O segredo do jiu-jitsu?


Uma pergunta que todo praticante de jiu-jitsu, e na verdade de qualquer atividade, já fez é: “qual é o segredo?”, outras vezes é “como posso melhorar mais rapidamente?”, ou já teve o dilema “é talento o que eu não tenho?” (Veja o nosso texto sobre o que é o talento). A resposta é sempre a mesma: “não tem segredo, vai treinar!”, pois sabemos que as escadas ao pódio estão feitas de sangue, suor, e disciplina. Mas, por que? O que hoje vamos a explorar é um fato que tem sido bastante pesquisado: o segredo, além de fazer prática, é a qualidade e a efetividade dessa prática.

Vamos falar primeiramente da prática. Quando queremos fazer alguma coisa, essa ação começa no cérebro, onde a informação do movimento (sinais ou os estímulos) é enviada aos músculos. Essa viagem é feita através dos axônios, que são cadeias de fibras nervosas, e pode ser comparada com o fluxo de sinais eléctricas através de um cabo eléctrico que conta com um isolamento para reduzir a perda de energia durante a viagem. Nos axônios, esse isolamento é chamado de “mielina” e alguns estudos sugerem que a repetição do movimento aumenta as capas dessa substância ao redor dos axônios, permitindo que as sinais sejam transmitidas até os músculos mais eficientemente, ou seja sem perdas de informação ou energia.

A base da prática é a repetição, então quando repetimos uma técnica, fazemos os drills, etc, estamos favorecendo esse processo conhecido como mielinização e fazendo com que a realização daquela técnica se torne mais fácil e mais rápida. Tudo isso é o que realmente está acontecendo atrás da famosa “memória muscular”. (Veja nosso texto sobre outro tipo de memória: a motora).

Isso significa que fazer muitas repetições vai garantir o domínio da arte suave? No livro “Outliers”, publicado em 2008,  o jornalista Malcolm Gladwell sugeriu que sim e foi até afirmar que tinha o número mágico de tempo que era necessário para o domínio de qualquer atividade: 10,000 horas. Porém, hoje sabemos que a teoria das 10,000 horas de prática foi uma interpretação errônea e incompleta dos resultados publicados pelo psicologista sueco Anders Ericsson no seu artigo “O papel da prática deliberada na aquisição do desempenho notável”. Nele, Ericsson deu uma média do tempo que os expertos passam praticando, encontrando que alguns passavam muito menos do que 10,000 enquanto outros passavam até 25,000 horas. O que Gladwell fez foi focar na quantidade da prática e não na qualidade, que é muito mais importante.

Então, se o segredo é a qualidade da prática, como garantir essa qualidade? Hoje ainda há muito por descobrir nesse campo, mas os estudos e as observações feitas sugerem as seguintes dicas para a qualidade e a efetividade da prática de qualquer atividade:

  1. Prática deliberada: Focar nos detalhes atrás das coisas mais gerais faz com que o erro seja menor e o entendimento profundo da atividade seja maior. No Jiu Jitsu sabemos que uma técnica tem milhares de detalhes para cada técnica, então observe e ouça seu mestre, quem com certeza saberá passar o mais importante para você focar.
  2. Concentração máxima: Reduzir distrações (laptops, smartphones, etc) ajuda para aumentar a produtividade da atividade. No tatame não há lugar para esse tipo de distrações, mas tem hábitos que devemos mudar como falar muito com os parceiros durante explicações e repetições, e até durante as lutas (mesmo quando você não estiver lutando é bom observar os outros).
  3. Começar devagar: Quando for repetir uma técnica, mesmo sendo uma que você já conhece, é importante focar no começo da sessão na qualidade (os detalhes) até ela estar certinha e depois  aumentar gradualmente a velocidade.
  4. Distribuir os tempos de prática: Não é por acaso que uma sessão de treino está dividida, por exemplo, em aquecimento, repetições, técnica e lutas/rolas. É bom fazer sessões ao longo da semana para diferentes atividades relacionadas com o jiu-jitsu para apoiar o processo dentro do tatame.
  5. Prática mental: Você já ficou um tempinho imaginando alguma luta durante o caminho a casa? Alguns estudos têm demonstrado que o desempenho pode melhorar quando pensamos em detalhe nas atividades que fazemos dia a dia.
  6. Feedback: A maioria das atividades que começamos fazer precisam de uma revisão e correção. Peça para alguém olhar você praticar e corrigir detalhes que vão melhorar a eficiência da técnica para você depois praticar com maior confiança.
  7. Ensinar: Albert Einstein falou “Se você não consegue explicar algo para uma criança é porque você também não entendeu”. Se você tem um grupo de parceiros apaixonados pelo jiu-jitsu, tentem se reunir pelo menos uma vez por semana e fazer um “laboratório” em que possam explicar diferentes técnicas (podem revezar quem explica) e resolver dúvidas juntos.

Tem segredo? Talvez não, mas sim tem ciência e muita dedicação atrás do domínio, aprendizagem e sucesso do jiu-jitsu. Não esqueça de focar na qualidade e não na quantidade da sua prática, e se tiver mais dicas por favor compartilhe!

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