que têm justificado a campanha do setembro amarelo.

E no mais, lanço esta pergunta, de resposta fácil: Quem são essas pessoas que devem estar ao lado? Ao teu lado? Ao meu lado? Onde encontrá-las?

Certamente, no tatame. A má ou boa notícia, é que depende, e muito, de nós e de nossa postura. Somos nós que podemos fazê-los sair dos grupos de Whatsapp e trazê-los para dentro de nossas casas num almoço de domingo… ou para encontros reais com sorrisos sinceros e calor humano. Acredite! As academias não estão de portas abertas somente para defesa pessoal, mas trazem o propósito de ser uma segunda família para quem assim desejar. Decida-se!

E se você tem um amigo em depressão, vai uma dica: não desista dele. Mostre-se presente, ligue, visite, mostre que ele é importante em sua vida. Para quem sofre de depressão, toda a equipe da BGM deseja muita luz e paz em seus corações, para que suas mágoas sejam curadas e suas dores acalmadas.

Observação: O Ipê amarelo floresce no mês de setembro! 

Jiu-jitsu e paz a todos. Oss!

 

Qual sua reação

Curtir Curtir
19
Curtir
Amei Amei
12
Amei
Haha Haha
0
Haha
uau uau
7
uau
Triste Triste
0
Triste
Grr Grr
1
Grr

Comments 0

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Uma primavera para um setembro amarelo

log in

reset password

Voltar para
log in