Respondendo à pergunta mais difícil


Em outubro fiquei afastada dos tatames por causa de um coágulo que se formou no meu joelho esquerdo depois da imbolização de uma fratura de tornozelo. Quer adivinhar qual foi a primeira pergunta na minha cabeça? É mesmo: Quando posso treinar jiu-jitsu de novo? Se você treina há três meses ou há dez anos, você já fez essa pergunta para seu médico, seu mestre, parceiros de treino, sua mãe, seu pai, o google, o motorista de ônibus, o céu, os deuses, etc. De repente, nossa saúde vira pesquisa com a esperança de reunir a maior quantidade possível de histórias de sucesso de pessoas com situações similares.

Por que precisamos dessas histórias? Um dos diferentes canais de aprendizagem do ser humano é a experiência, que pode ser pessoal ou alheia. Compilar dados ou informação sobre um sucesso que já aconteceu nos ajuda a ter uma ideia do possível resultado de um sucesso igual ou parecido. No caso de uma lesão, essa informação é valiosa não só para estimar o tempo de recuperação, mas primeiramente para saber que há efetivamente uma recuperação, uma esperança.

Dominick Cruz, três vezes campeão de peso galo no UFC, falando sobre ter lido sobre um esportista que sofreu a mesma lesão que ele, diz: “(…) essas pessoas têm que existir no mundo só para a gente saber que é possível e isso foi o que (me deu) essa mentalidade. Quando você faz com que seja maior do que você mesmo é o único jeito de obter a força para sobreviver esse tipo de situações e foi mesmo o que me ajudou”. Então ,muitas vezes usamos essas experiências como fonte de motivação, inspiração e paciência para encarar nossa própria recuperação.

Além disso, quando o panorama não é muito animador a pergunta de “quando vou treinar de novo?” vira “será que vou treinar de novo?”. Não só nos casos de lesões mais graves, mas também porque, para muitos, é frustrante ficar afastado de tanto em tanto ou ter sempre dor ou lesões.

Faz pouco o americano Tom DeBlass, faixa preta de Ricardo Almeida, quem é conhecido pelo seu conteúdo motivacional em redes sociais compartilhou o seguinte: “labrum rasgado, manguito rotador rasgado, cirurgia do LCA no joelho direito, 80% do menisco removido no joelho esquerdo, nariz quebrado três vezes, dedo do pé quebrado, 4 concussões, ligamentos rasgados no tornozelo, mão fraturada, prolapso de disco na parte baixa das costas, tendão rasgado do cóccix, e mais outras. Não me fala que você está muito velho ou machucado para treinar. A vida é de escolhas, arrumamos jeito ou não. Também lembre, sorria sempre”. E não é só isso o que encontramos nas redes, também há fotos com pequenas frases como o famoso “no pain no gain”, “can’t stop won’t stop”, todas como o objetivo de incentivar atitudes corajosas.

Tudo isso é uma dose diária de coragem para quem estiver afastado ou não. Porém, vamos tomar cuidado. Faz pouco recebemos uma mensagem de uma pessoa perguntando se a colunista que tinha sofrido TVP (eu) já estava treinando, pois ele estava também com coágulo e queria saber o que podia fazer. Eu queria responder “Sim! Vai lá treinar! Faz isso e aquilo”, mas isso teria sido muito irresponsável porque eu não sou médica e não tenho a formação necessária para isso, especialmente sendo uma situação de saúde tão séria.

O que eu tenho é minha experiência, quer dizer, o resultado de diferentes circunstâncias e condições, únicas, que teve que estudar e superar com a ajuda e a companhia de muitas pessoas para conseguir o que consegui. Então, minha experiência vai mostrar a ele que é possível e vai dar uma forca para ele continuar na luta mesmo, mas não vai dar resposta direita à sua pergunta.

Finalmente, também temos que tomar cuidado quando pedimos coragem para alguém nessas situações porque muitas vezes ouvimos coisas do tipo “isso não é nada, segura e vai lá lutar, vai treinar!”. Por que? Porque não podemos ficar com medo a vida toda, temos que arriscar, não é esse o jeito marcial? É, mas não só isso. O dever de hoje é revisar de novo o Bushido: “Um samurai deve ter coragem heroica. Viver é arriscado e perigoso e esconder-se como uma tartaruga se esconde em sua concha não é a maneira mais adequada de viver. Devemos aprender a viver a vida ao máximo, intensamente. Substitua o medo pelo respeito e cautela. A coragem heroica não é cega, ela é inteligente e forte”.

O que pode significar isso último? Significa que não é só arriscar, é pensar bem nesses riscos e atuar inteligentemente baseado nas diferentes informações que temos e hoje. É quando devemos respeitar e imitar mais aquela coragem inteligente do samurai. Então vamos lá, vamos treinar, falar e responder essa perguntar mais inteligentemente, né?

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