Kyra na “terra dos homens”


Por Carolina Lopes e Mariela Barroco

No último final de semana (22 e 23 de julho), foi realizado o campeonato Gracie Pro no Rio de Janeiro. Desde a divulgação, a competição já prometia uma estrutura diferenciada e premiação igual para as categorias femininas e masculinas. Além da “luta da década” entre Roger Gracie e Marcus Buchecha e o fato de ser realizado em uma das Arenas que foi palco das Olimpíadas. De fato, o evento trouxe novidades, mas sem dúvida a cereja do bolo foi resgatar um pouco da atmosfera das lutas casadas dos anos 90, espetáculo que nós cariocas não tínhamos há muitos anos.

Claro que nada é perfeito, alguns atletas que lutaram reclamaram bastante dos atrasos, por exemplo. Mas, ainda assim, o Gracie Pro surpreendeu pela proposta diferenciada e conseguiu cumprir muito do que prometeu, trazendo ainda cobertura do Canal Combate no segundo dia (finais da faixa preta e a luta principal).

Um dos principais nomes por trás do evento foi o de ninguém menos que Kyra Gracie. Sabemos que é preciso uma equipe grande para realizar um campeonato como esse, mas o nome que acaba chamando mais atenção é o de Kyra, pela promoção do evento. Ela, aliás, esteve muito envolvida durante o evento, tanto de kimono no festival que abriu o Gracie Pro, quanto fora dos tatames, nos bastidores.

Ela contou ao Combate.com que queria criar o evento que não teve quando atleta, “aliando entretenimento com as lutas, toda essa experiência. Área kids, estande, área de aquecimento, tudo pensando no bem estar do atleta, cuidado muito especial com quem está participando do evento”.

Mas nosso objetivo aqui não é falar só do evento, e, sim, de figuras como de Kyra Gracie e sua importância para o esporte. Ela foi a primeira faixa preta do clã e quando os Gracie viram que ela queria levar o jiu-jitsu a sério, aconselharam que ela deixasse “a luta com os homens”. Durante sua jornada, ganhou cinco títulos mundiais e três do ADCC. Hoje continua atuando em prol da arte marcial e também atua como apresentadora e comentarista.

O jiu-jitsu feminino vem crescendo muito, apesar de ainda ter espaço para muitos avanços, mas na época do auge de Kyra nas competições, era muito diferente. Ela contou ao Combate.com que as mulheres não tinham incentivo algum, “não lutávamos no dia principal do evento, mesmo sendo faixa preta, lutávamos no dia de crianças e dos atletas da faixa azul”. Por isso ela sempre lutou pela visibilidade e reconhecimento das mulheres e oferecer a mesma a premiação para categorias masculinas e femininas no Gracie Pro foi uma maneira de buscar essa igualdade.

Apesar da ideia de igualdade ser óbvia para muitas de nós, ainda encaramos muitos obstáculos no meio da arte suave. Por mais que muitas vezes esses obstáculos não sejam totalmente declarados, no próprio evento (tocado por uma mulher), o mestre Robson Gracie, em sua entrevista, declarou que aquilo era “terra dos homens” e que fosse para o balé quem não aguentasse (apesar de ter reconhecido o mérito de Kyra pela realização). Nosso respeito pelos grandes mestres permanece e reconhecemos a contribuição deles para o jiu-jitsu. Porém, ainda vivemos com uma mentalidade que surgiu na época deles, de que este lugar de destaque e de ação no esporte talvez não pertença às mulheres.

Mas a Kyra, como tantas outras atletas  e professoras, mostram a cada dia novas conquistas e, assim, também abrindo cada vez mais espaço para as meninas no jiu-jitsu. Se antes lutávamos para ter o direito de pisar nos tatames de treino e competição, já mostramos que lugar de mulher é no tatame e também nos cargos que “gestão” da arte suave.

Esse evento foi mais um exemplo que o envolvimento de mulheres no meio da arte só tem a acrescentar para todos. A cada dia provamos que o jiu-jitsu não é a “terra dos homens”, mas a terra de todos e que nós, mulheres, chegamos para ficar e fazer a diferença nos tatames.

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