Jiu-jitsu e hipertensão: posso praticar?


Já imaginou você num dia normal de treino, tudo correndo bem até que, na hora da luta, uma das atletas começa passar mal e sofre um acidente vascular cerebral (derrame, popularmente conhecido) decorrente da pressão alta que ela tinha e nem sabia? Exagero? Infelizmente não. Pode acontecer e, o desconhecimento de seu estado de saúde pode levar a tal fato.

Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, 12 milhões de brasileiros não sabem que tem hipertensão, e apenas 10% das pessoas com pressão alta fazem acompanhamento médico, ou seguem suas recomendações (ao todo, são 30 milhões de brasileiros doentes). Segundo o Ministério da Saúde, 1 em cada 4 brasileiros possuem hipertensão. O mais triste, a doença afeta muito as mulheres e o número de casos cresce conforme a idade vai aumentando.

O consumo alto de sal, bebidas alcóolicas, sedentarismo e obesidade, diabetes e histórico na família são alguns dos fatores de risco. Entretanto, o grande vilão silencioso é o sal. Seu consumo alto causa uma resposta fisiológica que reduz a atividade do sistema renina-angiotensina, que são um conjunto de enzimas e receptores envolvidos no controle do volume de líquido extracelular e na pressão arterial. Estudos comprovaram que a população urbana, diferente da rural, adicionam uma quantidade desregulada de sal em seus alimentos, esquecendo que o sódio já está presente em alguns deles (70% dos brasileiros). A recomendação de consumo diário é de menos de 5 gramas (OMS).

O exercício ajuda?

Os exercícios físicos causam alterações cardíacas em todo sistema orgânico, por conta da quebra da homeostase, com objetivo de organizar-se para suprimir a nova demanda metabólica imposta sobre o indivíduo que pratica a atividade. E o sistema cardiovascular é o principal impactado neste processo, pois precisa fornecer suprimento sanguíneo para a musculatura ativa. Sendo assim, uma pessoa que desconhece sua pressão arterial e desenvolve uma atividade física sem acompanhamento ou acima dos níveis de normalidade pressórica 120/80 corre um sério risco.

Exemplo, a atleta que está com a pressão arterial entre 160/13 no início da atividade pode desenvolver um quadro de infarto ou um acidente vascular cerebral, o famoso derrame, tendo em vista que durante o exercício suas contrações musculares irão aumentar esta pressão. O desconhecimento sobre respostas fisiológicas de algumas bebidas termogênicas pode também complicar. Não é incomum ver pessoas ingerindo estimulantes antes dos treinos, lembrando que eles também alteram nosso ritmo cardíaco.

É muito importante que antes de iniciar qualquer atividade, dada toda esta circunstância e dados da realidade, que faça um exame médico, informando detalhadamente a atividade que vai ser desenvolvida, ou se perceba os sintomas. No caso da hipertensão os sintomas são os seguintes: dores de cabeça, cansaço, tonturas e sangramentos no nariz. O método mais seguro para acompanhar se possui ou não hipertensão é verificar regularmente a pressão arterial.

As respostas do treinamento físico regular, de baixa intensidade, associado a uma dieta equilibrada são muito positivas a níveis pressóricos.

E o jiu-jitsu?

O jiu-jitsu é uma atividade bem peculiar, do ponto de vista de níveis cardíacos, pois se baseia em momentos de picos do ritmo, na defesa ou ataque das técnicas, como também uma pausa para estudar o adversário, produzir estratégias e até voltar ao ritmo anterior (neste caso, sabemos que observa-se este comportamento nas atletas com mais tempo de treino). Os iniciantes costumam se desgastar mais por conta da inexperiência e insegurança técnica, utilizando a contração isométrica, praticamente, em toda duração da luta, o que resulta numa alteração cardíaca bem mais elevada.

Mesmo que existam estudos comprovando que a atividade aeróbia produz resultados mais positivos para controle da pressão arterial (redução em 75% dos pacientes hipertensos), alguns pesquisadores indicam que o jiu-jitsu pode induzir o praticante a respostas fisiológicas e metabólicas positivas por tempos prolongados e em etapas de esforços elevados. Foi observado, neste estudo feito com atletas de jiu-jitsu, uma redução considerável da pressão arterial no período de recuperação. Porém, é preciso que tais estudos sejam feitos com indivíduos que possuem hipertensão leve. (Não esquecendo, no jiu-jitsu predomina o sistema anaeróbio).

Mas, se identifiquei que possuo hipertensão, não posso praticar o jiu-jitsu? É importante se dizer que as atividades físicas, de uma forma geral, são colocadas de maneira equivocada para a população. Há um mito que a atividade de alta intensidade causará ao praticante respostas rápidas e mais eficientes, como melhorias estéticas, adaptações cardiovasculares refinadas. No caso do hipertenso, a literatura recomenda atividades moderadas regulares e o uso de medicamentos. Alguns médicos prescrevem primeiro a atividade regular moderada e depois os fármacos.

É preciso entender que toda e qualquer atividade necessita de uma preparação, seguindo as leis do treinamento esportivo (adaptação, sobrecarga, interdependência volume-intensidade, continuidade e especificidade) e, sobretudo, entender que cada pessoa é individual biologicamente. O jiu-jitsu pode ser muito proveitoso para quem possui pressão alta ou para controlá-la. Basta que se entenda a gravidade da doença que se possui e que o profissional com que esteja treinando conheça os riscos, para dosar o volume e a intensidade da atleta com o problema. A arte suave pode ser praticada para manutenção da saúde também!

No mais, destaco a relevância deste tema e que se discuta mais nas academias de todo o país. Destaco também a importância de se monitorar a pressão arterial regularmente. O ambiente está poluído de alimentos processados com um nível muito alto de sódio e conservantes. O vilão, não esqueça, é muito silencioso. Uma dieta equilibrada associada a atividade regular pode dar sinais positivos no tratamento, mas não confunda com a cura! Oss!

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