Lesão oral no jiu-jitsu: relato de um praticante e importância da odontologia no esporte


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Como a arte suave se baseia em pegada, desequilíbrio, projeção e domínio de solo, é quase inevitável que haja aquele contato mais rígido com a boca. Às vezes um estrangulamento mal encaixado, ou até proposital, não vamos negar, vai nos deixar um incômodo por alguns dias. E como incomoda…

Vamos pensar em outro caso mais complicado: acrescente toda pressão sofrida pela boca durante um combate por uma pessoa que utiliza aparelho ortodôntico. Pensando nesses casos e num tratamento adequado para as lesões orais sofridas no jiu-jitsu, convidei um velho amigo que está concluindo sua formação acadêmica em odontologia. Joemer Moutinho Camargos vai nos relatar sua experiência como praticante de judô/jiu-jitsu que utiliza de aparelho ortodôntico e o que ele recomenda para tratarmos de algumas lesões orais durante o treinamento. Veremos também a importância da odontologia esportiva na melhoria do desempenho e o acesso a estes profissionais.

Relato de Joemer:

É muito ruim ter lesão oral (lesão na boca), principalmente quando essa lesão é traumática e lhe atrapalha em alguma coisa.

Hoje, sou estudante de odontologia e praticante de jiu-jitsu/judô. Faz 21 anos que comecei a praticar o judô e 19 anos o jiu-jitsu, arte que mais pratiquei durante todo esse tempo. Sou faixa roxa das duas artes, não pelo “tempo de treino” e sim pelo tempo que pratiquei. De todos esses anos tive várias lesões que me deixaram fora do tatame por alguns períodos. Lesões que vão desde tornozelo e joelho chegando até a acometer os braços, ombros e a boca.

Não me lembro de ter lesão oral no judô, mesmo porque as lutas de judô são 70% do tempo em pé (Nage Waza) (SILVA, 2009), já as de jiu-jitsu são muito menor que isso, acredito que, sendo muito modesto, chegue a uns 10% a 5% do tempo. O resto do tempo a luta é de solo, o contato físico é mais intenso e as possibilidades de lesão na boca aumentam.

Em 2008 fui graduado passando da faixa azul para a faixa roxa. Aí começaram meus problemas com lesões orais. Nesse mesmo ano comecei um tratamento ortodôntico instalando aparelho fixo na arcada superior e inferior para correção de uma mordida classe 2 Divisão 1 de Ângulo, (aquela que os dentes anteriores superiores passam, e muito, os dentes inferiores) e uma mordida cruzada. Após esse início de tratamento, qualquer coisa que tocava em minha boca gerava um desconforto e feria a bochecha. Como os treinos de jiu-jitsu são de contato, não demorou muito para que as lesões ulcerativas por trauma (aftas) aparecessem.

Não bastassem os treinos, vinha aquela “missão” de recém graduado de não “fazer feio” e manter postura de bom faixa roxa pra pegar mais duro nos treinos e consequentemente lesionar a boca. Lesões que, por não usar o protetor, fazia com que os brackt’s entrassem na mucosa, provocando sangramento no momento do trauma e aftas que, dependendo da acidez da minha boca, no dia seguinte ou dois dias depois apareciam.

A afta traumática é classificada como úlcera aguda e persiste na cavidade de 6 a 10 dias (PAIVA 2013). Não só a afta mas, qualquer machucado na região da boca que não “sara” num período de no máximo 15 dias, deve se consultar com um dentista, pois pode se tratar de um problema mais grave.

Como CARPEGGUIANE citou em sua monografia, os atletas de jiu-jitsu não dão muita atenção para prevenção de lesões e não fugi a regra, não usei protetor de boca e por isso tive muitas lesões orais acarretando em desconforto, não só no treino mas, no dia a dia.

Dicas: 

No meu caso, sempre que machucava a boca, no momento da lesão, ingeria água gelada e logo após o treino, fazia bochecho com água morna com sal pra poder aliviar e ajuda no processo de cura. Depois passei a usar ceras ortodônticas, que na verdade ajuda, mas que o correto mesmo era usar o protetor de boca.

Recomendo usar protetor bucal, mesmo que não use aparelho ortodôntico, para proteger de outros traumas como a avulsão dentária (quando o dente sai da boca). Caso isso ocorra, mantenha o dente em um copinho encoberto com a própria saliva da pessoa, em soro ou em leite, pois, há a possibilidade do dente ser reimplantado no mesmo local.


A odontologia esportiva é uma recente área de atuação que visa a melhoria do desempenho de atletas prevenindo lesões da atividade, atuando com uma equipe multidisciplinar. Já possui uma associação, a ABRODESP (Associação Brasileira de Odontologia Desportiva), que desenvolve o trabalho em conjunto com médicos, fonoaudiólogos, nutricionistas e psicólogos.

As alterações bucais, segundo esses especialistas, decorrem em redução do desempenho dos atletas, e podem levar ao aumento do risco de lesões e dificuldades para recuperação destas. Ocorrem também diminuição da capacidade aeróbia, não aproveitamento do alimento ingerido, alterações na postura e na visão, dores de cabeça, zumbidos, estafa e fadiga precoce.

Nosso país é o que mais possui dentistas no mundo, porém, mais da metade da população, segundo o IBGE, não se consulta anualmente (55,6%). Segundo o presidente da ABO (Associação Brasileira de Odontologia), em entrevista para o Estadão, o brasileiro dissocia muito a saúde bucal da geral. O que nos leva a pensar na importância da informação na vida dos atletas e também da população em geral.

Sabemos que pensar numa equipe multidisciplinar voltada para o nosso desempenho sairia um pouco da realidade de muitos praticantes. Tendo em vista a falta de patrocínios e de investimentos em atletas de jiu-jitsu. O que se aproxima da realidade de equipes profissionais. Entretanto, é importante analisar o nosso quadro de visitas periódicas a estes profissionais, do ponto de vista da integridade, durabilidade e do bem estar do praticante trabalhador ou não, na prevenção dos problemas já citados. Oss!

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