O que a ciência moderna tem nos dito sobre o jiu-jitsu?


Este texto será um pouquinho diferente dos demais. Como sou um cientista em pleno exercício da profissão (muito mal valorizado no Brasil), resolvi olhar na literatura científica internacional (escrita e publicada em inglês somente) alguns aspectos sobre a arte suave. A curiosidade, talvez inerente aos cientistas, me levou a pesquisar vários artigos científicos que descrevem diferentes aspectos sobre a arte suave.

Para este levantamento eu utilizei um banco internacional de pesquisas chamado Web of Sciences, utilizando “jiu*jitsu*” como tópico da pesquisa e somente artigos publicados muito recentemente, ou seja, aqueles publicados entre 2016-2017. Antes de entrar nos tópicos de curiosidades que encontrei, gostaria de esclarecer aos leitores e leitoras que, como qualquer dado científico, o mesmo pode ter diferentes interpretações e, mesmo, controvérsias. Isto posto, vamos lá!

Vou começar com um trabalho publicado por um grupo de brasileiros¹ que desenvolveu pesquisas em Barbacena. A equipe avaliou a questão dos alongamentos em um grupo de quinze atletas de jiu-jitsu. De forma muito interessante está descrito no trabalho que o alongamento antes dos exercícios físicos, apesar de ser descrito como um fator que evita lesões e dores musculares, não é um consenso na literatura científica da área.

Confesso que fiquei pasmem uma vez que eu tinha como certo que alongamentos eram cruciais antes da prática esportiva. De forma mais interessante ainda, a conclusão do trabalho foi de que para esportes de forte pegada como o jiu-jitsu, alongamentos dos músculos dos dedos e flexores do pulso devem fortemente serem evitados. Vocês imaginavam isto? Confesso para vocês que eu não tinha a menor ideia disto.

Muitas vezes lemos ou sabemos de situações que o jiu-jitsu é utilizado como uma filosofia de vida, ou seja, que a arte suave é utilizada nos mais diferentes aspectos da vida de seus praticantes. Pois agora, também é utilizado em sentido metafórico pela psicologia e psiquiatria e de forma que segue o método científico. Pesquisadores australianos publicaram este ano um trabalho de psicologia associado com psiquiatria onde o jiu-jitsu é a metáfora central para se compreender e se superar a rejeição induzida da ciência², ou seja, quando crendices parecem ser mais importantes do que fatos científicos. Um exemplo disso é acreditar que o Planeta Terra é plano. Como cientista eu nem mesmo havia ponderado o quanto existem de pessoas que rejeitam a ciência. Até nisto o jiu-jitsu está tendo uma ótima influência na minha vida.

No trabalho, os autores colocam que assim como jiu-jitsu utiliza a força do oponente para neutralizá-lo, no confronto no plano das crendices, medos e fobias, ideologias e outros, é melhor usar a estratégia motivacional e então a partir da percepção da pessoa mudar a sua perspectiva por persuasão. Persuasão não é confrontar a pessoa em seu campo de ideias, mas partir deste campo para construir algo melhor com base na motivação. É como o jiu-jitsu faz, ou seja, usa o que o oponente tem contra si mesmo. Fantástico! Não acham?

Um último aspecto que quero compartilhar hoje é uma excelente notícia. É sobre um estudo realizado por um grupo espanhol sobre a ingestão de cafeína³ e o seu efeito na performance muscular de quatorze atletas de elite do BJJ. Os nomes dos atletas permaneceram anônimos, mas todos tinham entre 29-32 anos e seus pesos variavam entre 62-80 kg. Muitos parâmetros foram avaliados, mas o que realmente foi é interessante para os praticantes da arte suave é a conclusão do estudo. A ingestão da cafeína pré-treinamento teve como resultados uma melhoria na força dinâmica e
isométrica muscular, força, enrijecimento muscular. Os autores sugerem a cafeína como um poderoso ergogênico como complementação para melhoramento de performance não só no jiu-jitsu mas para atividades físicas em geral. Portanto, bom cafezinho antes dos treinos!

Se você gostou desta coluna, por favor se manifeste. Há inúmeras outras curiosidades científicas que eu encontrei mas não relatei desta vez. Se gostarem, fica para uma próxima oportunidade!

Forte abraço e ótimos treinos! Oss!

 

Referências

¹ C. E. Peixoto, T. K. da Silva TK, C. S. de Resende, Y. G. M. Rezende em The Role of Static Stretching on Performance Variables and Induced Effects of Exhaustion Exercises in Brazilian Jiu-Jitsu Athletes. Arch Budo 2016, 12, 211-218.

² M. J. Hornsey, K S. Fielding em Attitude Roots and Jiu Jitsu Persuasion: Understanding and Overcoming the Motivated Rejection of Science. American Psychologist 2017, 72, 459-473.

³ F. J. Diaz-Lara, J. Del Coso, J. M. García, L. J. Portillo, F. Areces, J. Abián-Vicén em Caffeine Improves Muscular Performance in Elite Brazilian Jiu-Jitsu Athletes. European Journal of Sport Science 2016, 16, 1079-1086.

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Comments 12

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  1. Se identifica como cientista mas poderia dizer um pouco da sua área, linha de pesquisa, etc. Bom tópico pra ser discutido, no aguardo do restante (em tempo, o que a ciência não tão moderna, das últimas 2 décadas, pode dizer sobre a arte suave?)

    1. Prezado Vitor, sou cientista da área de química, com doutorado em química orgânica e dois pós-doutorados. Você pode ver meu currículo completo na plataforma Lattes do CNPq. Sou membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências e editor de duas revistas internacionais de química. Espero ter ajudado. Abs

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